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O Palhaço

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“O PALHAÇO” –

Diretor: Selton Mello

Brasil – 2011

 

Gente! Que delicadeza! Para quem é do interior e “antiga” como eu (!), as reminiscências são muitas, e limpam a alma da poluição dos anos já vividos. Para quem é mais jovem e muito urbano, serve para adentrar no universo das almas simples e ingênuas, e das paisagens cheias de “mar de montanhas”. Sempre gostei dos palhaços daqueles tempos… o batom vermelho delineando uma grande boca mas que, mesmo tão aumentada, deixava entrever o “sorriso amarelo” que ia pela alma daquele homem, trabalhador do riso, dedicado a trazer alegria a tantas crianças e adultos.

 

O filme é muito bem feito. A trilha sonora está excelente (reparar na última música)! Os atores estão ótimos. Selton Mello surpreende na direção e no roteiro. Ah! E Paulo José! Com que carinho recebemos seu desprendimento ao oferecer-se a que o vejamos em sua condição atual de saúde; mas que em nada tira o brilho de seu empenho e desempenho.

 

Nesta mescla de verdes de montanhas e de pó de estradas, viajando em velhos caminhões e na insuperável velha Kombi, segue “nossa” trupe de tipos humanos os mais diversos… Nesta mescla de sorrisos ingênuos de crianças, de bocas desdentadas dos simpáticos velhinhos, de vestidos floridos das jovens faceiras, de homens e mulheres que ainda sabem rir do espontâneo e natural… Nesta mescla de insinuações divertidas sobre os prefeitos e “ôtoridades” desse nosso país…

 

Em meio a tudo isso, há um tema profundo que nos toca e comove: o drama pessoal de Benjamín, o palhaço Pangaré. Vejamos… Benjamín (B.) é o “menor, último, pequeno”; Pangaré é um “cavalo velho e sem forças” ou o “lento, desatento, burro”. Ou seja, nosso protagonista está enfrentando-se e debatendo-se consigo mesmo, com o ser quem ele é; parece sentir-se como os nomes que o designam, o de batismo e o artístico. B. sofre e olha à sua volta. Precisa comprar um “ventilador”, como lhe disse a bela do circo, amante de seu pai Valdemar. Talvez “ventilador” represente ele virar “homem de fato”. Mas para tanto é preciso CIC, RG e endereço fixo! Tudo o que ele não tem! Ele só tem Certidão de Nascimento! Ele só nasceu! Como virar “homem”? Como saber quem ele é, para que serve, para que veio ao mundo? A jovem Ana fala que gostou dele, de sua atuação, e que espera o circo em sua cidade. B. fala ao pai, mas este não o ouve. B. sabe que precisa encontrar seu caminho-identidade. Vai em busca de si e do feminino. Deixa o circo. Todos compreendem que assim tem que ser. A velha gorda do circo deixa cair um lenço… é a marca do cheiro do materno, do primitivo, da origem. A confusão de B.surge da filiaçãoquem é sua mãe? Lembrar da cena no circo em que a mulher gorda entra com as crianças falando quem era o pai delas! O pedido que B. faz de um sutiã grande para dar à mulher do circo não é uma brincadeira; ele busca o “seio materno farto”; não é à toa que a mulher ao seu lado, na noite do bar, é gorda e tem grandes seios. Quando o homem do cartório lhe diz: “Precisa ir aonde nasceu”, também não é “brincadeirinha”!

 

E vejamos duas cenas importantes do pai Valdemar: 1. Quando conversa com o homem que tudo perdera e que agora sabia que “a gente deve fazer o que sabe fazer” (vocação); 2. Quando ele pede à bela dançarina que se vá; ele sabia que ela os “roubava”; ele “sabia” que ela o “roubava” do filho; ele “sabia” que tinha que esperar o filho voltar… E atentemos à beleza das cenas finais: B. volta ao picadeiro, saindo por debaixo das saias da “grande mãe” de todos – nasce!; a “mulher poderosa” era a criança, pura e verdadeira. É ela quem “abençoa” a todos da trupe, desde o B., que agora podia ser homem e ter sua namorada, passando pelos seus pais e indo agradecer ao santo protetor dos artistas, conforme sua mãe lhe dissera. E o ventilador estava ali! Agora tudo estava completo! E a música final: “Eu amo sua mãe” (Lindomar Castilho) – talvez um desfecho em que mãe e pai são perdoados pelo que fizeram ao filho? Não sei… a pensar e a sentir…

 

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