Meditação sobre o Nascimento de São João Batista

A IGREJA geralmente comemora os santos no dia da sua ida para o céu, que nos primeiros tempos do cristianismo, muitas vezes coincidia com o seu martírio. No entanto, o caso de São João Batista é singular desde os primeiros séculos, pois também se celebrava o seu nascimento, que ocorreu seis meses antes do de Jesus. A Igreja compreendeu sempre, pela Escritura, que o Batista ficou cheio do Espírito Santo desde o seio materno (cf. Lc 1,15), quando Maria, já com o Senhor no seu ventre, visitou a sua prima Santa Isabel.

No Evangelho lemos sobre o nascimento e a imposição do nome de João Batista, e esses eventos convidam-nos a considerar o desígnio divino que os precede. “O Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome” (Is 49,1). Estas palavras do profeta Isaías expressam uma das realidades mais profundas da existência humana: não surgimos nesta terra por acaso, nem somos apenas mais um exemplo anônimo e insignificante da nossa espécie. A nossa chegada à vida é, ao mesmo tempo, um chamamento de Deus, uma escolha que promete felicidade e missão. Ele nos criou como somos, com cada uma das nossas particularidades; pronunciou o nosso próprio nome pessoal, quis que fôssemos únicos. “Fostes vós que me formastes as entranhas, e no seio de minha mãe vós me tecestes. Eu vos louvo e vos dou graças, ó Senhor, porque de modo admirável me formastes!” (Sl 139, 13-14).

“Deus quer algo de você, Deus está à sua espera (…). Convida-o a sonhar, quer que veja que, com você, o mundo pode ser diferente. É assim: se você não der o melhor de si mesmo, o mundo não será diverso. É um desafio”[1]. São Josemaria explicava que para receber a luz do Senhor e permitir que ela ilumine o sentido da nossa existência, “precisamos amar, reconhecer humildemente a necessidade de sermos salvos, e dizer com Pedro: Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna (…). Se deixarmos a chamada divina penetrar no nosso coração, também com verdade poderemos repetir que não caminhamos nas trevas, pois, por cima das nossas misérias e dos nossos defeitos pessoais, brilha a luz de Deus, como o sol brilha por cima da tempestade”[2].


“E TU, MENINO, serás chamado profeta do Altíssimo: irás diante do Senhor, preparando-lhe os caminhos” (Lc 1, 76). Estas palavras pronunciadas por Zacarias, que repetimos na aclamação do Evangelho, revelam a união inseparável que existe entre vocação e missão, entre vocação e envio. A grandeza da vocação de João, de fato, reside na importância singular da sua missão. “O maior dos homens foi enviado para dar testemunho de Quem era mais do que um homem”[3], diz Santo Agostinho. E Orígenes acrescenta outro aspecto da vocação do Batista que se prolonga até os nossos dias: “O mistério de João ainda se cumpre no mundo de hoje. Todo aquele que está destinado a crer em Jesus Cristo precisa que primeiro o espírito e o poder de João entrem na sua alma para ‘preparar um povo para o Senhor’ (Lc 1, 17) e ‘aplanar e endireitar os caminhos tortuosos e escabrosos’(Lc 3, 5) das asperezas do coração. Não é só naquela época que ‘os caminhos foram aplanados e as veredas endireitadas’, mas ainda hoje o espírito e a força de João precedem a vinda do Senhor e Salvador”[4].

Todo o cristão também é chamado a continuar a missão de João Batista, preparando as pessoas para o encontro com Cristo: “Que bonita é a conduta de João Batista! – diz São Josemaria –. Que limpo, que nobre, que altruísta! Verdadeiramente ele preparou os caminhos do Senhor: os seus discípulos só conheciam Cristo de ouvir falar, e ele impele-os a dialogar com o Mestre; faz com que O vejam e que falem com Ele; dá-lhes a oportunidade de admirar os prodígios que realiza”[5]. A vida de São João Batista foi sóbria e penitente, de acordo com a mensagem de conversão que transmitia. A sua pregação foi uma proclamação destemida da verdade de Deus, da qual deu testemunho até à morte. Como ele, nós também somos chamados a levar Cristo aos lugares onde as nossas vidas se realizam. Para isso, como João e os seus discípulos, colocaremos os nossos olhos em Jesus para que, cheios da Sua vida, convidemos aqueles que estão ao nosso lado a fazê-lo.


QUANDO JOÃO estava prestes a concluir a sua vida, dizia: “Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede: depois de mim vem aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias” (At 13, 25). São João Batista é um exemplo de humildade e de intenção reta. Nunca procurou brilhar com luz própria, fazer propaganda de si mesmo, aproveitar a sua vocação para ganhar destaque ou outras vantagens pessoais. “Ninguém pode receber alguma coisa, se não lhe for dada do céu” (Jo 3, 27), explicou a vários dos seus discípulos, quando se preocuparam ao ver que os seus seguidores estavam começando a diminuir. “Esta é a minha alegria, e ela é completa. É necessário que ele cresça e eu diminua” (Jo 3, 29-30), continuava. O apostolado e a conversão dos corações são tarefa de Deus, da qual somos humildes colaboradores. Ele é o dono do fruto e dos tempos. Nas palavras de Santo Agostinho, João sempre teve consciência de que “era a voz, mas o Senhor era a Palavra que já existia no princípio. João era uma voz passageira, Cristo a Palavra eterna desde o princípio”[6].

Também na nossa vida de apóstolos convém que Cristo cresça e que o nosso eu diminua. Isso exige uma profunda humildade, como explicou São Josemaria: “Imagino que todos estão tentando ser muito humildes. Desta forma, evitarão muitas decepções na vida e serão como uma árvore frondosa; mas não com folhas, nem frutos que, quando são vãos, quando não têm polpa carnosa e doce, não pesam, e a árvore tem os seus ramos para cima, vaidosa! Por outro lado, quando os frutos estão maduros, quando estão sólidos, quando a polpa, como disse antes, é doce e agradável ao paladar, então os ramos baixam, com humildade (…). Vamos pedir a Santa Maria, nossa Mãe, algo que fiz com que vocês tenham sempre nos lábios, como um elogio encantador dirigido à Virgem, aquele grito: Ancilla Domini!”[7], Escrava do Senhor.


[1] Francisco, Discurso, 30/07/2016.

[2] São Josemaria, Cristo que passa, n. 45.

[3] Santo Agostinho, Sermão 289.

[4] Orígenes, Homilias sobre São Lucas, 4.

[5] São Josemaria, Cartas 4, n. 21.

[6] Santo Agostinho, Sermão 293.

[7] São Josemaria, Notas de uma reunião familiar, 27/12/1972.

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