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Desafios e oportunidades da formação dos catequistas (I)

Desafios e oportunidades da formação dos catequistas (I)

Chegamos em um dos meses mais especial do ano: AGOSTO. Conhecido por muitos como o mês vocacional, é nele que celebramos todas as vocações sejam elas matrimoniais, sacerdócio, leiga e religiosa. E também, celebramos o seu dia catequista. Em comemoração a você, publicaremos durante as próximas semanas artigos sobre os Desafios e oportunidades da formação dos catequistas.  O primeiro capítulo deste compilado trata das etapas de uma Catequese de acompanhamento. Os textos foram publicados originalmente no portal Material de Catequese. Leia:

A partir deste pequeno testemunho pessoal e seguindo o fio da parábola de Filipe e do eunuco (At 8,26-40), tentarei falar-vos das minhas convicções sobre a figura do catequista, das suas atitudes, do seu estilo,  do método do seu acompanhamento.

Sublinharei quatro passagens dos Atos dos Apóstolos que desenham quatro traços de um catequista acompanhante/formador. Fá-lo-ei a partir de quatro pares de verbos.

1. Acolher e deixar-se acolher

Na primeira parte, a narrativa fala-nos do encontro entre Filipe (o evangelizador) e o eunuco (o adulto à procura). Encontramos uma série de verbos reveladores atribuídos a Filipe: partir sem demora, correr, ouvir, subir para o carro, sentar-se a seu lado. Indica-nos uma progressão delicada e profunda de entrar em relação com o outro. Nesta primeira parte (que é já um anúncio), Filipe é passivo: não fala. Limita-se a aproximar-se e a escutar, ou seja, a entrar numa relação verdadeira, autêntica. A sua única intervenção é uma pergunta que ajuda a pessoa a tomar consciência da sua busca e a formular a questão: “Compreendes verdadeiramente o que lês?”. Filipe coloca questões ao seu interlocutor para que a sua necessidade de vida se aprofunde. Por seu, lado aceita as perguntas do eunuco e faz-lhe as suas.

Esta primeira parte do texto sugere-nos uma primeira fase de um esforço de acompanhamento na fé. O caminho da fé exige um tempo de encontro recíproco, de hospitalidade mútua. A palavra “hôte” (hóspede/hospedeiro) na língua italiana, e em muitas outras, é ambivalente: designa ao mesmo tempo aquele que acolhe e aquele que é acolhido. A reciprocidade está inscrita na língua humana.

Com efeito, é bem a atitude do próprio Jesus. No texto paralelo dos discípulos de Emaús, Jesus entra na conversa do outro, deixa-se acolher na necessidade de vida dos dois discípulos: “ Que palavras são essas que trocais, enquanto caminhais?””De que falais?” (Lc 24,17). Quando atravessa Jericó, diz a Zaqueu: “Zaqueu, desce depressa; hoje preciso ficar em tua casa” (Lc 19,5). O que transforma o coração de Zaqueu não é ser convidado por Jesus, mas descobrir que Jesus  lhe pede para ser convidado, que gosta da sua companhia, que confia na sua capacidade de acolhimento. E é a primeira vez que isto lhe acontece.

Como diz André Fossion na sua pequena gramática espiritual para uma pastoral de criatividade: “A tarefa de evangelização é muitas vezes enunciada em termos de exigência de acolhimento. Diz-se que as nossas comunidades cristãs devem ser acolhedoras. Claro que sim. Mas não há neste convite a ser acolhedor para com os outros uma posição de superioridade em relação a eles? Ao multiplicarmos os sinais de acolhimento não estaremos a dizer-lhes implicitamente: “Vinde encontrar em nós o que não encontrais em vós?”. Assim, no jogo da comunicação, o que acolhe coloca-se sub-repticiamente numa posição alta enquanto o acolhido é remetido para uma posição baixa. Daí a dificuldade em conduzir um diálogo evangélico autêntico quando se fica preso na armadilha de uma relação dominante/dominado. Para sair dela não teríamos, conforme o Evangelho, de inverter a lógica: nunca procurar acolher o outro mas arriscar-se a ser acolhido por ele, confiando nas suas capacidades de acolhimento?”.

O esforço da fé implica que o evangelizador se deixe acolher na vida, nas perguntas, nas dúvidas, na necessidade de vida do outro. E não se trata de uma estratégia didáctica, mas de uma profunda atitude humana.

 

B) Evangelizar a partir de si, deixar-se evangelizar a partir do outro

A segunda parte do texto conta-nos a etapa do anúncio do Evangelho. A narrativa de Lucas limita-se a dizer-nos num versículo muito concentrado que Filipe “lhe anunciou a Boa Nova de Jesus” (v. 35). Literalmente: “evangelizou-lhe Jesus”. Não sabemos o que Filipe disse ao eunuco. Mas o texto de Isaías sobre o Servidor sofredor faz-nos compreender que foi direito ao coração da mensagem cristã, o mistério da morte e ressurreição do Senhor. Há ali um detalhe importante: a referência à vida cortada, sem descendência, faz-nos perceber que o que Filipe lhe disse alcançou directamente a sua necessidade de vida. Também ele era um homem marginalizado, desprezado, excluído do meio social e religioso por causa da sua mutilação física, da sua impossibilidade de ter descendência. Nesta situação de pobreza radical, Filipe faz soar os sinos de Páscoa sobre aquela situação em concreto.

Notemos que, para que a mensagem do evangelizador seja apercebida como significativa por quem o escuta, torna-se necessário que essa mensagem seja uma boa nova para a vida do evangelizador. Falar da fé é falar de Jesus, é falar do Evangelho a quem o escuta,  é falar de si mesmo. Sem a implicação destes três elementos, o anúncio não é uma boa nova.

O acompanhante/formador é, sobretudo nesta segunda fase, uma testemunha da graça de Deus. Proclama o Evangelho dizendo o que o Evangelho operou nele. Podemos dizer, estritamente falando, que ele não testemunha o Evangelho (como se o Evangelho fosse declaradamente uma coisa definida) mas aquilo em que o Evangelho o tornou, e o que o Evangelho pode tornar-se para o destinatário.

Neste jogo de transmissão, a situação do destinatário modifica a percepção e a experiência do evangelizador. O movimento não é unidireccional. A situação do eunuco abre a Filipe uma nova percepção da fecundidade do Evangelho na sua própria vida.

 

C) Criar e ser criado

A terceira passagem da narrativa caracteriza-se, segundo os exegetas, por uma dupla ênfase, uma dupla acentuação: “Mandou parar o carro, os dois desceram à água, Filipe e o eunuco, e Filipe baptizou-o” (At 8,38).

“Os dois”, “Filipe e o eunuco”. Teria sido suficiente escrever: “e eles desceram à água”. Esta dupla insistência não deixa dúvidas: o gesto baptismal, a imersão na Páscoa do Senhor, é vivido pelos dois protagonistas. Trata-se de um nascimento (para o eunuco) e de um renascimento (para Filipe). Não podemos ser espectadores numa acção de acompanhamento na fé. Não ficamos indemnes. O acompanhamento torna-se um novo acto de criação na fé. Acompanhar é passar de novo pela experiência do nascimento. No entanto, há uma diferença bem marcada: “E Filipe baptizou-o”. Lucas sublinha deste modo a prioridade da comunidade cristã: é a Igreja que baptiza, é no seu seio maternal que nascem os novos crentes.  É pois uma experiência partilhada que salvaguarda a diferença: a Igreja é, ao mesmo tempo, mãe e de novo filha, é criada de novo, ao mesmo tempo que cria novos filhos de Deus.

 

D) Deixar partir e desaparecer

A última passagem informa-nos que o “Espírito do Senhor arrebatou Filipe e o eunuco já não o viu; mas seguiu o seu caminho cheio de alegria” (At 8,39). Esta última etapa é fundamental. Marca o carácter de mediação de todo o acompanhante e a necessidade de libertar a acção do Espírito e a autonomia dos indivíduos. O acompanhamento completa a sua tarefa logo que o acompanhante desaparece; o desaparecimento do educador é a condição da interiorização da sua acção educativa. O único exegeta competente é o Espírito Santo. É preciso, portanto, que cada um seja autorizado a (é este o sentido profundo de “autoridade”) escrever na sua vida o seu próprio evangelho, o quinto evangelho, o Evangelho que se escreve pela palavra e pela vida de todos os crentes.

Nesse momento, a diferença entre evangelizador e destinatário desaparece. Já não se sabe quem evangeliza quem. É uma evangelização recíproca.

Esta releitura da narrativa de Lucas, em termos de formação, permite-nos compreender que todo o acto de educação se joga num registo de reciprocidade, ainda que assimétrica. Chamamos a esta forma de relação “acompanhamento” e podemos, por conseguinte, definir um catequista como um companheiro de estrada. Vemos bem que a reciprocidade é transversal às quatro passagens: no acolhimento (acolher e arriscar-se a ser acolhida); no anúncio: pôr em contacto com o Evangelho através da sua própria experiência mas anunciar a partir da experiência do outro; na experiência sacramental: ser pai/mãe na fé e reviver com o outro a experiência genética da fé; na reapropriação da fé: reescrever em conjunto um novo evangelho na docilidade diante do Espírito. Como todo o acto educativo, o acompanhamento na fé assemelha-se à experiência de paternidade e de maternidade. Qualquer cientista nos dirá que o cordão umbilical não é unidireccional: é bidireccional. Enquanto a mãe faz o filho, o filho faz a mãe. Fá-la mãe fisicamente, psicologicamente, na sua identidade profunda.

Acho lindíssimo o que Santo Agostinho diz, a este propósito, ao catequista Deogratias, farto das suas próprias catequeses: “Se o repetir continuamente, como o fazemos às crianças, coisas mastigadas e remastigadas nos cansa, tentemos adaptá-las com amor paternal, maternal, fraternal, aos nossos ouvintes. E nesta união de corações, essas coisas parecer-nos-ão novas também… Não é verdade que quando mostramos a alguém o panorama de uma cidade ou uma paisagem, que nos é familiar e já nem nos impressiona, nos parece que a vemos, nós também, pela primeira vez? Mais ainda quando somos amigos, porque a amizade nos faz sentir cá dentro o que os nossos amigos sentem” (Santo Agostinho, De cathechizandis Rudibus).

Na verdade, é assombro dos que acompanhamos na fé que acordará a nossa crença e o nosso assombro adormecido. No momento em que nos arriscamos a criar alguém na fé, somos simultaneamente criados por ele.

 

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