Diretora: Doris Dörrie

Alemanha e França – 2008

A “mosca” (no filme) é o que nos atrapalha para sermos mais nós mesmos.

O filme é um longo, delicado e sensível tratado sobre o AMOR e a BUSCA de SI MESMO, passando pelo tratado sobre oefêmero, sobre a incomunicabilidade humana e sobre o território inexpugnável e inexaurível que somos, até para nós mesmos. Os atores são excelentes, os detalhes nem se diga; os sons do mar e das árvores; o lenço amarrado… Atentem!

– Num dia qualquer, em qualquer um de nós, algo adoece – ou envelhece; e disso precisamos cuidar. Não há escapatória. Somos colocados, de um jeito ou de outro, frente a frente com nossa debilidade e vulnerabilidade. O que fazer? O que valorizar? O que buscar? A quem contar? Com quem contar?

– Nossos entes mais próximos e queridos. Nós os conhecemos? Eles nos conhecem? Sabem de nós? Perguntamos sobre seus sonhos? Sonhamos juntos os muitos sonhos de cada um? A qual filho uma mãe deu menos atenção? E qual recebeu mais? E foi e é, e vive mais feliz por isso? Qual de nós, homem ou mulher, marido ou esposa, deixou de fazer o que mais sonhava e/ou tinha aptidão, porque as circunstâncias da vida assim fizeram com que fosse? Qual mãe? Qual pai? Qual filho?! Todos. Todos nós fomos o que pudemos ser, dentro de nossas possibilidades e debilidades. Sim, todos! Mas, também todos nós podemos ir além desse ser assim. No entanto, é preciso muita atenção, delicadeza, cuidado e muita, muita determinação, vontade e AMOR! E o filme nos conta:

Trudi e Rudi – é quase o mesmo nome! – casal às voltas com doença, velhice e relação com os filhos já adultos, envolvidos com a própria vida, não sabendo o que fazer com os pais, e mostrando as marcas afetivas deixadas pelos descompassos vividos na relação com eles e consigo mesmos; e netos que só podem olhar para seus “games-boy”. Enredo comum, não é? Mas, vamos também além dele, para podermos ir além de nós mesmos. “HANAMI” significa apreciar as flores; aqui, as cerejeiras em flor, pois florescem uma só vez ao ano e só duram 2 semanas. E a vida? Dura quanto? A filha pede à mãe, numa recordação de infância, que declame um poema. Como se chama ele? “A efemérida” (inseto que vive só um dia). Confrontada com o “não saber o que fazer”, Trudi busca as alternativas: “Façam o que sempre desejaram, e nunca fizeram”. E ela vai atrás: viagem, conhecer, ver, reencontrar. Mas, busca a si mesma: não por acaso, é pelo velho desejo de dançar Butô. No teatro, está escrito: “O paraíso é onde está a felicidade”. (Bu=dança; toh=passo. Combina dança e teatro; temas como nascimento, sexualidade, inconsciente, morte. O corpo é esvaziado de referências culturais e se entrega a todo tipo de metamorfose, seguindo os impulsos e instintos da alma). Nessa noite, seus braços estendem-se para alcançar a outra-ela, dançarina de Butô; e vai para o paraíso, no encontro consigo!

Rudi, confrontado, agora ele, com a morte, sai em busca do que Trudi buscara. E não vai apenas por reparação, amor, ou elaboração do luto; vai também para encontrar-se. Para tal: sai para o desconhecido (Oriente), enfrenta-se com a não comunicação (é preciso “falar” outra língua), com o “perder-se”. Mas, está atento: veste-se com “as lembranças dela estão no meu corpo”, olha com olhos de ver e encontra a “fada-dançarina”. Com ela “dança sobre sua sombra” e parte para encontrar e esperar o “Monte Fuji”, que é o grande momento da revelação e encontro. Antes, foram os braços dela que o envolveram; agora, é ele quem a envolve. Observar: quem “entende” T. e R. são pessoas desconhecidas: anjos que nos chegam? E ambas dizem: “não fiz nada; apenas ouvi”. Dependemos de nossa busca, mas também de que a graça nos alcance. Saiamos ao Encontro e façamos nossa Dança!

 

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