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Deus está em guerras? Uma leitura de Êxodo 17,8-16

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No dia 25 de novembro de 1944, os pilotos japoneses kamikazes arremessaram seus aviões contra os porta-aviões Essex e Independence da força americana. O ataque suicida, “torpedo humano kamikaze”, representou uma das principais armas da força aérea da Marinha japonesa nos últimos estágios da Segunda Guerra Mundial. O resultado desses ataques foi “a morte de 2.525 pilotos em ataques kamikazes, provocando a morte de 4.900 soldados aliados e mais de 4 mil feridos. A Força Aérea americana alega que 34 barcos afundaram e 368 ficaram danificados”.[1]

Existem versões diferentes para a história da criação do tipo kamikaze. Um dos elementos está enraizado, por certo, na origem do termo (kami significa “deus” e kaze, “vento”). Trata-se de palavra japonesa comum por ter se tornado o nome de um tufão, sobre o qual se diz ter salvado o Japão, em 1281, de ser invadido por uma frota liderada por Kublai Khan, conquistador do império mongol. O vento de Deus, que salvou o Japão, marcou sua história, cultura e, especialmente, o xintoísmo, a religião nativa do país.

O xintoísmo se caracterizava pelo culto aos ancestrais e à natureza, associando as divindades com as montanhas, os rios, as árvores, o vento (kaze) etc., e transformou, ao longo da história, o imperador num deus (kami). No auge do nacionalismo da Segunda Guerra, os dirigentes do exército japonês fortaleceram essa religião nativa como a religião oficial e sacralizaram o Estado e o imperador. Então, a guerra conduzida pelo imperador (o chefe do Estado) tornou-se uma guerra santa, e Deus atuava por meio de seus combatentes, como os kamikazes. Os jovens pilotos encarnaram o “vento” de Deus para derrubar os inimigos. A morte deles era considerada um ato honroso e uma porta para tornar-se divino. Na história da humanidade, com frequência aparece a “presença” de Deus em guerras.

No Primeiro Testamento, há vários textos que descrevem a participação de Deus em guerras. Em Israel, existe a tradição da guerra santa. As guerras de Israel eram consideradas guerras de Iahweh: “A bandeira de Iahweh em mãos! Iahweh está em guerra contra Amalec de geração em geração” (Ex 17,16). Nessa guerra, Iahweh aniquila, por seus soldados, todos os inimigos: “Josué pôs em fuga Amalec e seu povo ao fio da espada” (Ex 17,13). Houve muitas mortes. A crueldade e a barbárie da guerra eram justificadas em nome de Javé! A guerra continua até hoje, e há muitas guerras em nome dos Deuses.

Afinal, é vontade de Deus? É Deus quem promove a matança? Para entender, nos textos bíblicos, a participação de Iahweh em guerras, é necessário considerar a redação do texto, a intenção do redator e o seu contexto sociorreligioso.

 

 

1. IAHWEH ESTÁ EM GUERRAS

No Antigo Oriente Médio, a guerra era guerra de Deuses. As guerras de conquistas aconteciam em nome dos Deuses de cada povo. A Bíblia relata várias guerras do povo de Israel sob a guia e a proteção de Iahweh:

 

Fizeram a guerra contra Madiã, conforme Iahweh ordenara a Moisés, e mataram todos os varões. Mataram ainda os reis de Madiã, Evi, Recém, Sur, Hur e Rebe, cinco reis madianitas; também passaram ao fio da espada Balaão, filho de Bôer. Os israelitas levaram cativas as mulheres dos madianitas com as suas crianças, e tomaram todo o seu gado, todos os seus rebanhos e todos os seus bens. Queimaram as cidades em que habitavam, bem como todos os seus acampamentos (Nm 31,7-10).

 

Na tomada de Jericó, primeira cidade conquistada em Canaã, Iahweh fez desmoronar a muralha da cidade, e o seu exército aniquilou todos os habitantes da cidade:

 

O povo lançou o grito de guerra e tocaram as trombetas. Quando o povo ouviu o som da trombeta, lançou um grande grito de guerra e a muralha ruiu por terra, e o povo subiu à cidade, cada qual no lugar à sua frente, e se apossaram da cidade. Então consagraram como anátema tudo que havia na cidade: homens e mulheres, crianças e velhos, assim como os bois, ovelhas e jumentos, passando-os ao fio da espada (Js 6,20-21).

 

No início da monarquia, os israelitas enfrentam várias guerras. O relato sobre as guerras de Davi nos traz a memória da participação ativa de Deus na conquista:

 

Davi venceu Adadezer, filho de Roob, rei de Soba, assim que este pretendeu estender o seu domínio sobre o rio. Davi tomou-lhe mil e setecentos cavaleiros e vinte mil homens a pé, e jarreteou Davi todas as parelhas, conservando apenas cem. Os arameus de Damasco vieram em socorro de Adadezer, rei de Soba, mas Davi matou vinte e dois mil homens dos arameus. Depois Davi instalou prefeitos no Aram de Damasco, e os arameus se tornaram súditos de Davi e lhe pagaram tributo. Onde quer Davi fosse, Iahweh lhe dava a vitória (2Sm 8,3-6).

 

A guerra era uma guerra de conquista: destruição da cidade, massacres, saques, prisioneiros… A população inteira podia ser exterminada ou escravizada. A guerra traz a marca da crueldade da morte. O que pensar disso? Os fundamentalistas dão a sua resposta: Deus castiga e destrói os inimigos de Israel, do povo eleito. A Bíblia falou, tá falado… Ao longo da história, a Bíblia foi usada pelos “cristãos” para castigar os inimigos da fé cristã.  É vontade de Deus? Parece que não. Por que a Bíblia escreve a barbárie da guerra sob a ordem de Iahweh?

Os estudos recentes nos fornecem algumas informações importantes sobre as guerras de Iahweh:

1)      A redação dos livros do Pentateuco (Gn, Ex, Lv, Nm e Dt) e a redação final dos livros da “história deuteronomista” (Js, Jz, 1Sm, 2Sm, 1Rs e 2Rs) ocorreram essencialmente no tempo exílico e pós-exílico. Em 587 a.C., os babilônios invadiram e saquearam a cidade de Jerusalém, incendiaram o Templo e ainda deportaram uma parte da população para a Babilônia. No exílio, para garantir a identidade do povo judeu no meio dos estrangeiros, nasce a ideia de povo puro e eleito: “Assim diz o Senhor Iahweh: Eis que tomarei os israelitas dentre as nações, para as quais foram levados, (…) e os purificarei, para que sejam o meu povo e eu seja o seu Deus” (Ez 37,21.23).

2)      No pós-exílio, especialmente no tempo de Neemias e Esdras (450-350 a.C.), consolidou-se a compreensão de que o povo de Israel era o único povo santo, escolhido por Deus. Essa visão nacionalista excluía os estrangeiros, considerando-os como grupos impuros e condenados por Iahweh: “Purifiquei-os de todo elemento estrangeiro” (Ne 13,30).

3)      Consolidou-se a ideia de Iahweh como o único Deus: “Iahweh é o único Deus, tanto no alto do céu, como cá embaixo, na terra. Não existe outro!” (Dt 4,39).  O templo de Jerusalém, considerado a única morada de Iahweh, tornou-se o centro da vida religiosa e política do povo judeu. É o que chamamos de teocracia. Nesse período, a história de Israel foi reescrita segundo uma visão nacionalista e excludente.

4)      Nessa história, Israel, descrito como um grupo nascido da caminhada dos patriarcas, do acontecimento do êxodo e da caminhada pelo deserto sob a orientação de Iahweh, é povo distinto dos moradores da terra de Canaã. Israel qualificava os outros povos como “estrangeiros”, “ímpios” e “idólatras”. Os seus deuses e suas adorações eram considerados como afronta e ataque a Iahweh. Por isso, os estrangeiros deveriam ser aniquilados com a crueldade da guerra santa de Iahweh.

 

Na redação final, os relatos das guerras contra os outros povos podem ter adquirido uma carga maior de violência e brutalidade por causa da experiência de Judá nas guerras e invasões dos assírios (701 a.C.) e dos babilônios (597 e 587 a.C.; cf. 2Rs 25,8-9). Os sentimentos de vingança se encontram nos oráculos contra as nações, redigidos no tempo exílico e pós-exílico: “‘Caiam sobre a Babilônia a violência e as feridas que eu sofri!’, diz o habitante de Sião. ‘Caia sobre os habitantes da Caldeia o meu sangue!’, diz Jerusalém. Por isso, assim disse Iahweh: ‘Eis que eu pleitearei a tua causa e me encarregarei da tua vingança’” (Jr 51,35-36).

Na mentalidade do grupo que escreve, é Deus que se encarrega de submeter as nações estrangeiras e aniquilar seus moradores. É a ação de Deus, todo-poderoso e vingador, contra os inimigos do povo judeu, convicção que deve ser propagada por toda a terra. Essa visão teológica encontra-se expressa no aniquilamento do povo Amalec em Ex 17,8-16.

 

2. GUERRA CONTRA AMALEC

A Bíblia descreve os amalecitas como descendentes de Esaú (cf. Gn 36,12.16). São grupos nômades que vivem no deserto do Sinai. Os conflitos com os amalecitas são registrados em vários textos bíblicos (cf. 1Sm 15; 27,8; 30,1-2). Uma das causas de constantes conflitos com os povos vizinhos é a escassez de pasto e de água, imprescindíveis para a sobrevivência.

A última redação dos textos, que narram a inimizade entre Israel e Amalec, deu-se no tempo exílico e pós-exílico, segundo a ótica de Javé como o Deus único e de Israel como o povo eleito. Povos como os de Amalec, que adoram outros Deuses, eram por certoconsiderados como idólatras e deviam ser exterminados:

 

Lembra-te do que Amalec te fez no caminho, quando saíste do Egito: ele veio ao teu encontro no caminho, quando estavas cansado e extenuado, e pela tua retaguarda, sem temer a Deus, atacou a todos os desfalecidos que iam atrás. Quando Iahweh teu Deus te der sossego de todos os inimigos que te cercam, na terra que Iahweh teu Deus te dará para que a possuas como herança, deverás apagar a memória de Amalec de sob o céu. Não te esqueças! (Dt 25,17-19).

 

Como Dt 25,17-19, o relato da guerra santa em Ex 17,8-16 vale para a época pós-exílica. O objetivo do relato é provar que Deus está com Israel, o povo eleito, aniquilando seus inimigos idólatras. Rafidim é o local onde os israelitas questionaram a Moisés se Deus estava ou não com eles (Ex 17,1-7). Nesse relato, Josué é introduzido sem nenhuma preparação, como se o leitor já o conhecesse:

 

Ora, veio Amalec e combateu contra Israel em Rafidim. Então Moisés disse a Josué: “Escolhe homens e amanhã sai para combater Amalec; eu ficarei no cimo da colina com a vara de Deus na mão”. Josué fez o que Moisés lhe dissera, para combater Amalec, e Moisés, Araão e Hur subiram ao topo da colina. E, enquanto Moisés ficava com as mãos levantadas, Israel prevalecia; quando, porém, abaixava as mãos, prevalecia Amalec. Ora, as mãos de Moisés estavam pesadas; tomando então uma pedra, puseram-na debaixo dele e ele se sentou; Aarão e Hur sustentavam-lhe as mãos, um de um lado e o outro do outro. Assim as suas mãos ficaram firmes até o pôr do sol (Ex 17,8-12).

 

De acordo com esse texto, Josué é o encarregado militar: é ele que faz a seleção dos guerreiros e comanda a batalha (Ex 17,9.10.14). Enquanto Moisés permanece na posição de adoração, auxiliado por Aarão e Hur, o inimigo é derrotado. Na conquista da terra, Josué lidera os israelitas pelo rio Jordão (Js 1-5) e também na guerra contra as cidades-Estados de Canaã (Js 6-12). A sua aparição repentina e ocasional no Pentateuco é por causa de sua associação com a conquista. A presença de Josué na guerra santa reforça a visão de salvação presente nessa narrativa, relacionando o êxodo à conquista da terra.

Eis como Josué é apresentado no Pentateuco: ele acompanha Moisés para receber a revelação da Lei sobre a montanha de Deus (Ex 24,13). Ele desce da montanha com Moisés depois da construção do bezerro de ouro, o que evidencia estar ele livre do pecado da idolatria (Ex 32,17-33,11). E mais: em Números, Josué é retratado como líder carismático. Ele é o auxiliar de Moisés quando os setenta anciãos recebem uma porção do espírito de Moisés, e o próprio Josué também recebe o espírito (Nm 11,28; 27,18.22). Ele é o líder da conquista e o sucessor de Moisés (Dt 1,38; 3,21.28; 31,23). Dessa forma, Josué exerce a função de ligar o acontecimento do êxodo às guerras de conquista de Israel.

Mas, na narrativa de Ex 17,8-16, o papel principal não está com Josué, e sim com Moisés e a sua vara de Deus. Moisés assume novo papel: a missão de conduzir os israelitas na guerra santa. Ele ainda possui a habilidade de escrever: “Então Javé disse a Moisés: ‘Escreve isso para memorial num livro e declara a Josué que hei de extinguir a memória de Amalec de debaixo do céu’” (Ex 17,14).

Dois elementos novos surgem nesse texto: a vara de Iahweh e o livro de memórias. A perspectiva de vitória não depende das proezas militares, mas da adoração a Deus, que dirige o povo em sua caminhada. O poder para empreender a guerra não depende de Moisés, nem de Josué, nem dos guerreiros israelitas, mas do poder mágico da vara de Iahweh. A vitória está garantida quando Aarão e Hur ajudam Moisés, providenciando uma forma de seus braços ficarem em posição de adoração. Transparece, aqui, a importância do culto a Iahweh, o único Deus, no tempo do pós-exílio.

Israel aniquilou o povo de Amalec: “Josué pôs em fuga Amalec e seu povo ao fio da espada” (Ex 17,13). A crueldade da guerra é santificada pelo caráter religioso da guerra santa de Iahweh contra os povos estrangeiros, que combatem em nome de seus deuses. A adoração a outros deuses é considerada rebeldia contra Javé, e os idólatras devem ser exterminados. É a lei do anátema, cuja função é a purificação cultural e religiosa no tempo pós-exílico. Essa lei deve ser escrita no “livro de memórias”: o Pentateuco. Segundo o redator, Moisés deveria ser o autor do Pentateuco por ordem de Iahweh. No essencial, essa teologia pertence ao estágio recente da formação do Pentateuco, ou seja, à redação pós-exílica.

A narrativa conclui com Moisés construindo um altar para Iahweh e atribuindo-lhe um nome: “‘Iahweh-Nissi’, porque ele disse: ‘A bandeira de Iahweh em mãos! Javé está em guerra contra Amalec de geração em geração’” (Ex 17,15b-16). O objetivo não é a construção do altar, mas o nome. Os relatos etiológicos – cuja função é relacionar o nome de um local a um acontecimento – ocupam papel de destaque na história da caminhada no deserto. A narrativa já apresentou a origem do nome do maná, de Massa e de Meriba e agora da guerra contra os amalecitas (cf. Ex 16,15; 17,1-7; 17,15-16).

A expressão: “A bandeira de Iahweh em mãos!” indica que ele é guerreiro e salvador na guerra contra os amalecitas. Eles são acusados de não temer ao único Deus e por isso é necessário a sua destruição como povo, para não prejudicar Israel. A vitória sobre Amalec comprova a presença de Iahweh no meio dos israelitas. Um Deus que está em guerra, lutando junto com o seu povo eleito (Ex 14,14).

            Lendo e analisando o estilo, o vocabulário e o pensamento de Ex 17,8-16, percebe-se que se trata de um texto redigido por volta do ano 400 a.C., durante o período em que a comunidade judaica era organizada pelos teocratas em torno do templo de Jerusalém. Foi nessa época que se deu a última redação do Pentateuco sob a teologia de Iahweh oficial, o deus único, e do povo eleito Israel. Quem não adere a essa teologia oficial será condenado como infiel, impuro e malvado, castigado e aniquilado. Na tentativa de entender a redação do livro do Êxodo e sua teologia, vamos conhecer um pouco da realidade do Templo com a leitura de alguns textos.

 

3. A TEOCRACIA E SEU RELATO DO ÊXODO 

            Em 539 a.C., Ciro, o rei da Pérsia, derrotou a Babilônia, tornando-se o único rei de todo o Oriente Próximo. O império persa conseguiu subjugar mais de 80 povos. Uma das estratégias políticas dos persas era dar liberdade religiosa aos povos dominados. Na Judeia, a Pérsia ajudou até a restaurar o templo de Jerusalém, desde que essa instituição servisse aos seus interesses políticos e econômicos. Os persas não interferiam nos ritos religiosos, mas fiscalizavam o funcionamento do Templo, onde os judeus ofereciam sacrifícios e pagavam seus dízimos.

Por volta do ano 460 a.C., surge uma revolta no Egito. Alguns anos mais tarde, o governador da satrapia de Transeufrates, província da qual Judá faz parte, também se rebela contra o poder central do império persa. Nesse contexto de grande instabilidade, entre 445 e 432 a.C., o império persa, de olho no corredor sírio-palestino, envia Neemias e Esdras para reorganizar e fortalecer Judá. A cidade de Jerusalém e o Templo se tornam o centro do poder político e econômico. Consolidou-se a sociedade teocrata em Judá.

O sistema do Templo e a teologia do puro e impuro são reforçados. A pessoa impura fica impedida de participar da vida comunitária e do culto no Templo, a morada exclusiva de Iahweh, o Deus único. A única forma de voltar a participar da sociedade e do Templo era fazer o sacrifício de purificação, que inclui a entrega de ofertas para os sacerdotes do Templo (cf. Lv 11-14). Assim, o Templo e a Lei se tornam os principais mecanismos de arrecadação de tributos para a manutenção da teocracia de Jerusalém, que repassa uma parte da arrecadação ao império persa.

No processo de consolidação da teocracia, sua instituição e sua teologia, ocorreu a última redação do livro do Êxodo. A releitura pós-exílica do Êxodo foi a principal responsável por dar a esse livro os contornos de uma imagem de Deus poderoso e de seu grandioso templo. A seguir, alguns textos da releitura.

 

1) A contribuição para o santuário:

Iahweh falou a Moisés, dizendo: “Dize aos israelitas que me tragam uma contribuição. Tomareis a contribuição de todo homem cujo coração o mover a isso. Eis a contribuição que recebereis deles: ouro, prata e bronze; púrpura violeta e escarlate, carmesim, linho fino e pelos de cabra; peles de carneiro tingidas de vermelho, couro fino, e madeira de acácia; azeite para a lâmpada, aromas para o óleo de unção e para o incenso aromático; pedra de cornalina, e pedras de engaste, para o éfode e para o peitoral. Faze-me um santuário, para que eu possa habitar no meio deles” (Ex 25,1-8).

            Os caps. 25-27 oferecem uma imagem esplêndida do santuário do tempo pós-exílico, com uma organização desenvolvida segundo o modelo dos templos babilônicos. Por exemplo, o espaço do átrio, que congrega o povo ao redor do santuário, é equivalente ao templo de Jerusalém (cf. Ez 40). Na teocracia, os dízimos, as ofertas, os primogênitos e as primícias, transformados em tributo obrigatório, são entregues ao Templo, a única morada de Deus.

 

2) O peitoral do sumo sacerdote:

Farás para Aarão, teu irmão, vestimentas sagradas para esplendor e ornamento. Dirás a todas as pessoas hábeis, a quem enchi de espírito de sabedoria, que façam vestimentas para Aarão, para consagrá-lo ao exercício do meu sacerdócio. Eis as vestimentas que farão: um peitoral, um éfode, um manto, uma túnica bordada, um turbante e um cinto (Ex 28,2-4).

 

            O cap. 28 descreve as vestimentas sagradas do sumo sacerdote na época pós-exílica. Na teologia da teocracia, Deus deveria reinar diretamente sobre a comunidade judaica. “Na prática, o reino de Deus se realizaria ao conferir ao sacerdócio um papel político e ao configurar a comunidade judaica como uma cidade-templo”.[2] O sumo sacerdote não era apenas o chefe do culto, mas também o encarregado de administrar a comunidade judaica nas decisões políticas e sociais. A sua autoridade no lugar do rei Iahweh era argumentada e sustentada pelas vestimentas, que têm função de produzir o espaço sagrado, separando-o do profano. O peitoral, por exemplo, contém as sortes sagradas: o Urim e Tummim (cf. Lv 8,7-8).

 

3) O temor de Deus:

Moisés viu que o povo estava desenfreado, porque Aarão os havia abandonado à vergonha no meio dos seus inimigos. Moisés ficou de pé no meio do acampamento e exclamou: “Quem for de Iahweh venha até mim!” Todos os filhos de Levi reuniram-se em torno dele. Ele lhes disse: “Assim fala Iahweh, o Deus de Israel: Cingi, cada um de vós, a espada sobre o lado, passai e tornai a passar pelo acampamento, de porta em porta, e matai, cada qual, a seu irmão, a seu amigo, a seu parente”. Os filhos de Levi fizeram segundo a palavra de Moisés, e naquele dia morreram do povo uns três mil homens. Moisés então disse: “Hoje recebestes a investidura para Iahweh, cada qual contra o seu filho e o seu irmão, para que ele vos conceda hoje a bênção” (Ex 32,25-29).

 

O texto apresenta o zelo dos levitas teocratas que executam a sentença de Iahweh contra os idólatras. No período pós-exílico, o monoteísmo de Iahweh consolida-se na teocracia de Judá e a idolatria deve ser combatida e punida. O castigo atinge a todos, e a execução chega até aos familiares infiéis a Iahweh. A lei religiosa está acima dos vínculos de família.

Como podemos perceber, a presença de um deus único, poderoso, ciumento e vingativo é força que mantém a teocracia. Não deve existir outro Deus que se oponha ao Deus oficial. A idolatria é considerada como rebeldia contra Iahweh oficial e ameaça que pode desestruturar a sociedade baseada na aliança entre o povo eleito e Deus. A ordem do dia é manter-se fiel e puro diante de Deus. Ele abençoa a pessoa fiel com riqueza, vida longa e descendência. Mas não seguir as leis de Deus provoca castigo, desgraça, sofrimento e morte.

Sem dúvida, o massacre dos idólatras em guerra santa é assustador: “Iahweh teu Deus a entregará em tua mão e passará todos os seus homens ao fio da espada. Quanto às mulheres, crianças, animais e tudo o que houver na cidade, todos os seus despojos, tu o tomarás como presa” (Dt 20,13-14). Deus está com o povo eleito, combate ao seu lado e lhe garante a vitória. Para a teologia pós-exílica dos teocratas, o aniquilamento dos povos estrangeiros serve, por certo, como apelo para uma purificação sociocultural e religiosa.

 

4. UMA PALAVRA FINAL[3]

Tal como no caso da teocracia judaica do pós-exílio, ainda hoje se recorre às teologias oficiais – também presentes em textos sagrados e doutrinas de outros povos – para esconder interesses econômicos e políticos ou apresentá-los como vontade de Deus. O nome de Deus continua sendo usado para justificar e legitimar atos de violência e até mesmo guerras contra povos e culturas que adoram divindades diferentes ou cultuam as divindades de modo distinto.

Exemplos disso são o apoio cristão e judaico às intervenções e ao bombardeio de diversos países muçulmanos por parte dos Estados Unidos, o apoio religioso e espiritual à violência, à discriminação e ao desejo de extermínio existentes nas relações entre Israel e os palestinos, nos conflitos intertribais na África, entre hindus e cristãos na Índia e em tantos outros pelo mundo afora.

Essa mesma espiritualidade está presente nos grupos que, em nome de Jesus, demonizam divindades africanas e indígenas e atacam centros de umbanda, candomblé e espiritismo. Ou ainda financiam e promovem a conversão dos povos indígenas e povos de outras culturas, desejando que estes abandonem seus milenares modos de vida e assumam a cultura ocidental, branca e cristã.

No entanto, a comunidade joanina, por meio de Jesus, em Jo 8,39-44, adverte-nos de que o diabo, o demônio, não está na pessoa ou no povo que vive, exprime e cultua a Deus de forma diferente. O demônio está, sim, naquela pessoa ou grupo que quer destruir a cultura de outra pessoa ou de um povo e matá-los só porque são diferentes, pois o diabo “foi homicida desde o princípio”.

Hoje, como ontem, acontecem as guerras santas, que continuam provocando a morte dekamikazes e de suas vítimas. O jornal de hoje traz duas notícias: “Um homem-bomba se explodiu ontem em funeral em Peshawar, no noroeste do Paquistão; pelo menos 36 pessoas morreram e outras 100 ficaram feridas”; “Choques entre muçulmanos e a minoria cristã do Egito anteontem à noite, no Cairo, deixaram pelo menos 13 mortos e 140 feridos, segundo informações do Ministério da Saúde” (Folha de S. Paulo, 10 de março de 2011). Observar e seguir a lei do puro e do impuro? Esforçar-se para aniquilar os impuros? A vida e morte em nome de Deuses? É preciso entender que o Deus de Jesus não faz distinção entre as pessoas, “ele faz nascer o sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,45). Ele ensina o povo a viver um relacionamento na igualdade, amor e gratuidade.

Fonte: Revista Vida Pastoral

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