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Ser Catequista: um desafio de audição

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African American father talking to sonTemos que aprender a escutar as crianças. Escutá-las não quer dizer obedecer-lhes, nem tão pouco responder afirmativamente a todos os seus desejos. Devemos aprender a escutá-las, para que elas aprendam também a escutar os adultos. Só se as escutarmos poderemos saber aquilo que se passa com elas. É completamente impossível levar a cabo uma boa pedagogia sem uma escuta adequada. Mesmo assim, é completamente inviável desenvolver uma boa pedagogia da palavra se quem se dispõe a ensinar a falar não domina a linguagem verbal. Ao falar, ensinamos a falar. Ao escutar, ensinamos a escutar.

O encontro intergeracional atinge a qualidade ótima quando as gerações se ajudam mutuamente. Os pais dizem que os filhos não os escutam; mas será que eles próprios os escutam? Só se forem escutados e se sentirem amados é que a educação planeada para eles poderá ser correta. Os adultos não terão autoridade moral para exigir-lhes que os escutem se não forem eles próprios capazes de escutar.

Escutar as crianças é um imperativo, mas também é um imperativo ensiná-las e corrigi-las sempre que necessário. Nós, adultos, só poderemos captar os seus medos, os seus complexos, as suas inseguranças e os seus receios se as escutarmos atentamente. Uma lição sem escuta prévia acabará por cair em saco roto. Um corretivo sem escuta prévia será ineficaz. A escuta não pode ser passiva, nem permanecer nesse terreno, porque a passividade conduz irremediavelmente ao caos. A escuta das crianças deve ser orientada até ao reajuste, à edificação sólida do seu espírito. Esta prática cansa; e cansa muito mais quando os erros se repetem uma e outra vez, mas só assim uma criança aprenderá a falar corretamente.

Há que escutar as crianças para saber em que universo vivem, para averiguar que instrumentos linguísticos dominam, que desejos, expectativas e pensamentos albergam; mas também para descobrir as debilidades da sua expressão.Se as escutarmos atentamente, veremos que falam outra linguagem, que comunicam de um modo diferente do dos adultos. Só se observarmos esta diferença de modos é que entenderemos as chaves do problema educativo. Encontramo-nos perante uma geração que desconhece as regras elementares da sintaxe e da gramática, que tem enormes dificuldades para expressar corretamente os seus sentimentos, as suas recordações, os seus desejos. Esta crise de linguagem representa uma crise da identidade pessoal.

Não sou partidário do culto da criança que se tem vindo a difundir pelas nossas sociedades. Acredito que é um mau modo de educar, porque a reverência para com a criança acaba por convertê-la num pequeno déspota, num ser intratável. Mas tão-pouco sinto a nostalgia daquele tipo de pedagogias da disciplina, onde a criança era essencialmente um sujeito sob suspeita, que devia limitar-se a conjugar dois verbos: calar e obedecer. Acredito que a contrariedade educa e que a difícil e desagradável tarefa de fixar limites é em última análise positiva; porque faz entender o que significa viver em sociedade e respeitar os direitos e as necessidades dos outros.

Estamos a sofrer as terríveis consequências de uma educação baseada na espontaneidade e na visão rousseauniana da criança. Estes padrões educativos levaram à crise dos sistemas de transmissão, de disciplina e de reconhecimento da autoridade. Contra essa tendência, reaparece em força o desejo de uma pedagogia disciplinadora que, caso prevaleça, representará um sério retrocesso nas práticas educativas.

É preciso escutar as crianças, porque nelas subsiste uma dose imaculada de inocência. Dizem o que pensam, expressam de forma espontânea o que têm dentro, fazem afIorar as contradições em que os adultos caem. Por vezes, são incómodas, fazem-nos corar, quebram tabus, e nós, bem lá no fundo, pensamos que seria melhor se elas se calassem. Mas, precisamente por isso, há que escutá-las: são apóstolos da inocência. Num mundo regido por pactos estratégicos e interesses explícitos e implícitos, por uma prática hegemónica da cultura da hipocrisia e da lisonja, escutar a voz de uma criança é uma lufada de ar fresco, um retorno às fontes fundamentais da nossa existência. De qualquer forma, não quero cair num discurso romântico sobre a infância. Só quem não tem crianças em casa pode fazer um discurso dessa natureza. Não sejamos unilaterais. Não sucumbamos a uma mitificação da infância. Quem se relaciona com crianças diariamente, como os professores e os pais, não é partidário dos discursos grandiloquentes sobre as virtudes da infância. Importa escutá-las por outros motivos. É certo que lhes falta experiência, conhecimentos, formação e, sobretudo, a perspetiva que só os anos podem dar. As suas formulações e as suas perguntas são com bastante frequência puras reiterações da vida adulta em formato diminuto, mas a criança transporta novidades e rompe a linha do que era previsível. A criança é inovação e, por isso, gera muitas vezes o desconcerto entre os adultos. As crianças representam simbolicamente a inocência, a transparência e a ingenuidade. Escutá-las é escutar a voz da inocência, é reencontrarmo-nos com a criança que fomos e que definitivamente já não somos. A pergunta de uma criança rompe as nossas reflexões, faz com que tomemos consciência de outro mundo, obrigando-nos a responder a perguntas impertinentes, aparentemente óbvias, que muitas vezes nos deixam emudecidos.

Em O Vestido do Imperador, o conto de Hans Christian Andersen, a criança é a única pessoa que diz a verdade. Toda a corte real nega um facto escandaloso; a saber, que o rei anda nu pelas ruas. O monarca pagou os olhos da cara por um vestido inexistente. Alguns farsantes aproveitaram-se do temor do séquito em dizer a verdade e revelar o ridículo. Nenhum dos conselheiros e dos assessores reais se atreveu a contradizer o rei e a dizer-lhe que andava nu. Apenas assentem e corroboram tudo quanto diz o monarca.

A corte não se atreve a revelar a trapaça. Todos fingem que o rei anda vestido. Vivem e alimentam-se da mentira institucionalizada. No fundo, são todos responsáveis. São parte interessada na comédia. Até que, no meio da multidão, sobressai uma criança, a única figura realmente livre. O pequeno diz a verdade. E todos ficam atónitos. Ninguém sabe como reagir. A verdade foi revelada e todo o castelo de mentiras acaba por cair.

A criança é um apóstolo da inocência e sente uma tendência espontânea para dizer o que vê, tal como vê. Esta transparência dói-nos, porque nos faz ver que o mundo que construímos poderia afinal ser outro.

 

Francesc Torralba, A arte de saber escutar, Ed. Guerra e Paz, Lisboa 2010, 121-125.

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