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Sacrifício, presença e comunhão

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O Evangelho de São Lucas narra um episódio em que Jesus ressuscitado encontra-se com dois discípulos a caminho de Emaús. Essa narrativa indica os grandes momentos da presença de Jesus em nossas comunidades, como o fez com os discípulos. Primeiro, Ele caminha conosco, solidário com nossos problemas e participando de nossas lutas cotidianas; em seguida, Ele está no meio de nós quando é anunciada a Palavra das Escrituras fazendo arder nossos corações; Ele, ainda, torna-se presente entre nós no gesto da “fração do pão”, fazendo memória da entrega de sua vida na Cruz. Todo amor é partilha e, em toda partilha de vida motivada pelo amor, Cristo revela sua presença.

A Eucaristia é a expressão desse amor. É o sacramento do amor que não deixa a maior prova do amor de Deus pela humanidade permanecer no acontecimento do passado. A Eucaristia é o amor maior e, como todo verdadeiro amor, exprime-se mediante tríplice exigência: do sacrifício, da presença e da comunhão.

O amor exige sacrifício. A Eucaristia é o sacramento do amor porque, em primeiro lugar, significa e realiza o sacrifício da Cruz na forma de ceia pascal. Nos sinais do pão e do vinho, Jesus se oferece como Cordeiro imolado que tira o pecado do mundo. Pão dado, sangue derramado pela redenção do mundo. Eis aí o sacrifício como exigência do amor.

Amar o próximo como Jesus amou exige de seus discípulos a prática do mesmo gesto de doação da vida em favor da vida dos irmãos. Vida eucarística é vida doada a serviço dos irmãos que lutam pelos direitos que resguardam sua dignidade de filhos de Deus.

O amor, além do sacrifício, exige presença. A Eucaristia é a presença real do Senhor que faz dos sacrários de nossas igrejas centro da vida e da oração dos fieis. A fé cristã vê no sacrário de nossas igrejas a morada do Senhor plantada ao lado da morada dos homens, não os deixando órfãos, fazendo-lhes companhia, partilhando com eles as alegrias e as tristezas da vida, ensinando-lhes o significado da verdadeira solidariedade. Eis a presença, outra exigência do amor.

A Eucaristia, presença real do Amigo no tabernáculo de nossos templos, tem sido fonte da piedade popular como demonstra o hábito da visita ao Santíssimo e da adoração na Hora Santa, culminando na procissão litúrgica anual de Corpus Christi. Impossível crer nessa presença e não acolhê-la nas situações concretas da vida: “Eu estava com fome e vocês me deram de comer, eu era estrangeiro e vocês me receberam em sua casa, eu estava sem roupa e me vestiram, eu estava doente e cuidaram de mim, eu estava na prisão e vocês foram me visitar. Garanto a vocês: todas as vezes que fizeram isso a um dos menores dos meus irmãos foi a mim que o fizeram.” (Mt 25, 35-40)

Vida eucarística é vida solidária com os pobres e necessitados. Não posso esquecer a corajosa expressão de Madre Teresa de Calcutá que nos socorre nesse instante com a autoridade do seu impressionante testemunho de dedicação aos mais abandonados da sociedade. Dizia ela, e ninguém diria melhor: “A hora santa diante da Eucaristia deve nos conduzir até a hora santa diante dos pobres. Nossa Eucaristia é incompleta se não nos levar ao serviço dos pobres por amor.”

O amor não só exige sacrifício e presença, mas exige também comunhão. Na intimidade do diálogo da Última Ceia, Jesus orou com este sentimento de comunhão com o Pai e com os seus discípulos: “Que todos sejam um (os que me pertencem e os que vão acreditar em mim). Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti… que eles estejam em nós” (Jo 17, 20-21). Todos os que se identificam com Ele passam a ter a mesma identidade entre si: são chamados de irmãos seus e o são de verdade, não pelo sangue, mas pela fé. Eucaristia é vida partilhada com os irmãos. Eis a comunhão como exigência do amor.

Resumindo: vida eucarística é amar como Jesus amou. Não é simplesmente amar na medida dos homens – o que chamamos de filantropia. É amar na medida de Deus – o que chamamos de caridade. A caridade nunca enxerga o outro na posição de inferioridade. É a capacidade de sair de si e colocar-se no lugar do outro com sentimento de compaixão, ou seja, de solidariedade com o sofrimento do outro. Caridade é ter com o outro uma relação de semelhança e reconhecer-se no lugar em que o outro se encontra. Termino com a salutar advertência do Apóstolo Paulo à comunidade de Corinto, quanto à celebração eucarística, já naquele tempo, eivada de desvios: “Todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente (ou seja, negando a prática da caridade solidária) é réu do corpo e do sangue do Senhor.” Ou seja, não é a vida que venceu a morte que estará celebrando, mas celebra a morte da vida.

Caridade solidária é o gesto de descer até o necessitado para tirá-lo da sua miséria e trazê-lo de volta à sua dignidade. A Eucaristia é o gesto da caridade solidária de Deus pela humanidade. “Eu sou o Pão da vida que desceu do céu. Quem come deste Pão vencerá a morte e terá vida para sempre.”

Por: Dom Eduardo Koaik
Bispo emérito de Piracicaba

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