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Roma

Roma

Filme: Roma
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Nancy García mais
Gênero: Drama
Nacionalidades: México, EUA

A cena é monótona, mas estranhamente hipnótica. Em preto e branco nítido, vemos um plano fechado fixo do fluxo e refluxo de água espumosa no chão de ladrilhos. É difícil dizer o que é e onde é que a cena acontece. O som é mais amplificado do que o normal, evocando um fluxo de maré… um alpendre à beira-mar, talvez. A minúscula imagem de um avião que passa é espelhada no chão molhado, perceptível apenas para quem presta atenção. À medida que o plano se alarga, fica claro que a cena é muito mais mundana do que parecia. Uma jovem está simplesmente a lavar o chão de uma garagem residencial.

Desde a cena de abertura de “Roma”, o talentoso cineasta mexicano Alfonso Cuarón convida o público para uma experiência de poesia visual livre das convenções estereotipadas de Hollywood e da narrativa expositiva alimentada à colher. As camadas de significado do filme desenrolam-se significativamente através da poética das expressões faciais e dos gestos corporais das personagens, recorrendo a motivos visuais e auditivos, a símbolos e ao magistral trabalho de câmara. Estas opções criativas conspiram organicamente para contar uma história íntima e profundamente comovente.

Situado no período de 1970-71 em “Colonia Roma”, um bairro da cidade do México, “Roma” gira em torno da vida de Cleo (Yalitza Aparicio), uma mulher indígena Mixtec que trabalha como empregada doméstica numa família de classe média alta, do médico Antonio (Fernando Grediaga) e a sua esposa Sofia (Marina de Tavira). Ela é a multitarefa consumada, simultaneamente ama, cozinheira, lavadeira e limpadora. Bem-humorada e serena, cumpre as suas tarefas diárias com seriedade e dignidade; em troca, os seus jovens protegidos amam-na como uma segunda mãe, e os seus patrões, embora inconsistentemente, apreciam o seu serviço.

As dinâmicas da casa refletem as desigualdades de classe e de gênero que persistem até hoje, não apenas na sociedade mexicana, mas também em outras culturas marcadas por hierarquias sociais pronunciadas. Numa cena reveladora, ela serve lanches para a família enquanto esta vê televisão, e depois senta-se no chão, ao lado do sofá. Assim que ela se senta, Sofia pede-lhe para fazer chá para o marido. Cleo faz parte da família, mas mantém-se dentro de uma fronteira invisível que demarca o seu lugar – é a empregada.

Injustamente, ela também está na extremidade receptora da ansiedade reprimida de Sofia com a crescente frieza de Antonio, sublimada pela sua insatisfação relativa à má administração da casa. Sofia grita algumas vezes com Cleo por não ter conseguido limpar os excrementos do cão, de que Antonio tinha reclamado.

Claramente, o coração do filme é Cleo. Interpretada pela luminosa Aparício, que nunca atuou anteriormente, as emoções da personagem encontram expressão eloquente nos seus olhos repletos de alma; cada olhar, cada expressão, tornam a palavra falada supérflua. Ficamos a saber que namora um “macho” da aldeia chamado Fermín (Jorge Antonio Guerrero).

Quando este descobre que engravidou Cleo, as suas manifestações de virilidade não conseguem traduzir-se em termos reais. Ele abandona Cleo e, mais tarde, aumenta o abuso verbal sobre ela. Neste ponto, um fio escarlate liga Cleo e Sofia – os seus traumas partilhados perante o egocentrismo masculino e a injustiça patriarcal.

Sem recorrer ao comentário político aberto, “Roma” realça o suficiente para revelar as tensões sociopolíticas que pairam em torno do mundo de Cleo. Na cena fascinante em que Teresa (Verónica García), a idosa mãe de Sofia, acompanha a grávida Cleo para comprar um berço para o bebé, um protesto estudantil irrompe violentamente, e um manifestante é perseguido dentro da loja e morto a tiro. O acontecimento evoca o denominado Massacre de Corpus Christi, em 1971, quando forças paramilitares mataram 120 manifestantes estudantis. Justapondo o grão da imagem ao épico, Cuarón retrata as reviravoltas dramáticas das personagens com uma manifestação exterior das suas turbulências internas: no meio do caos, rebentam as águas de Cleo. O mesmo recurso imagético é utilizado quando Sofia percebe que Antonio está prestes a abandonar a família e se agarra a ele.

Grande parte da narrativa é um diário cinematográfico do quotidiano de Cleo; a câmara, observadora compassiva, toma atentamente nota dos momentos de transcendência dentro da rotina de uma vida de serviço devotado. Teologicamente, isto ecoa a espiritualidade que emerge da experiência vivida pelas mulheres latinas, muitas vezes marcada pela luta diária por um maior florescimento humano.

O fluxo e refluxo das ondas do oceano da cena de abertura, e também discretamente simbolizado numa pintura a meio do filme, serve como um dramático crescendo para o surgimento de Cleo como uma personagem plenamente realizada. De certa maneira, as ondas batizam-na como uma santa do quotidiano. Claro que isso nunca é literalmente manifestado em “Roma”; é simplesmente uma das várias interpretações suscitadas por aquele que, para mim, é o melhor filme de 2018.

Fr. Antonio D. Sison
In National Catholic Reporter
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 25.02.2019 no SNPC

Via Cateque Hoje

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