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No “outro” para os outros

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Ninguém é somente o que ‘é’. Não há um ‘ser’ sequer somente a partir de si e para si. Todos são ‘de’, ‘a partir de’, ‘com’ e ‘para’. Isto é, cada ser – envolvido com outros – é “relação”. Se há desígnio – qual caminho – por onde se mover, é para que sejamos “membros de um corpo” – Corpo de Cristo – irmãs e irmãos na grande, imensa e única família de Deus. Esta é a essência e o objetivo de todo ser, do existir e do realizar.

Na relação com o outro, sou revelado a mim. O outro é o portador de minha transcendência. Sem ele(s) ou ela(s), minha insignificância permanece minha prisão; e ‘com’ ele(s) ou ela(s), meu valor se revela, minha potencialidade se desdobra para que minha grandeza se construa, meu círculo se amplie, minha missão se cumpra. Graças ao ‘outro’, configuro meu rosto e ocupo meu lugar neste Universo. O outro é a garantia e o sentido de meu existir.

À luz do “outro’ em mim, percebo que dor não é somente sofrimento, sacrifício é mais que simples renúncia, doação não é só perda, mas está a serviço da vida. O outro realmente me revela o grande mistério da vida: apoderar-se é privar-se, perder é ganhar; acumular é anular-se e despojar-se é se enriquecer. É como se Deus-em-si não existisse. Somente no “outro”, ele pode ser meu ‘absoluto’. Transcendente eu sou no ‘outro’.

Sou convidado, impelido a receber, a acolher o outro – hospitalidade; sou intimado a ir ao encontro do outro – conviver, visitar, viajar. Realmente, o outro é meu absoluto, sobretudo quando carece de mim ou eu tenho alguma suficiência. Há tanto vazio a meu redor; e se há pobreza em mim – carência – há também riqueza. Cruel parece ser minha realidade: vivo às custas do outro; cruel se apresenta meu entorno: segurança não há, um devora o outro.

Mistério imenso me envolve. Meu viver implica o morrer de tantos. E também eu sou convidado a morrer – só quem ousa morrer terá a dádiva de viver. O grau de me despojar será o mesmo de eu possuir. Ao redor de mim, quantos despossuídos. Posso distribuir migalhas, dando ‘coisas’; hei de ajudar a reconstruir “relações”, doando-me. Segurança autêntica não é construir cadeias, mas defender direitos e promover, integrar pessoas. Este foi o testemunho de Jesus. Seja esta a nossa aprendizagem.

Frei Cláudio é sacerdote carmelita, escritor e poeta em Belo Horizonte.

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