No referente ao que se costuma chamar “Mundo islâmico” -cujo rosto multiforme não pode ser descrito aqui sequer de maneira aproximada- quero somente referir-me de forma crítica a um dos lemas do debate contemporâneo, que se oferece oportuno como a chave geral para o esclarecimento dos processos atuais: a expressão “fundamentalismo” .

Se, em primeiro lugar, nos asseguramos de forma muito breve sobre as bases nas quais se apoia o renascimento atual do muno islâmico, saltam à vista duas causas.

Em primeiro lugar, encontra-se o fortalecimento econômico e, com este, também o político e militar do mundo islâmico, a partir do significado que o petróleo adquiriu na política internacional. Mas enquanto no Ocidente o impulso econômico conduziu à debilidade da substância religiosa, no mundo islâmico vincula-se ao novo impulso econômico uma nova consciência religiosa, na qual conjugam-se em indissolúvel unidade a religião islâmica, a cultura e a política.

Esta nova consciência religiosa e as posturas que se desprendem dela qualificam-se hoje no Ocidente como fundamentalismo. Do meu ponto de vista, transpõe-se um conceito do protestantismo norte-americano, de forma inadequada, a um mundo conformado de modo completamente diferente, e isto não contribui ao verdadeiro conhecimento das circunstâncias.

O fundamentalismo é, segundo seu sentido original, uma corrente surgida contra o evolucionismo e a crítica bíblica que, junto com a defesa da absoluta infalibilidade da Escritura, tentou proporcionar um sólido fundamento cristão contra ambos.

Sem dúvida, existem analogias a respeito desta posição em outro universos espirituais, mas se se converte em identidade a analogia, se incorre em uma simplificação errônea.

De tal fórmula extraiu-se uma chave demasiadamente simplificada, através da qual se pretende dividir o mundo em duas metades, uma boa e outra má. A linha do pretendido fundamentalismo estende-se, então, desde o protestante e o católico, até o fundamentalismo islâmico e o marxista.

A diferença dos conteúdos não conta aqui para nada. Fundamentalista é aquele que sempre tem convicções firmes, por isso atua como fator criador de conflitos e como inimigo do progresso. O bom seria, ao contrário, a dúvida, a luta contra antigas convicções, e com isto, todos os movimentos modernos não dogmáticos ou anti-dogmáticos.

Mas, como se depreende do conteúdo, a partir de um esquema classificatório puramente formal não se pode interpretar realmente o mundo.

Segundo meu parecer, deveria ser deixado de lado a expressão “fundamentalismo Islâmico”, porque oculta, sob uma mesma etiqueta, processos muitos diferentes em lugar de esclarecê-los. Deveria ser diferenciado, segundo me parece, o ponto de partida do novo despertar islâmico e suas diversas formas.

No que diz respeito ao ponto de partida, me parece muito significativo que os primeiros sintomas da mudança de rumo no Irã foram os atentados contra os cinemas norte-americanos. O “way of occidental”, com sua permissividade moral, foi assumido como um ataque à própria identidade e à dignidade da própria forma de vida.

O mundo cristão tinha gerado, nos momentos de sua maior realização de poder, um sentimento negativo em torno ao próprio subdesenvolvimento e dúvidas sobre a própria identidade, ao menos nos círculos cultos do mundo islâmico. Deste modo, cresceu o desprezo frente ao confinamento do moral e do religioso no âmbito puramente privado, frente a uma configuração da vida pública, na qual só seria válido o agnosticismo religioso e moral.

O poder com o qual esse estilo de vida foi imposto formalmente, sobretudo mediante a exportação da cultura norte-americana, um estilo de vida que devia aparecer como o único normal, foi percebido cada vez mais como um ataque contra o mais profundo da própria essência. O fato de que a união Soviética não seja ateísta, mas os Estados Unidos da América, tolerantes em matéria religiosa e ao mesmo tempo fortemente marcados pela religião, os que são combatidos e atacados depende desse choque entre uma cultura moralmente agnóstica e um sistema de vida, choque no qual a nação, a cultura, a moral e a religião apareciam como uma totalidade indivisível.

As configurações concretas dessa nova autoconsciência são muito variadas. Aferrar-se freneticamente às tradições religiosas vincula-se em muitos sentidos ao fanatismo político-militar, no qual a religião é consideradas de forma direta como um caminho de poder terreno. A instrumentalização das energias religiosas em função da política é algo muito próximo sem dúvida à tradição islâmica.

Em consonância a isto, desenvolveu-se, em relação ao fenômeno da resistência palestina, uma interpretação revolucionária do Islã que esbarra na teologia cristã da libertação, e que fez com facilidade uma mistura de terrorismo ocidental, inspirado pelo marxismo, e o islâmico. O que de maneira superficial denomina-se “fundamentalismo islâmico” poderia se vincular com facilidade às idéias socialistas sobre a libertação: o islã é apresentado como o verdadeiro conduto exemplo, encontrou Roger Garaudy seu caminho do marxismo ao islã. Vê nesse último o portador das forças revolucionárias contra o capitalismo dominante.

Em contraposição a isto, um mandatário fortemente marcado pela religião como é o rei Hassam do Marrocos expressou sua profunda preocupação pelo futuro do Islã: uma interpretação do Islã que considere como seu núcleo a entrega a Deus está repreendida com uma interpretação político-revolucionária, na qual a questão religiosa se converte em parte de um chauvinismo cultural e com isso subordina-se ao político. Não deveríamos nos dispor com tanta rapidez à análise de um fenômeno tão complexo como este.

O Islã, tão seguro de si mesmo, atua ha muíto tempo sobre o Terceiro Mundo como algo mais fascinante que um cristianismo dividido em si mesmo.

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