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Aprendendo com a vida

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Uma introdução ao livro de Eclesiastes

Doce é a luz e agradável aos olhos ver o sol; ainda que o homem viva muitos anos, alegre-se com eles todos, mas lembre-se de que os dias de trevas serão muitos (Ecl 11,7-8).

 

A sabedoria, colhida na experiência do dia a dia, recorda que, acima de tudo, é bom viver. É importante desfrutar cada momento da vida como se fosse o último. Dizer que doce é a luz pode representar a alegria gerada pela energia vital que nos encanta a todo o momento. A luz pode entrar em nossa vida por meio de um sorriso, de uma palavra amiga, de um gesto fraterno, da beleza de uma flor, do companheirismo e da solidariedade realizada de tantas formas.

A luz resplandece no cotidiano. As pessoas sábias nos ensinam: “Um olhar sereno alegra o coração, uma boa notícia reanima as forças” (Pr 15,30). A expressão é “agradável aos olhos ver o sol” realça o valor de estar vivo, apesar de todas as dificuldades e sofrimentos (Ecl 6,5; 7,12). Alegrar-se todos os dias. Um conselho simples, mas de grande sabedoria.

A Palavra de Deus, contida na Bíblia e na vida, é fonte que impulsiona o nosso agir. Neste ano, a CNBB propõe o estudo do livro de Eclesiastes para o mês da Bíblia. Vamos aprender com esse sábio, que viveu no século três antes de Cristo, algumas lições de sabedoria. Com sua capacidade de observação, ele vê todas as formas de opressão: injustiça, exploração política, econômica, desigualdades sociais, abuso de poder e outros mecanismos de morte (Ecl 4,1-2).

No contato diário com o sofrimento das pessoas, Eclesiastes vê a realidade, questiona, analisa e se posiciona. Critica a cultura e a opressão grega. E não só. Ele também é contra as elites judaicas, que assimilam e justificam, por meio da sabedoria tradicional, os novos costumes instaurados pelos gregos. Eclesiastes empreende grandes esforços para entender o sentido da vida e apresentar uma proposta para o ser humano viver e alcançar a felicidade.

Para entender sua mensagem, vamos lançar um olhar para o contexto histórico da Palestina no período de dominação dos gregos, especialmente no tempo dos Ptolomeus, uma dinastia grega fundada por um dos generais de Alexandre, que substituiu o poder dos antigos faraós (301 a.C.-198 a.C.).

 

I. Retomando a história

A Palestina era importante corredor comercial a ligar o Egito com a Fenícia, o Norte da Síria, a Mesopotâmia e a Arábia. Os grandes centros do poder político empreendiam inúmeras guerras para obter o controle dessa área. A Palestina era uma terra que passava de mão em mão: Assíria, Babilônia, Pérsia, Grécia, Roma, e, ainda hoje, as disputas continuam…

Voltemos nosso olhar para o domínio dos gregos. Em poucos anos, Alexandre Magno constrói vasto império. Em 333 a.C., conquista a Ásia Menor e a Síria; em seguida, Tiro, Gaza e o Egito (332 a.C.). Em 331 a.C., a Pérsia. E suas conquistas não param… Alexandre consegue chegar até o vale do rio Indo em 326 a.C. Ele domina não só pela força das armas, mas principalmente pela imposição cultural. Em 323 a.C., Alexandre Magno morre sem deixar um sucessor.

O império fica sob o governo de um grupo de generais chamados diádocos. Segue-se um período de constantes lutas pela sucessão, que só chega ao fim na batalha de Ipsos, em 301 a.C. O império é dividido entre os generais de Alexandre. Para entender o contexto de Eclesiastes interessa-nos apenas o grupo dos Ptolomeus e dos Selêucidas. Os Ptolomeus, que assumiram o governo do Egito desde a morte de Alexandre, ficam também com a Palestina e a Fenícia, conhecida como a província da Celessíria. E os Selêucidas, com a Síria e a Mesopotâmia.

Com Ptolomeu I surge a dinastia dos Lágidas, que é o sobrenome dos Ptolomeus. Estes adotam a mesma política dos persas, garantindo a liberdade religiosa dos povos dominados, mas impondo-lhes a submissão política. Também aumentam e aperfeiçoam o sistema de cobrança de impostos e procuram manter o monopólio do comércio. Nesse período, o número de escravos cresce assustadoramente.

O general Seleuco, fundador da dinastia dos Selêucidas, não se conforma com o domínio dos Ptolomeus sobre a Palestina. Entre os anos 301 e 198 a.C., ocorrem cinco guerras sírias para obter o controle da Palestina. Por volta do ano 198 a.C., Antíoco III, o rei dos Selêucidas, finalmente consegue derrotar o exército dos Ptolomeus, assumindo o domínio sobre a Síria, a Fenícia e a Palestina.

A chegada dos gregos provoca profundas mudanças. Eles impõem outro modo de vida, que se torna conhecido como helenismo. Na economia grega, a terra é propriedade particular e individual. A formação de grandes latifúndios exige o uso do trabalho escravo. O grupo dominante é formado por homens livres, que se dedicam ao trabalho intelectual. As mulheres ocupam funções importantes na administração das propriedades, algumas são iniciadas na arte e na filosofia. O grupo dirigente se enriquece por meio da recepção de tributos e subornos. Os libertos são exescravos, e dois terços da população são escravos. Nesse contexto, camponesas(es) e pequenos comerciantes se tornam cada vez mais pobres.

O centro da cultura helenista é a cidade, onde existe uma praça, avenida, templos, ginásio de esportes, teatro e, nas cidades dominadas, exército. Pouco a pouco, o estilo de vida dos gregos cria raízes na mentalidade do povo judeu, por meio da organização e da administração das cidades. Eles impõem cobrança de taxas e impostos, ampliam o comércio, popularizam o uso de moedas e organizam a produção agrícola em vista do comércio. Escolas são criadas para ensinar a filosofia e a literatura grega. No ginásio, os jovens aprendem as virtudes militares e desenvolvem práticas esportivas, cujo objetivo é a preparação para a guerra.

E o povo, como está? Como diz o ditado popular: Está com a corda no pescoço. A situação é complicada. Aos poucos, grande parte do povo judeu, especialmente os grupos dirigentes, adota a mentalidade grega. A vivência comunitária é suplantada pela preocupação com o indivíduo, chegando ao individualismo. A crença em um Deus único é questionada pela religião grega e suas várias divindades.

A nova política agrícola tem como objetivo sustentar as cidades e responder às exigências do comércio. Tendo em vista a produção, formam-se latifúndios e aumenta o número de escravos. A terra se torna um problema sério. Existem as propriedades do rei, administradas por funcionários nomeados por ele, e grandes extensões de terra doadas como presentes aos amigos do rei. Essa situação fundiária destrói a organização comunitária — voltada para a agricultura de subsistência da própria família — das aldeias que ainda resistem. Aumenta o número de pessoas empobrecidas e escravizadas. Nesse contexto surge a voz de Eclesiastes, que põe a sua sabedoria a serviço da vida do povo.

 

II. Uma palavra sobre Eclesiastes

Eclesiastes não é um nome próprio, mas indica a função do autor. A origem da palavraqohelet provavelmente é o verbo hebraico qahal, que pode assumir o significado de reunir, colocar junto, congregar em assembleia. Em grego, assembleia é ekklesia, daí o nome Eclesiastes. Nesse artigo, sempre vamos nos referir ao sábio com o termo hebraico aportuguesado: Coélet.

Eis a apresentação de um de seus discípulos: “Além de ter sido sábio, Coélet também ensinou o conhecimento ao povo; ele ponderou, examinou e corrigiu muitos provérbios. Coélet procurou encontrar palavras agradáveis e escrever exatamente palavras verdadeiras” (Ecl 12,9-10). O sábio é uma pessoa que recolhe a sabedoria do povo, reflete sobre algumas verdades estabelecidas, tira suas conclusões, aprofunda-as e as dá a conhecer.

Na abertura do livro de Eclesiastes, lemos: “Palavras de Coélet, filho de Davi, rei em Jerusalém” (1,1). Além disso, os dois primeiros capítulos fazem referência a Salomão. Trata-se de uma atribuição, pois a tradição judaica considera Salomão como o modelo de rei sábio (1Rs 5,9-14). A referência a esse rei como o autor do livro de Eclesiastes lhe garante autoridade e um lugar na lista dos livros sapienciais.

De fato, a análise do vocabulário, do estilo e do pensamento do livro de Coélet mostra que esse escrito é de outro período, bem posterior a Salomão, provavelmente do tempo da dominação grega, por volta do ano 250 a.C. É o apogeu do governo dos Ptolomeus no Egito.

Coélet é um sábio, provavelmente de Jerusalém, inconformado com a realidade de opressão do seu tempo. O seu objetivo central é responder aos problemas existenciais do ser humano: como viver e ser feliz. O sábio se dirige, em primeiro lugar, a seus discípulos, procurando conscientizá-los sobre a realidade do trabalho escravo executado debaixo do sol, símbolo dos Ptolomeus. Buscando um caminho para compreender o livro de Eclesiastes, vamos olhar a apresentação de sua mensagem.

 

III. Eclesiastes: um livro diferente

Abrindo o livro de Eclesiastes, vamos perceber que se trata de um escrito diferente dos outros textos bíblicos. Uma primeira leitura deixa um gosto amargo. Ele questiona tudo, não fica pedra sobre pedra. Mas não se desespere. É preciso ler essa obra devagar. Saborear o texto. Garimpar as pepitas de ouro que esse sábio nos deixou.

Como ler esse livro? Há vários caminhos. Vamos sinalizar algumas pistas, mas na leitura você poderá descobrir outras.

A maioria dos estudiosos concorda que há três ou até mais redatores para esse livro. No início, temos um título (Ecl 1,1), que estabelece uma associação entre Coélet e o rei Salomão; uma forma de garantir seu lugar na tradição da sabedoria.

Na abertura e na conclusão, lemos: “Vaidade das vaidades — diz Coélet — vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2 e 12,8). Essa frase, provavelmente inserida por um de seus discípulos, é a nota que dá o tom do livro.

O livro apresenta três poemas, que podem ter sido compostos por Coélet ou recolhidos de outras fontes: Ecl 1,4-11; 3,1-8; 12,1-7. A temática é a mesma: a vida é passageira. Se a vida é passageira, então o importante é ser feliz, respeitando o direito de cada pessoa. Com base na realidade, o sábio faz uma proposta para alcançar a felicidade, que pode ser apresentada da seguinte forma.

 

Primeira parte (Ecl 1,12-3,22). O sábio analisa a realidade, especialmente a exploração do trabalho e o empobrecimento, justificados pela religião oficial, e apresenta a sua proposta de vida: fazer o bem, alegrar-se, comer, beber, desfrutar o fruto do trabalho (Ecl 2,24; 3,12.22).

 

Segunda parte (Ecl 4,1-6,9). Passos concretos para alcançar a felicidade: solidarizar-se com as pessoas necessitadas, recuperar o trabalho como fonte de prazer, rejeitar a competição e o individualismo (Ecl 4,1-12). O sábio insiste na importância de viver uma religião a serviço da vida (Ecl 4,17). Reconhece que o acúmulo é um grande mal, pois do mundo nada se leva (Ecl 5,7-16). Como um refrão, volta a repetir que o importante é viver e ser feliz (Ecl 5,17-19).

 

Terceira parte (Ecl 6,10-8,17). É como se Coélet estivesse dialogando com seus adversários. Nesse diálogo, ironiza a sabedoria oficial e põe por terra os fundamentos da teologia da retribuição, por exemplo: “Já vi de tudo em minha vida de vaidade: o justo perecer na sua justiça e o ímpio sobreviver na sua impiedade” (Ecl 7,15/16**; 8,14). Descarta a pretensão de querer dar resposta para tudo (Ecl 8,17).

 

Quarta parte (Ecl 9,1-12,8). Coélet retoma seus ensinamentos e os apresenta de maneira mais completa: comer com alegria, beber vinho com satisfação, usar vestes brancas e perfume, desfrutar a vida com a pessoa amada. E conclui: “Esta é a tua porção na vida” (Ecl 9,9). Um convite para viver a vida intensamente, realizando a partilha na gratuidade. Isso é dom de Deus. Cabe aos seus discípulos acolher os ensinamentos.

 

Ainda não acabou. O livro traz dois epílogos: Ecl 12,9-11 e 12,12-14. No primeiro, um dos seus discípulos apresenta o seu mestre como sábio e pastor. No segundo, outro autor retoma a questão do temor e do julgamento de Deus, modificando-a conforme a corrente oficial da sabedoria — um epílogo contra a maneira de pensar de Coélet.

A leitura do livro de Eclesiastes é uma aventura fascinante. Com base em sua experiência de vida e no contato com a realidade de opressão, o sábio busca entender qual é o sentido da vida. Trata-se de uma pessoa inquieta. Nada escapa ao seu olhar. Ele examina tudo e quase não sobra pedra sobre pedra. Vejamos, em síntese, algumas indicações do que ele descobriu.

 

IV. A mensagem de Coélet

A sabedoria de Coélet nasce do contato com a realidade. Ele é um sábio que observa. O verbo aparece com muita frequência nos seus escritos: 48 vezes! Observar não se trata de simples olhar, mas de ver em profundidade. Coélet está atento aos acontecimentos do seu tempo. Ele investiga (Ecl 1,13), explora (Ecl 1,13; 2,3; 7,25/26), procura conhecer e saber o sentido da vida com todo o seu coração (Ecl 1,17; 2,14; 3,12; 6,12; 8,16.8,17). A sua atitude é de alguém que reflete (Ecl 1,16), experimenta (Ecl 2,1; 7,11), verifica (Ecl 2,3; 5,12; 7,13), comprova (Ecl 2,24; 3,18; 5,17) e aplica o seu saber a serviço da vida. Em relação à discriminação contra a mulher e ao sentido da sabedoria, ele pesquisa com afinco (Ecl 7,25/26; 7,28/29; 8,17). Eis alguns pontos importantes de sua análise.

 

1. A morte iguala todas as pessoas

A mensagem de Coélet tem como moldura o estribilho: “Vaidade das vaidades — diz Coélet — vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2 e 12,8) e dois poemas (Ecl 1,4-11 e 12,1-7), que apresentam a morte como uma realidade inevitável.

Esta certeza acompanha a reflexão do sábio. Ele constata que tudo é passageiro, transitório, fugaz. É vento. Todas as pessoas terão a mesma sorte. “O sábio morre assim como o insensato” (Ecl 2,16b).

A realidade de opressão é muito forte, a ponto de Coélet afirmar: “Eu felicito os mortos que já morreram, mais que os vivos que ainda vivem. E mais feliz que ambos é aquele que ainda não nasceu, que não vê a maldade que se comete debaixo do sol” (Ecl 4,2-3). Chama a ser feliz e fazer o bem na gratuidade do Deus criador: “Lembra-te do teu Criador nos dias da mocidade, antes que venham os dias da desgraça” (Ecl 12,1). A recomendação é que a pessoa aproveite todas as coisas boas que a vida oferece, viva com alegria e faça o bem, “antes que o fio de prata se rompa e a taça de ouro se parta, antes que o jarro se quebre na fonte e a roldana rebente no poço” (Ecl 12,6).

Cada pessoa é chamada a viver intensamente o momento presente, “pois no Xeol, para onde vais, não existe obra, nem reflexão, nem conhecimento, nem sabedoria” (Ecl 9,10). A morte é uma realidade presente em todo o livro de Coélet. Refletir sobre a morte é redescobrir o sentido da vida: “Ainda que o homem viva muitos anos, alegre-se com eles todos, mas lembre-se de que os dias de trevas serão muitos” (Ecl 11,8). Ele reflete sobre a morte para ajudar as pessoas a refletir sobre o sentido da vida. Hoje, a compreensão de que a morte iguala a todas as pessoas não deve ser usada para criar acomodação diante do sistema injusto, mas se trata de denúncia de uma espécie de “teologia da retribuição” e convite para que a pessoa se engaje na conquista de seus direitos e na superação das desigualdades sociais.

 

2. O trabalho escravo

Uma das preocupações que perpassam o livro de Eclesiastes é a questão do trabalho. Coélet constata que a maioria da população é vítima do trabalho escravizante. Diante disso, questiona: “Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?” (Ecl 1,3; 2,22; 3,9). A pessoa é obrigada a trabalhar de sol a sol, sem condições de garantir o mínimo necessário à sua sobrevivência. A expressão debaixo do sol pode indicar o trabalho duro sob o domínio dos Ptolomeus, que governam do Egito.

O sábio vê a realidade e considera um absurdo o fato de algumas pessoas se apropriarem do produto do trabalho de outras. Diante disso, desabafa: “E meu coração ficou desenganado de todo o trabalho com que me afadiguei debaixo do sol. Há quem trabalhe com sabedoria, conhecimento e sucesso, e deixe a sua porção a outro que não trabalhou. Isso também é vaidade e grande desgraça” (Ecl 2,20-21). O trabalho escravizante só traz sofrimento e perda do sentido da vida (Ecl 2,23).

Coélet não condena o trabalho. Poder usufruir do fruto do trabalho constitui fonte de realização, é parte da dimensão antropológica do fazer e criar. Produzir alguma coisa é reflexo da concepção criadora existente no interior do ser humano. Por meio do trabalho, o ser humano torna-se ele mesmo, dá forma ao próprio ser. Esse é o principal produto do trabalho. Portanto, poder fazer o que se gosta é muito prazeroso e realizador. Isso é dom de Deus.

Porém, trabalhar e não poder desfrutar do trabalho é grande desgraça. É vaidade e sofrimento cruel (Ecl 6,2). De que adianta a pessoa ser abençoada com numerosos filhos e vida longa, se não tem a possibilidade de experimentar a felicidade? Seria preferível não ter nascido (Ecl 6,3-4). Coélet vê que o trabalho escravizante do homem é para “a sua boca e, no entanto, seu apetite nunca está satisfeito” (Ecl 6,7). Do mesmo modo, “os rios correm para o mar e, contudo, o mar nunca se enche. O olho não se sacia de ver, nem o ouvido de ouvir”. “Quem ama dinheiro nunca se sacia de dinheiro” (Ecl 1,7.8; 5,9). A ganância e a ambição pelo poder provocam o empobrecimento da maioria da população.

 

3. A glória e o poder são passageiros

“Não há nada de novo debaixo do sol”. A história se repete continuamente. Um império sucede ao outro: Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, Grécia. Tudo passa. Olhando a história, Coélet conclui que o poder, a honra e a glória são passageiros. Significam, na sua linguagem, correr atrás do vento. Ou seja, esforço inútil. Para descrever a situação absurda de seu tempo, o sábio usa a palavra hebel, termo que está na sua boca e no seu coração e aparece cerca de 47 vezes. Hebel pode significar vento, sopro, vazio, neblina, aquilo que se desfaz no ar, transitório. Coélet usa a palavra para descrever a inutilidade dos esforços do ser humano (Ecl 2,1.11.19.21.23; 4,4.8; 5,9; 6,2).

Outra expressão própria de Coélet é “perseguir vento”. Trata-se de procura ou ambição sem sentido. O sábio não consegue compreender as obras realizadas debaixo do sol, vê que a sabedoria não oferece respostas seguras para a vida do ser humano, critica o trabalho escravizante, bem como a apropriação do fruto do trabalho de outras pessoas, a competição, o acúmulo, o poder e a busca insaciável de riquezas. Tudo isso é perseguir vento (Ecl 1,14.17; 2,11.17.26; 4,4.6.16; 6,9).

Coélet descreve o movimento da natureza: “Uma geração vai, outra geração vem, e a terra sempre permanece. O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se a voltar ao seu lugar e é lá que ele se levanta” (Ecl 1,4-5). E assim fala do vento e da água, evidenciando que a natureza não explica os mistérios da vida e, dessa forma, negando a cosmovisão dos gregos. Estes acreditavam que a terra, a água, o ar e o fogo fossem os quatro elementos que teriam dado origem a tudo que existe.

O corre-corre, a busca desenfreada de riquezas e poder impedem a pessoa de perceber a beleza existente no contínuo movimento da terra. O ser humano é mortal. Tudo passa. De que adianta a autossuficiência das elites, com a sua busca de lucro, poder e glória.

 

4. O acúmulo

Observando a realidade, Coélet vê que o acúmulo de riquezas não traz felicidade, ao contrário: “Quem ama dinheiro, nunca está farto de dinheiro, quem ama a abundância, nunca tem vantagem. Isso também é vaidade. Onde aumentam os bens, aumentam aqueles que os devoram; que vantagem tem o dono, a não ser ficar olhando?” (Ecl 5,9-10). Pôr o dinheiro no lugar da pessoa humana só traz desvantagem. O aumento de riquezas atrai os amantes do dinheiro, os quais fazem de tudo para consegui-lo.

Na tentativa de reforçar que a busca desmedida de riquezas não traz felicidade, o autor afirma: “Coma muito ou coma pouco, o sono do operário é gostoso; mas o rico saciado nem consegue dormir” (Ecl 5,11). O rico não dorme porque fica preocupado em proteger os seus bens e aumentá-los. Mas nem sempre o sono do operário é gostoso. A fome, a desnutrição, as dívidas e o trabalho pesado, consequências da pobreza, também provocam insônia e cansaço. O objetivo de Coélet é mostrar que a riqueza não é bênção, como afirma a teologia oficial, mas torna-se fonte de males, pois quem fica sem dormir acaba doente ou neurótico.

O acúmulo é um mal terrível. Uma desgraça (Ecl 5,12). O que existe debaixo do sol — do sistema opressor — é a busca insana do lucro. Mas isso é frágil e pode se romper de uma hora para a outra: o rico pode perder a sua riqueza num mau negócio ou pode morrer sem levar nada. O que adianta ter riquezas, recursos e honra, se a pessoa não tem possibilidade de desfrutá-los (Ecl 6,2)? Tudo na vida passa; o acúmulo traz preocupações, doenças e solidão. É uma corrida atrás do vento (Ecl 4,6). É esforço inútil. E o que resta? Apenas a lembrança de alguém que não soube aproveitar as coisas boas do dia a dia. Correu atrás do vento. Desperdiçou a própria vida.

 

5. A religião oficial

Os sacrifícios são exigências da Lei oficial. Segundo os sacerdotes oficiais, são o ritual essencial. Os ensinamentos oficiais, já há muitos anos, insistem sobre a importância e a centralidade do sacrifício. Em meio à teologia oficial, há uma voz que procura minimizar a sua importância: “Ouvir vale mais que o sacrifício” (Ecl 4,17). Em várias passagens, o sábio evidencia que a teologia da retribuição não corresponde à realidade, pois a pobreza, o sofrimento, a doença e a morte não são castigos de Deus, mas consequência de uma sociedade estruturalmente injusta.

A vida desmente a teologia da retribuição. Afinal, “tudo é o mesmo para todos: uma sorte única, para o justo e o ímpio, para o bom e o mau, para o puro e o impuro, para quem sacrifica como o que não sacrifica, para o bom e o pecador, para quem jura e quem evita o juramento” (Ecl 9,2). Fazer o bem esperando retribuição é perda de tempo. A ação do ser humano não tem poder de mudar o agir de Deus. É preciso agir na gratuidade.

Não há recompensa para o bem, como não há castigo para o mal. Trata-se de ensinamento corajoso para o seu tempo, de alguém que consegue ler, em profundidade, a experiência sofrida do povo e ir contra a teologia oficial. Para alguns, deve ter sido grande alívio, mas, para a maioria, um escândalo. O sábio lembra que a religião e a prática da justiça não devem estar condicionadas à retribuição de Deus; a pessoa é chamada a realizar a partilha e a solidariedade na total gratuidade. Sem esperar nada em troca.

 

6. Relação entre as pessoas

O livro de Eclesiastes é uma janela pela qual podemos ver alguns grupos sociais. Há pessoas muito ricas, que podem aproveitar o máximo da vida, e há pessoas pobres, oprimidas, que quase não conseguem sobreviver. Vemos também a presença de escravos e escravas, outros criados, cantores e cantoras, concubinas (Ecl 2,7-8). As leis sociais e religiosas dividem as pessoas em sábias e insensatas (Ecl 2,14-16; 10,2), justas e ímpias (Ecl 3,16; 7,15), boas e más, puras e impuras, fiéis e pecadoras (Ecl 9,2). Coélet argumenta que não há nada que justifique as divisões sociais.

Nessa sociedade, a mulher é vista como um perigo e até mesmo como castigo para o pecador: “Descobri que a mulher é mais amarga do que a morte, pois ela é armadilha, seu coração é rede e seus braços, cadeias. Quem agrada a Deus dela escapa, mas o pecador a ela se prende” (Ecl 7,26-27). O sábio recolhe o que a maioria dos homens pensa a respeito da mulher, mas “vira a mesa”, mostrando que a discriminação contra a mulher é uma construção cultural: “Eis a única conclusão a que cheguei: Deus fez o ser humano reto, este, porém, procura complicações sem conta” (Ecl 7,29/30). Mulheres e homens são diferentes, mas não há nada que justifique a dominação de um sobre o outro.

O sábio observa “a insensatez ocupando os mais altos postos e ricos se assentando em lugar baixo. Vejo escravos a cavalo e príncipes a pé, como escravos” (Ecl 10,6-7; cf. 5,7). Em todos os lugares existem funcionários dos gregos e pessoas do povo que lutam para conseguir um lugar ao sol. Portanto: “Nem em pensamento amaldiçoes o rei, não amaldiçoes os ricos em teu quarto, pois um pássaro do céu poderia levar a voz, e um ser alado contaria o que disseste” (Ecl 10,20-21). Submissão, medo, insegurança e desconfiança são consequências de uma sociedade governada pela força (Ecl 10,4). Nessa situação absurda — de vaidade — surge uma questão central: Como alcançar a felicidade?

 

7. O que é felicidade

Diante da realidade de opressão e escravidão, qual a saída para a pessoa? Coélet insiste em que as pessoas não assumam a lógica do poder dominante, segundo a qual a competição, o individualismo e a busca insana do lucro estão acima de tudo. A felicidade não está na busca desmedida de riquezas, mas no direito à vida plena: “Eis que a felicidade do ser humano é comer e beber, desfrutando do produto do seu trabalho” (Ecl 2,24). O importante é ter prazer e fazer o bem durante a vida, alegrar-se com tudo que faz. Isso é o seu direito e dom de Deus (Ecl 3,12.22).

O insistente apelo de Coélet para que se viva a alegria e o prazer não se trata de busca do prazer pelo prazer, mas da garantia dos direitos necessários a uma vida digna. As coisas boas da vida são fruto do trabalho e dons de Deus: “O que melhor convém aoser humano é comer e beber, encontrando a felicidade em todo o trabalho que faz debaixo do sol, durante os dias da vida que Deus lhe concede. Pois esta é a sua porção. Todo ser humano a quem Deus concede riquezas e recursos que o tornam capaz de sustentar-se, de receber a sua porção e desfrutar do seu trabalho, isto é um dom de Deus” (Ecl 5,17-18).

Coélet retoma alguns pensamentos da sabedoria tradicional, entre os quais o seguinte: “Mais vale o desgosto do que o riso, pois pode-se ter a face triste e o coração alegre. O coração dos sábios está na casa em luto, o coração dos insensatos está na casa em festa” (Ecl 7,3-4). Esse é o modo normal de pensar, mas Coélet esclarece que a alegria vem de Deus: “Em tempo de felicidade, sê feliz, e no dia da desgraça reflete: Deus fez tanto um como o outro, para que o ser humano nada encontre atrás de si” (Ecl 7,14/15). Quando a felicidade bate à sua porta, seja feliz, não desperdice um minuto (Ecl 8,15).

Eis o segredo para ser feliz: comer com alegria, beber com satisfação, usar roupas de festa e perfume, desfrutar a vida na companhia de pessoas amadas. Isso é direito de cada pessoa e dom de Deus (Ecl 9,7-9). É fundamental que o ser humano se humanize, que viva com alegria e saiba aproveitar todos os momentos de sua vida (Ecl 11,7-8). A felicidade consiste em viver bem o dia a dia, encontrando alegria nas coisas simples da vida, respeitando a porção de cada um.

 

8. Resgatar a dimensão comunitária

Observando as opressões cometidas debaixo do sol, Coélet vê a realidade das pessoas empobrecidas e violentadas: “Aí estão as lágrimas dos oprimidos, e não há quem os console; a força do lado dos opressores, e não há quem os console” (Ecl 4,1b). O sábio reprova a cobiça, a acumulação e a competição que divide as pessoas. Ele reafirma o valor da solidariedade em oposição ao individualismo: de que adianta trabalhar tanto se não há com quem compartilhar ou para quem deixar os próprios bens?

Coélet é sensível e objetivo. Constata que as leis sociais favorecem os opressores: “No lugar do direito encontra-se o delito, no lugar da justiça, lá se encontra o crime” (Ecl 3,16). A busca pelas riquezas não tem fim: “seus olhos não se saciam de riquezas”. Apesar de terem o suficiente, algumas pessoas são insaciáveis. O afã de possuir mais e mais é sem limites. Trabalhar exageradamente e privar-se da felicidade “é vaidade e trabalho penoso” (Ecl 4,8). O sábio recomenda: “Mais vale um bocado de lazer do que dois bocados de trabalho” (Ecl 4,6).

A vida só tem sentido quando é compartilhada com as outras pessoas (Ecl 4,7-12; 9,9a). Ninguém é feliz vivendo de maneira egoísta. Coélet, por diversas vezes, insiste na importância de respeitar a porção do outro (Ecl 3,22; 5,17.18). Cada pessoa é chamada a fazer o bem e fazer tudo o que estiver a seu alcance (Ecl 3,12; 9,10). É importante trabalhar comunitariamente: “A corda tripla não se rompe facilmente” (Ecl 4,12b). A ação de cada pessoa repercute na vida social e comunitária: “um único pecador anula muitos bens” (Ecl 9,18). É preciso criar consciência da necessidade de agir em favor da vida. Semear sempre (Ecl 11,6).

Viver a dimensão comunitária é um caminho para ser feliz e superar os desafios que o dia a dia apresenta. A solidão é um mal terrível. A existência só tem sentido quando é compartilhada com outras pessoas.

 

9. Deus é o Senhor da história

De acordo com a fé do povo judeu, Coélet acredita que tudo vem das mãos de Deus (Ecl 1,13; 2,24). Reconhece que Deus é o criador e que a sua obra é bela. Depois de muito pesquisar, o sábio chega a uma única conclusão: “Deus fez o ser humano reto, este, porém, procura complicações sem conta” (Ecl 7,29/30). Mas Deus “também colocou no coração do ser humano o conjunto do tempo, sem que o ser humano possa atinar com a obra que Deus realiza desde o princípio até o fim” (Ecl 3,11). A vida é um mistério, e a visão do ser humano sobre a realidade e a criação sempre será parcial (Ecl 8,17).

A sabedoria tradicional afirma haver um tempo e um momento para tudo (Ecl 3,1-8). Coélet ousa discutir com os sábios oficiais de sua época e vai além. Afirma haver um mistério que ultrapassa a capacidade humana de compreensão: “Assim como não conheces o caminho do vento ou do embrião no seio da mulher, também não conheces a obra de Deus que faz todas as coisas” (Ecl 11,5; 9,12).

Se o ser humano conhecesse os planos divinos poderia controlar o próprio Deus: “Compreendi que tudo o que Deus faz é para sempre. A isso nada se pode acrescentar, e disso nada se pode tirar. Deus assim faz para que o temam” (Ecl 3,14). O temor de Deus não significa medo, mas reconhecimento da distância existente entre ele e o ser humano: “Deus está no céu, e tu na terra” (Ecl 5,1). Para Coélet, o temor é reverência, respeito e confiança.

O reconhecimento de que o mistério de Deus está além da compreensão humana abre caminhos para que a pessoa viva intensamente o momento presente: “Compreendi que não há felicidade para o ser humano a não ser no prazer e no fazer o bem durante a sua vida” (Ecl 3,12). A ação do ser humano não influi no agir de Deus. Essa certeza abre novo horizonte: a pessoa faz o bem não tendo em vista uma recompensa, mas na total gratuidade.

Temer a Deus é reconhecê-lo como o Senhor da história e aceitar que a vida humana tem limites. Essa atitude deve fazer a pessoa entender que orgulho e autossuficiência não levam a nada. O ser humano é chamado a construir a sua história e viver plenamente: “Que todos tenham vida e vida plena” (Jo 10,10). Se alguém não tem o mínimo para viver dignamente, precisa lutar pela justiça. Coélet reconhece que “justos e sábios com suas obras estão nas mãos de Deus. O ser humano não conhece o amor nem o ódio de tudo o que espera” (Ecl 9,1). Hoje a sabedoria nascida da vida afirma que “o futuro a Deus pertence”. Quem fica preso no passado ou apenas com os olhos no futuro não percebe o momento presente. Esse ditado não é para cruzarmos os braços, pois o futuro depende das conquistas que realizamos no presente.

Deixemos ressoar em nossos ouvidos a ordem de Coélet: comer, beber, festejar, compartilhar a vida com as pessoas amadas, fazer tudo que está ao nosso alcance. Viver cada momento como dom precioso de Deus, encontrando a felicidade nas pequenas coisas: na beleza de uma flor, no sorriso de uma criança, no encontro com amigas e amigos, no trabalho que fazemos, na mão que estendemos às pessoas e nas mãos estendidas a nós… Em tudo deixar que a luz irradie do nosso ser e que, apesar dos atropelos da vida, possamos sempre proclamar: “Doce é a luz e agradável aos olhos ver o sol” (Ecl 11,7). É bom viver!

Fonte: Revista Vida Pastoral

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