Beato Tito Brandsma – Sou Catequista https://soucatequista.com.br Milhares de Artigos dos mais variados temas da Igreja Católica para a sua Catequese, Cursos, Downloads e muito mais! Mon, 14 Feb 2022 10:00:36 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://soucatequista.com.br/wp-content/uploads/2024/10/cropped-ico-1-32x32.png Beato Tito Brandsma – Sou Catequista https://soucatequista.com.br 32 32 Contemplação como o elemento dinâmico que unifica a todos https://soucatequista.com.br/contemplacao-como-o-elemento-dinamico-que-unifica-a-todos/ https://soucatequista.com.br/contemplacao-como-o-elemento-dinamico-que-unifica-a-todos/#respond Mon, 14 Feb 2022 10:00:36 +0000 http://carmelitas.org.br/?p=6183 In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum” (Lc 23, 46).
Em tuas mãos, Senhor, entrego o meu espírito.

A contemplação foi o núcleo na vida de Tito Brandsma, [1] pois nela se conjugam o ser carmelita, catedrático, jornalista e mártir. Ela, a contemplação, é  o elemento dinâmico que integra todas as outras dimensões do ser-carmelita (RIVC 28). A experiência carmelita é um caminho duro e que exige muito. Observemos a própria experiência de Tito Brandsma e de outros tantos notáveis do Carmelo, como Madalena de Pazzi, Teresa de Ávila, Edith Stein […], a fidelidade deles ao Carmelo os levou a uma autêntica e mais generosa experiência da cruz.

Esse foi o caminho de Tito, mas e quanto a nós?  Ao refletirmos sobre o itinerário de vida deste carmelita temos a oportunidade de refletir sobre nossa própria caminhada verso a Jesus Cristo. Seguir o caminho do calvário que culmina em Dachau (o calvário de Tito Brandsma). Vivenciar a solidão do Gólgota, mas também a revigorante companhia de Cirineu na via dolorosa.

O mundo contemporâneo pode aprender muito com Tito. Não somente de seu itinerário pessoal de vida, mas com tudo aquilo que ele escreve sobre a mística e que é perfeitamente aplicável a nós hoje. Como as pessoas percebem/entendem Deus? Algumas pistas:

MISTICISMO, trata-se de uma particular união de Deus com o homem. Esse termo, entremeado de novos significados a partir da teologia teresiana, diz da relação humano-divina, em que, a presença de Deus onipotente se unifica ao homem que o pode perceber na sua consciência. Em outras palavras, a percepção de Deus se constitui em certa bilateralidade (two-side character), pode ser chamada de “essência divina do misticismo”. Unificação pessoal que não é completamente humana nem mesmo completamente divina. O misticismo não está em qualquer lugar (panteísmo), mas somente na maravilhosa satisfação da mente e no mais claro e evidente caminho até Deus. “That the divine is no longer hidden behind the human, but shines out”, ou seja, o que é divino não está escondido no humano, mas resplandece por através dele.  Deus adora nos surpreender!

Outro ponto de extrema relevância é a ESPIRITUALIDADE SOCIAL. Tito Brandsma, padre e jornalista, vive os problemas econômicos, políticos do pós-guerra, dentre os quais a exclusão social, a escassez de recursos e as crises e se preocupa com eles e os faz permear pela sua oração. A presença de Deus é o centro das relações sociais. Misticismo cambiante.

Não se pode esquecer também o binômio fundamental ORAÇÃO E ESTUDOS, Tito sempre se pôs a compartilhar seus conhecimentos, essa foi sua contribuição, tanto no universo eclesiástico como acadêmico.

Em Dachau, um campo de concentração próximo de Munique na Alemanha, estiveram juntos Titus Brandsma e Rafaël Tijhuis.[2] A partir do sofrimento há muita confrontação de ideias,  teorias, paradigmas […] Rafaël escrevia cartas a Deus de Dachau. Por ter boa saúde e ser jovem sofreu várias experiências médicas. Certa vez, quando questionado sobre o porquê de não querer relatar suas experiências em Dachau, ele disse: “Por que falar sobre isso? As pessoas não poderiam entender”. Porém muda de ideia e afirma: “devemos falar por aqueles que não podem mais!” Nos acercarmos de Rafaël é importante, pois através dele (que entrou e saiu de Dachau) podemos também nós entrar, vivenciar e sair. Por meios dos olhos de Frei Tijhuis podemos ver os horrores que lá aconteceram. Ele é a voz daqueles (de todos aqueles)  que não puderam sair de Dachau. Uma testemunha ocular do martírio de Tito Brandsma.

Tito não morreu por motivos políticos,  se o fosse não poderia ser considerado mártir, pois o martírio existe como tal apenas se in odium fidei. Tito Brandsma foi um mártir dos nossos dias, “de vossa terra”, nos disse PP João Paulo II em sua homilia[3] por ocasião da beatificação de Tito Brandsma se dirigindo aos peregrinos provindos da Holanda. A dimensão principal do martírio é cristológica – os mártires o são no Mártir,  Jesus Cristo. Mártir no Mártir, Testemunho no Testemunho. “Cristo caiu pele terceira vez, oh como nos escandaliza sua humanidade”. Mártir é mártir na fraqueza. Ser mártir é ser testemunho, mas testemunho de quê? Tito Brandsma foi testemunho de humanidade; Tito Brandsma foi testemunho da reconciliação (do perdão); foi testemunho da presença de Deus em sua vida. “Onde estava Deus”?[4] Deus estava ali com os sofredores. Essa é a dimensão ecumênica do martírio,  como nos recorda PP João Paulo II em sua carta Tertio Millennio  Adveniente[5], o martírio proclama o senhorio de Jesus Cristo.

Dachau é uma ferida incurável e para nós essa experiência nos pode ser uma graça de Deus. Nada pode deter o Senhor de alcançar-nos. Podemos tentar imaginar o que sentiram aqueles que lá estiveram, a enorme escuridão que por lá pairava, os horrores. Pessoas excepcionais existem, há quem consiga ter em si encarnado o dom da fortaleza, Tito Brandsma foi uma dessas pessoas, caminhou lado a lado com o mal. “Era como se o próprio diabo reinasse”, testemunha R. Tijhuis sobre o campo de concentração. Frei Tito esteve a par das mais crudelíssimas atrocidades que o mal pode fazer […] e se fez bem, se fez sinal de Deus porque o próprio Deus o acompanhava.

Por mais que leiamos livros, ouçamos relatos não podemos sequer ter a mais ínfima ideia do que representou Dachau para àqueles que ali estiveram. Os barracões ruíram, o ferro das cercas enferrujou, a vegetação encontrou espaço entre as infinitas pedras ao chão. Dachau não é um passado,  é presente. “Ele [o passado] refere-se a nós e indica-nos os caminhos que não devem ser percorridos e os que o devem ser” (PP Bento XVII).

Frei Bruno Castro Schröder, O.Carm.

 

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Notas:

[1] Anno Sjoerd Brandsma nasceu em 23 de fevereiro de 1881 no seio de uma família de agricultores na região holandesa da Frísia.

[2] Nasceu em 1913 na Holanda e em 1932 entrou para os carmelitas. De Nijmegen muda-se para Mainz, na Alemanha. Em um sábado pela manhã, antes da missa, a Gestapo (a polícia secreta da Alemanha Nazista) invadiu a sacristia e o prendeu para interrogatório e lá ficou por várias semanas. Frei Rafaël escrevia cartas para amigos contando a situação da Alemanha e por isso foi interrogado e condenado a 15 meses de cárcere, foi liberado, mas a polícia o prendeu novamente e o levou a Dachau.

[3] Cf.: https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/it/homilies/1985/documents/hf_jp-ii_hom_19851103_beato-tito-brandsma.html

[4] Cf.: http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2006/may/documents/hf_ben-xvi_spe_20060528_auschwitz-birkenau.html

[5] Cf.: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_letters/1994/documents/hf_jp-ii_apl_19941110_tertio-millennio-adveniente.html

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Milagre Reconhecido – Tito Brandsma https://soucatequista.com.br/tito-brandsma-um-homem-para-o-nosso-tempo/ https://soucatequista.com.br/tito-brandsma-um-homem-para-o-nosso-tempo/#respond Wed, 26 May 2021 17:28:18 +0000 http://carmelitas.org.br/?p=2391 Em 25 de maio de 2021, o Congresso dos Consultores Teológicos reconheceu o milagre atribuído à intercessão do Beato Tito Brandsma, O. Carm., sobre a cura cientificamente inexplicável do Pe. Michael Driscoll, O. Carm.

A resolução positiva desta segunda etapa, fundamental para a canonização, permitirá que a Causa seja submetida ao julgamento da Sessão Ordinária dos Cardeais e Bispos, membros da Congregação. Caso o resultado seja positivo, o Prefeito da Congregação submeterá as conclusões da Sessão Ordinária dos Cardeais e Bispos à aprovação do Sumo Pontífice. Por fim, o Sumo Pontífice convocará o Consistório Ordinário no qual será anunciada oficialmente a canonização do Beato.

Alegremo-nos pelos resultados obtidos até agora, mas continuemos a rezar sem cessar ao Senhor para que o processo continue com alegria e possamos chegar à canonização do Beato Tito Brandsma.

Sua vida e vocação

Tito nasceu na Holanda, no dia 23 de fevereiro de 1881. Era de família camponesa. No lar, havia seis filhos, quatro mulheres e dois homens. Todos tornaram-se religiosos, menos uma. Esta casou-se e com o marido cuidaram dos pais e do sítio.

Tito era um menino franzino, muito atencioso e perspicaz. Aos 11 anos, tomou o trem para chegar, por uma longa viagem, ao seminário franciscano. Era brilhante nos seus estudos. Chamou a atenção dos professores seu interesse em conhecer e aprofundar o sentido da vida. Um dia o reitor o chamou e lhe disse: “Sabe de uma coisa, Tito?”. “O que, senhor reitor?” – respondeu Tito. Tito recebe como resposta: “Você deve tornar-se jesuíta”.

Não é clara a razão pela qual ele finalmente não ingressou na Ordem franciscana e não se tornou jesuíta. Há várias hipóteses a respeito. Uma delas é o testemunho vocacional de Frei Casemiro, carmelita e parente dele. Esse lhe falou da beleza da vida de Nossa Senhora, a Mãe de Jesus e Mãe e Irmã dos carmelitas. No dia 17 de setembro de 1898, ingressa no Carmelo. Como frei ainda noviço, apaixonou-se pela vida de Santa Teresa de Jesus. Elaborou um belo florislégio das obras dela. É ordenado sacerdote em 17 de junho de 1905. É enviado para Roma para doutorar-se em filosofia. Ao mesmo tempo, segue um curso de sociologia. Conquista o título de doutor, mas esse título não lhe tira a humildade. Mais tarde, já professor universitário vê pela janela um pobre trabalhador empurrando com dificuldade sua carroça carregada de bananas morro acima. Tito lhe vem ao encontro, joga sua maleta de livros sobre a carroça e, juntos, empurram a carroça. Chegando em nível plano, os dois se despedem com cumprimentos fraternos, um indo para a feira e outro para dar aula de espiritualidade e mística na Universidade. Esse gesto de ajuda do Frei Tito é muitíssimo significativo porque havia entre o povo a nítida ideia que pobres e professores não se misturam.

“Entrego-me de corpo
e alma à causa de Deus”

 AÇÃO EVANGELIZADORA

De volta de Roma para a Holanda, Tito foi nomeado professor de Filosofia de alguns frades carmelitas. Seu entusiasmo de trabalhar pela evangelização do povo não lhe permitiu limitar-se aos estudos de professor. Quer fazer parte de uma Igreja em saída. Envolve-se na pastoral da juventude, criando escolas, fundando uma biblioteca pública e escrevendo artigos nos jornais da cidade. Ele não se limita apenas à pastoral da cidade, mas torna-se um pastor sem fronteiras. Funda em conjunto com outros professores a primeira Universidade Católica do seu país. Torna-se professor titular de teologia e mística da mesma Universidade. Sua maior preocupação era a imagem de Deus mais apropriada para o mundo de hoje:

“Entre as muitas interrogações que me coloco, nenhuma me ocupa tanto como o enigma do homem que, blefando do seu progresso, afasta-se de Deus. É decepcionante constatar como a profanação e a negação de Deus se alastram como doença contagiosa. Como ficou obscurecida a imagem de Deus, a ponto de não significar mais nada para muita gente! A falha é destas pessoas ou cabe a nós, de melhor formação, irradiar uma luz mais clara sobre a imagem dele, poder alimentar a esperança de uma nova imagem dele e assim pelo menos amenizar o maior de todos os problemas? Não é minha intenção fazer defesa do conceito sobre Deus que por muitos é refeitado, pois já existem apologias demais. Aliás, no decurso da história, costumamos seguir o caminho da defesa e da argumentação, enquanto que é muito mais nobre e proveitoso irradiar a verdade sobre Deus, de maneira mais positiva, na sua própria luz, a qual encanta a mente humana. Creio que a nossa missão é a de olhar ao nosso redor e rever o conceito que temos de Deus. Nele há uma riqueza tão grande e tantas facetas que devemos precaver-nos de nos apegarmos demais a representações tradicionais. Novos tempos exigem novas formulações. A imagem de Deus deve ser vivamente renovada e atualizada, indo ao encontro da cultura moderna e colocando em evidência aqueles aspectos da grandeza de nosso Deus, que mais fascinam a humanidade, hoje”, escreveu Frei Tito.

 JORNALISTA PERIGOSO

Em 1938, reuniu em 170 álbuns uma coleção de 16.000 fotos de textos de espiritualidade e mística, tiradas de mais ou menos 60 manuscritos. Esta “coleção Tito Brandsma” é guardada até hoje com muito carinho na Universidade. Como jornalista, escreveu em mais de 20 jornais, 104 artigos sobre os mesmos temas. O jornalismo, em todas as suas facetas, foi a paixão da sua vida. Ele o viu como um caminho privilegiado de levar Deus aos homens. Pôs em relevo o lado positivo e construtivo da vida. O anúncio da verdade era uma questão de justiça para ele.

Em 1935, foi nomeado pelo arcebispo diretor espiritual da união dos jornalistas católicos do seu país. Nesta função, entra cada vez mais em choque com a ideologia nazista, que tornou-se o assunto em suas aulas de 1938 a 1939. Foi profeta da liberdade de expressão. Denunciou o sistema ateu. Tinha diante de si o profeta Elias, homem de fogo com sua espada chamejante na mão, conhecido por seu lema: “Entrego-me de corpo e alma à causa de Deus”. Tito viveu esse lema, defendendo a liberdade do ensino e da imprensa. Seu carisma carmelita e sua pastoral adquiriram força na oração e na renúncia.

Também não se calou diante do nazismo, que chamava de paganismo moderno. Defendia nas suas aulas na universidade uma civilização de amor contra a ideologia do nazismo opressor. Tito tornou-se logo conhecido pela polícia nazista alemã, que elaborou de imediato um extenso relatório sobre a sua vida e atuação.

Ao aceitar, em 1942, a missão do arcebispo de Jong, convenceu os jornalistas católicos a não publicarem artigos ou propaganda nacional-socialista. Tito foi imediatamente visado pela polícia secreta. Após ser investigado em 1942, foi caracterizado por ela como “muito perigoso e cérebro de propaganda anti-nazista”. Pouco antes de ser preso no dia 19 de janeiro de 1942, compadeceu-se de um garoto que ficara órfão, procurando um casal de padrinhos para adotar o menino.

“Sofrer não faz mal, desde
que nos sintamos amados.”

 NA PRISÃO

Tito, prisioneiro, foi interrogado pelo comandante Hardegen. Ele não se deixa amedrontar pelo Movimento Nacional Socialista. O comandante lhe pergunta: “É certo que a Igreja quer sabotar as ordens das Forças de Ocupação alemãs para desta maneira pôr em perigo a paz na Holanda e impedir que o Movimento Nacional Socialista encontre acesso ao povo holandês”? Tito, com risco da própria vida, responde:

“A Igreja católica na Holanda atem-se às ordens da Forças de Ocupação, desde que estejam em consonância com o seu pensamento. Se houver razões fundamentais em contrário, a Igreja Católica recusa sua colaboração, com todas as consequências que disso possam provir. Caso aconteça esta tomada de posição e a consequência seja colocar em perigo a unidade política do país, a Igreja o lamentará profundamente, mas não se sentirá responsável por isto. O mundo de ideias nacional-socialistas é combatido por ela por razões que estão ancoradas na sua visão do mundo e na sua convicção religiosa. Do meu ponto de vista, é lamentável as Forças de Ocupação promoverem a ideologia do Movimento Nacional Socialista, pois o povo holandês e, em particular, o clero, não quer saber nada dos líderes deste Movimento. A Igreja católica vê como sua missão fortalecer as atitudes de todas as personalidades católicas, que têm função de liderança.”

Tito foi apontado oficialmente como um “homem de firmeza de caráter e perigoso para o sistema”. É preso. Durante sua permanência na prisão, entrega-se à meditação e à oração, seguindo uma disciplina conventual. Começa a escrever uma nova biografia de Teresa d´Ávila nas entrelinhas de um livro. Os guardas, de todas as maneiras o humilhavam, mas ele não perdia a paz. Impressiona os demais presos por suas palavras de esperança. Seu lema é: “Sofrer não faz mal, desde que nos sintamos amados”.

Muitos dos presos lembraram-se mais tarde da sua meditação sobre a Paixão do Senhor, na Sexta-feira Santa. Tito não pregava teoria, mas falava de coração, de sua própria experiência e fazia uma analogia entre o sofrimento de Cristo e o dele na prisão. Posteriormente, foi transportado para o campo de extermínio em Dachau. Quem fosse para lá, sabia que não haveria retorno. Suas roupas são trocadas por roupas listradas de prisioneiro. Raparam-lhe os cabelos e recebeu o número de preso – 30.492. Agora passa a ser apenas um número.

Dachau é um lugar conhecido pela violência brutal dos guardas. A partir de seu sentimento de superioridade, esses soldados alemães tinham profundo desprezo por todos os que não eram alemães. Frequentemente é punido por partilhar sua parca refeição com os outros presos, como por exemplo, entregar uma folhinha de alface a um companheiro. Os prisioneiros percebiam como Tito bebia da Fonte de água viva que é o próprio Deus. Tito suporta o sofrimento e em plena comunhão com Cristo sofredor oferece sua vida em favor de mundo mais justo e fraterno.

AMOR À EUCARISTIA

Só ao clero alemão era permitido celebrar a Eucaristia no bloco 26. Outros religiosos eram excluídos, mas, de maneira secreta, a santa comunhão chegava a eles. Certa noite o confrade de Tito, Rafael, levou a comunhão para ele. Tito a envolveu num papelzinho branco e a escondeu debaixo do cinto.

O guarda do dormitório, ao inspecionar o local, via a cama dele vazia. Foi à procura dele. Antes de chegar perto, Tito, em adoração, conseguiu guardar a hóstia no seu estojo de óculos e escondê-la sob a axila esquerda. O guarda se levantou grosseiramente contra ele insultando e espancando-o. Tito rolou pelo chão, mas conseguiu ainda arrastar o seu corpo por cima do degrau do dormitório. Frei Rafael o socorreu e o pôs sobre a cama e lhe perguntou se sentia fortes dores no que ele respondeu: “Ó irmãozinho, você não sabia quem eu carregava comigo”? Rafael caiu num profundo silêncio e, juntos, adoraram o Senhor. Rafael quis ajoelhar-se, mas Tito advertiu: “Cuidado! Eles podem nos ver rezando”.

Baixinho, professaram a sua fé na Eucaristia: “Ó Deus, Vos adoramos com fé, escondido e realmente presente sob as aparências de pão. A Vós, nosso coração todo se confia. Contemplando-Vos, tudo desfalece”. Tito deu a bênção e os dois se deitaram, sem terem sido incomodados pelos guardas.

“Quem quiser ganhar o mundo para Cristo,
deve ter a coragem de entrar em conflito
com esse mundo.”

FRATERNIDADE CARMELITA

Todos os dias os prisioneiros deviam marchar por um caminho lamacento de uma distância de três quilômetros para trabalhar com sol ou chuva numa plantação de verduras. Tito não mais aguentou. Estava totalmente esgotado e com os pés feridos pelos tamancos de madeira cobertas de couro duro. Ele foi carregado por dois carmelitas (OCD) Frei Hilário Tanuszewski e Alberto Urbanski novamente ao barracão.

PERDÃO À ENFERMEIRA

Seu estado de saúde estava piorando visivelmente. Foi colocado na enfermaria. Antes de a enfermeira lhe aplicar, obedecendo ordens, uma injeção letal, Tito lhe entregou o terço, mas ela lhe disse que não sabia rezar. Tito respondeu: “Reza pelo menos a última parte: rogai por nós, pecadores”. Ela deu risada. Mais tarde se converteu ao Cristianismo e no dia da beatificação de Tito deu o seu testemunho sobre ele.

Depois de terem sido feitas experiências médicas sobre o corpo dele, morreu no dia 26 de julho, na festa de Sant´Ana. Realizou-se o que ele afirmara em vida: “Quem quiser ganhar o mundo para Cristo, deve ter a coragem de entrar em conflito com esse mundo. É duro o conflito com o mundo: fez Cristo morrer na cruz”.

Depois seu corpo foi cremado nos fornos existentes no campo. Em sua cremação, uniu-se a milhões de outros que tiveram a mesma sorte. Seu espírito perdoou as crueldades da vingança nazista e a enfermeira. Em 1955, começou o processo de beatificação e, em 3 de novembro de 1985, foi beatificado por João Paulo II.

Nos periódicos e nas publicações internacionais, por ocasião de sua beatificação, foi ressaltado de modo particular seu trabalho de jornalista. Chamaram-no o primeiro jornalista mártir e elogiaram sua força de ânimo, seu sofrimento, o seu perdão oferecido à enfermeira assassina. Frei Kylian Healey, antigo Prior Geral dos Carmelitas, chamou Tito de um novo Elias, porque ele, totalmente penetrado do espírito do Carmelo e inteiramente consagrado a Deus, ardia de amor pelo Deus Vivo e pela humanidade. Vida transformada, vida renovada.

SANTO, MAS AINDA À ESPERA DE UMA CANONIZAÇÃO

Que Frei Tito é santo, ninguém duvida. Frei Tito foi beatificado pelo Papa João Paulo II na presença de muitos cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, em Roma. Mais que 12.800 lotaram a Basílica de São Pedro.

Para Tito poder ser canonizado, exige-se um milagre. Agora aconteceu o seguinte: um confrade nos Estados Unidos estava com câncer bem avançado. O bispo local com o povo pediram a Deus sua cura pela intercessão do Beato Tito. O frade se recuperou de sua enfermidade. O bispo montou um processo para o Vaticano reconhecer a cura como milagre. Se for reconhecido, Tito será canonizado.

Recentemente, o núncio apostólico na Holanda, Pe. Geral da Ordem do Carmo, Frei Fernando Romeral, e o ex-Padre Geral, Frei Falco Thuis, se encontraram para falar sobre o andamento do processo. Escreve Frei Falco: “A conversa com o núncio foi muito boa. Em breve, ele falará com o Papa Francisco sobre o andamento do processo de canonização. Naturalmente, devemos aguardar um pronunciamento oficial da Igreja, mas as chances são boas”.

DIVULGAÇÃO

O Papa João XXIII, certa feita, passou toda uma noite em claro, sem poder reconciliar o sono, não obstante a sua proverbial facilidade para dormir. A causa? Ele próprio a explicou na manhã seguinte: “A vida de Frei Tito Brandsma, um carmelita holandês, escrita por Fausto Vallainc, não me deixou dormir a noite inteira, visto que a sua leitura é tão emocionante que eu não pude interrompê-las; só consegui parar depois de havê-la concluído”.

Na nossa língua, existe o livro: “O caminho de Tito Brandsma no tempo de Hitler”, de 104 páginas, que pode ser adquirido com o autor deste artigo, Frei Gabriel Haamberg O. Carm. (gabrielocarm@uol.com.br)

 Diante de Jesus, na dor.

(Escrito por Frei Tito na prisão)

Ó Jesus, quando Te contemplo,
eu redescubro a sós contigo
que Te amo e que teu coração
me ama como a um dileto amigo.

Ainda que a descoberta exija
coragem, faz-me bem a dor.
por ela me assemelho a Ti,
pois é esse o caminho redentor.

Na minha dor, me rejubilo:
já não a julgo sofrimento,
mas sim predestinada escolha
unido a Ti num mesmo sentimento.

Deixa-me, pois, nessa quietude,
malgrado o frio que me alcança.
presença humana não permitas,
que a solidão já não me cansa.

Pois de mim sinto-Te tão próximo
como jamais antes senti.
Doce Jesus, fica comigo,
que tudo é bom junto de Ti.

 

Texto de:
Frei Gabriel Haamberg O. Carm

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“O espírito do Carmelo me fascinou” – Retiro espiritual dos frades estudantes em Roma https://soucatequista.com.br/o-espirito-do-carmelo-me-fascinou-retiro-espiritual-dos-frades-estudantes-em-roma/ https://soucatequista.com.br/o-espirito-do-carmelo-me-fascinou-retiro-espiritual-dos-frades-estudantes-em-roma/#respond Tue, 26 Feb 2019 12:51:11 +0000 http://carmelitas.org.br/?p=6406  

Nos dias 23 e 24 de fevereiro, o Prior Geral, Frei Fernando Millán Romeral, O.Carm., orientou o retiro espiritual dos jovens frades do “Studentato San Pier Tommaso” (Roma). O retiro aconteceu no Centro de Espiritualidade dos Carmelitas Descalços, em Monte Compatri, Região Metropolitana de Roma, e teve como tema de meditação a figura do Beato Tito Brandsma.

Os momentos de oração, silêncio e fraternidade foram iluminados por quatro reflexões onde o Padre Geral indicou aspectos do caminho espiritual do Beato Tito que servem de exemplo aos estudantes e aos que desejam viver o carisma carmelitano na concretude do dia a dia. O texto que segue apresenta de modo muito sintetizado alguns pontos das meditações:

  1. Beato Tito Brandsma, religioso carmelita

Os depoimentos do processo de beatificação do Beato Tito Brandsma revelam que sua vida pode ser lida e interpretada de diversos ângulos. Muitos são os testemunhos sobre o jornalista, o professor universitário, o pioneiro no ecumenismo, mas, existe um aspecto que perpassa todas as suas outras atividades, o ser frade, a sua Consagração na Ordem do Carmo. “O Beato Tito – disse o Padre Geral – não era um professor que celebrava Missa”. Em tudo aquilo que fez, ele deixou a marca da sua vocação carmelitana como homem de oração, de profecia e de fraternidade. Nascido na Frísia, região norte da Holanda com menos de 10% de católicos, o Beato Tito soube dirigir ao seu tempo e à sua gente um olhar contemplativo. O seu entusiasmo e alegria profunda encontraram na vida carmelita um lugar perfeito para realizar a sua vocação, o próprio Beato disse: “o espírito do Carmelo me fascinou”.

>>> Seja um carmelita

  1. Beato Tito Brandsma, homem de profundidade

Em uma era de tanta superficialidade, a vida do Beato Tito Bransdma pode ser um sinal de uma vida religiosa profunda e enraizada em terra fértil. Essas raízes, porém, não o imobilizaram e isso pode ser observado na maneira como pensou além do seu tempo, dando passos importantes de abertura e inclusão sem deixar a sua identidade. Uma serenidade teológica que é própria de quem coloca em Deus toda a confiança. Isso explica o caráter ecumênico do Beato Tito que trabalhou para que cristãos de diversas confissões se unissem diante do sofrimento e da dor principalmente no campo de concentração. Assim atesta um depoimento do processo de beatificação por um pastor protestante: “posso testemunhar que Tito Brandsma era um filho de Deus pela graça de Jesus Cristo. Espero voltar a vê-lo no céu…”.

  1. Beato Tito Brandsma e a família

Anno Sjoerd Brandsma (Tito) nasceu um uma família católica, seu pai era membro muito ativo na paróquia e muitos outros parentes foram missionários e até bispos em diversas regiões. Dos seis irmãos Brandsma, cinco se tornaram religiosos, o que o assemelha a Santa Teresa de Lisieux, recorda o Padre Geral. A vida religiosa no Carmelo reforçou ainda mais o sentido de família incentivado pelo Oikos da Regra, na instrução sobre o governo, o lugar escolhido, o cuidado com o ambiente comum e a acolhida. O Padre Geral insistiu sobre a importância da vida fraterna em nossos conventos, lugar onde podemos mostrar nossas alegrias, tristezas e medos, discernindo juntos como comunidade.

  1. Beato Tito Brandsma, homem de benção

No meio de tanto ódio e sofrimento somente uma alma totalmente entregue à graça de Deus pode emanar bênção e perdão. Foi assim com o Beato Tito no calvário vivido nos campos de concentração por onde passou. Certamente não foi um super-herói e nem viveu essa experiência de forma romantizada, mas, seus gestos de amor eram reconhecidos pelos seus companheiros de prisão. Um dos depoimentos mais importantes nesse sentido é o da enfermeira que aplicou a injeção letal que matou o nosso carmelita. “Tizia”, que preferiu manter a identidade em segredo, relatou que recebeu como presente um terço do próprio frade e que esse a olhou com compaixão.

A Providência Divina se ocupou em concluir o retiro espiritual com as palavras do próprio Jesus aos discípulos por meio do texto proposto pela liturgia da Igreja para o 7º Domingo do Tempo Comum:

“A vós que me escutais, eu digo: Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam”. (Lc 6, 27-28).

Que a vida do Beato Tito Brandsma seja para nós Carmelitas um exemplo de como podemos viver nosso carisma no mundo independente das circunstâncias.

Frei Juliano Luiz da Silva, O.Carm.

Roma, 25 de fevereiro de 2019.

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