beleza – Sou Catequista https://soucatequista.com.br Milhares de Artigos dos mais variados temas da Igreja Católica para a sua Catequese, Cursos, Downloads e muito mais! Sat, 15 Feb 2014 12:00:05 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://soucatequista.com.br/wp-content/uploads/2024/10/cropped-ico-1-32x32.png beleza – Sou Catequista https://soucatequista.com.br 32 32 A casa da beleza https://soucatequista.com.br/a-casa-da-beleza/ https://soucatequista.com.br/a-casa-da-beleza/#respond Sat, 15 Feb 2014 12:00:05 +0000 https://soucatequista.com.br/?p=38539 1. O programa iconográfico do lugar da celebração cristã

O que é o espaço sagrado?

O espaço sagrado é um receptáculo

que permite à graça se manifestar

e é a unidade representativa do espaço

que refletirá na unidade e identidade

do cristão.

 

1.1. O mapa do espaço

O programa iconográfico de uma igreja é o mapa com que o cristão faz a leitura de sua fé: o que é ser cristão, o que celebra, para que e por que esse espaço, a que o cristão é convidado a participar nesse espaço… E essa leitura é feita por meio dos materiais, das formas, dos tratos que damos ao ambiente. Esses materiais, formas e posturas são os do Espírito que aí vive, e não dos negócios humanos.

Quando se realiza uma igreja e sua ambientação, em geral o programa iconográfico é esquecido e até ignorado. Assim, muitas vezes, nossas igrejas estão mais para Babilônia do que para Jerusalém. Cada um faz do espaço/igreja mais ou menos o que quer.

O programa iconográfico existe para orientar, educar, conduzir e introduzir o fiel no mistério do Deus trino, na comunhão dos santos. Todas as paredes, pinturas, pisos, imagens, até um simples trinco e prego são, nesse espaço, a extensão do que aí se celebra e, portanto, são mistagógicos, isto é, condutores. Toda essa matéria foi dignificada pelo Espírito, que a escolheu e, assim, nos conduz ao Senhor da vida, ao Senhor da Igreja: assembleia que nesse lugar o escuta, o louva e faz o seu (dele) memorial.

O programa iconográfico é a “visualização” daquilo que se celebra; é a “visualização” do Invisível presente entre nós: “Onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou no meio deles” (Mt 18,20).

Portanto, das paredes às pinturas, das alfaias às vestes, do material do piso ao material do altar (e ambão, sédia e batistério), das imagens à nossa postura (corpo-imagem), tudo compreende o programa iconográfico. Se o que celebramos é Cristo, tudo deve revelar o Cristo em nós.

 

1.2. Como executar o programa

Bispo, padres, conselho da paróquia, assembleia e engenheiros, arquitetos, demais pessoas, enfim, todos devem ter claro por que e para que existe esse espaço-igreja, de tal maneira que uma janela, uma lâmpada, uma porta etc. devem nos conduzir ao centro e razão desse espaço: Jesus Cristo.

Em que estilo será feito o edifício?

Que piso e que orientação no piso?

Serão necessários vitrais? Como será a luz?

Serão necessárias imagens? Quais adornos?

Supérfluos ou simbólicos? Que móveis?

Corresponde tal estilo com vitrais ou com madeira?

 

Os paramentos, cheios de rendas rococós e próprios do século XVIII, casam com um edifício contemporâneo? Etc. etc. etc.

Notemos: não há um estilo formal próprio da Igreja católica. O que sempre houve foram expressões unitárias de seu tempo (veja a arte basilical, a românica, a gótica, a clássica, a barroca, os “neos”…), e isso segundo os conceitos de liturgia que foram se transformando ao longo dos séculos. Hoje é preciso perscrutar os documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II a respeito da liturgia e do ser da Igreja.

 

Antes de construir ou reformar

1º A primeira e melhor indicação será consultarmos o Missal Romano e aprendermos o que é o culto cristão, a missa ou eucaristia, com seus sacramentos conjuntos: o batismo e a confirmação.

2º Depois, devemos estudar o Ritual de Dedicação de Igreja e de Altar, rico em simbologia e fundamentos.

3º Em seguida, optativamente, ler com amor o livro do Apocalipse, que certamente nos dará luz a respeito do espaço e da celebração cristã. A missa é a atualização do Apocalipse.

 

Quando se constrói ou se reforma uma igreja, é tempo de revermos o que é ser Igreja. A igreja de pedras reflete a invisível que está em nós. O pior é quando reflete aquilo que não somos.

 

O centro / a unidade / o microcosmo

O único centro de nossa fé é Jesus Cristo.

Portanto, tudo o que se realiza no espaço celebrativo cristão é para revelar aquilo que somos e vivemos em essência: POR CRISTO, COM CRISTO e EM CRISTO.

O programa iconográfico do espaço é continuidade do memorial pascal aí celebrado. A imagem (iconografia) do espaço também é celebração.

Se tivermos consciência de que esse espaço é “o limiar da Jerusalém celeste”, então todo o lugar será harmonioso, com o mínimo de elementos para ressaltar o principal e com uma unidade de material, cor, estilo… pois se trata de um espaço do Deus uno e não um showroom, onde se tem de tudo um pouco, como num mercado. O diabo é sempre múltiplo (legião). É bom aqui lembrar que o mundo externo, lá onde vivemos, é caótico, e o espaço-igreja é a Jerusalém, o lugar da Esposa do Cristo, um espaço-unidade que nos permite reviver e renascer a cada domingo-Páscoa até a Páscoa definitiva.

 

Corpo, alma e espírito

O próprio espaço é por si educativo e orante e deve falar a todos do mistério que aí se celebra, do presidente da assembleia ao último fiel ou visitante.

Como num labirinto, o arquiteto, o artista, o engenheiro da estrutura, do som, da luz, todos devem fazer que tudo conduza a atenção para o centro da celebração cristã e nada distraia a pessoa da razão primeira do edifício.

Esse espaço é um microcosmo, um universo, e, portanto, os espaços devem ser amplos (à medida do possível), pois é a experiência de habitar nesse espaço cosmológico que nos fará antecipar “vivencialmente” as promessas evangélicas que nem sempre se realizam no dia a dia. A construção de um espaço ideal antecipa em nós a verdade que nem sempre se concretiza.

Não só a cabeça, mas o corpo, a alma e o espírito necessitam ver, tocar, sentir, experimentar a beleza evangélica. Assim, o cuidado com os materiais empregados (plástico não é pedra, a ilusão da luz não é a luz natural…) deve revelar aos nossos sentidos o frescor das promessas do Cristo. Atenção! Hoje nos inspiramos no imediato da experiência do shopping (toda a vida é shopping: luzes, falsas paredes, purpurinas, enfeites, imitações…), porém, a experiência de ser Igreja nos conduz (corpo, alma, espírito) a uma ascese, a uma limpeza, para tratarmos das coisas do Cristo, do espaço do Cristo, e assim, como batizados, podermos viver Cristo em nós = CRISTÃO.

O corpo é o lugar do Espírito, aquele que encarna o mistério em nós, e nossa postura, tom de voz, gestos e vestes serão o maior símbolo representativo do Espírito ou derrubarão por terra todo o nosso fazer missionário e nossas preocupações com construções. O pior é que, neste último caso, seremos sempre insatisfeitos, além de darmos contratestemunho. Numa celebração, o que mais fala é o corpo de quem a preside.

 

“O olho é a lâmpada do corpo” (Mt 6,22-23)

O desejo de limpar o olhar nos prevenirá de trazer a poluição externa (visual, sonora, material…) para dentro do espaço do Cristo, aquele que limpa o nosso olhar e filtra os nossos sentidos pela ação do evangelho e da eucaristia em nós. A ascese é a palavra mais adequada ao cristão. Devemos tomar cuidado com o vulgar quando pensamos que qualquer coisa pertence ao Cristo, seja do jeito que for. Essa atitude banaliza e destrói.

No cristianismo, o sentido de beleza não é necessariamente o mesmo do consenso comum (da moda, do mercado atual…).

 

O olhar forma mais que as palavras

O olhar centrado no Cristo é a razão do cristão e revela-nos a força do Novo Adão, “o mais belo dos filhos dos homens”, de modo que nos espelhemos naquilo que realmente somos: “imagem e semelhança”.

Uma pessoa, ao entrar no espaço-igreja, ou entrará no mistério e sentir-se-á amada, envolta pela oração, ou fará simples incursão, como numa sala qualquer; entrará numa mentira a mais nesta sociedade.

O espaço cristão tem a função de nos conduzir à conversão. A unidade e a harmonia do lugar refletirão em mim e indicarão a grandeza que sou como batizado, apesar dos limites humanos. O espaço deve nos mostrar que vale a pena ser cristão.

A matéria é a voz do silêncio, é a palavra contida. Se Cristo é o Deus encarnado em nós, então nossos gestos e realizações são a Palavra, o Logos, a Sabedoria que faz as coisas belas.

 

1.3. Arte sacra ou de culto e arte religiosa ou de devoção

Nem tudo o que parece é. Para trabalharmos num programa iconográfico, precisamos distinguir dois tipos de arte — arte de culto (sacra) e arte de devoção (religiosa) —, pois há dois tipos de oração: oração subjetiva e oração objetiva. Cada coisa em seu lugar.

Nem toda arte cabe num espaço celebrativo, assim como há orações diferentes.

 

Arte sacra ou de culto

Arte sacra é a arte que está a serviço da liturgia. Independe dos sentidos e sentimentos humanos. É uma arte com consciência comunitária, isto é, com o senso objetivo de ser Igreja, com o senso da objetividade de Deus: só Deus é, e o mundo é sua criatura. A arte sacra é um sentir com a Igreja. A imagem de culto vem do mistério em si, de sua transcendência, e se dirige à própria transcendência. Essa imagem não é fruto da interioridade humana e psicológica.

A arte de culto não diz “isso é o Cristo” ou “isso representa Cristo”, mas uma terceira coisa: “aqui está presente o Cristo”. Esta, sim, indica a presença do mistério entre nós, o litúrgico e o simbólico. O artista que a realiza é um homem de fé que vive dos sacramentos da Igreja e serve à ação do Espírito Santo.

A arte de culto contempla os principais mistérios de nossa fé celebrados durante o ano litúrgico. Eis alguns exemplos: Cristo Mestre (Pantocrator), o Bom Pastor, o Semeador, o Cristo Ressuscitado bíblico (por exemplo, com Madalena, à beira do lago, junto aos apóstolos). Não um Ressuscitado “voando” (isso é fruto da imaginação humana e não tem objetividade). A imagem de culto leva à adoração, ao respeito, à comoção, ao temor.

 

Arte religiosa ou de devoção

Esta vem da interioridade do indivíduo crente, da imaginação do artista ou dos costumes regionais de um povo, da piedade popular. Ela é fruto da relação entre mim e Deus, da minha intimidade (eu gosto desse ou daquele santo, essa Nossa Senhora me agrada mais etc.). Essa arte é dispensável ao ser da Igreja. Se não existir, não faz falta para a celebração dos divinos mistérios. É mais um reflexo humano de sensibilidade (me agrada) do que uma “imposição” do Alto.

Esse tipo de arte pode estar em minha casa, numa sala ou salão, mas nunca no espaço comum do ser Igreja. Infelizmente esse tipo de arte, comercialmente, se propagou mais nos últimos séculos, mas muitas vezes o devocional chega a mascarar a verdadeira religião, leva a fanatismos e até ao enfraquecimento da fé e do sentimento de ser Igreja, povo de Deus, pois nela predomina o individualismo. Exemplo: são Sebastião, são Benedito, santo Expedito, são Judas, santa Teresinha, Nossa Senhora disso ou daquilo e uma série longa de devocionismos que não são a essência de nossa fé.

Atenção! Graficamente, a arte sacra tem desenho e cores precisas, chapadas. Não é tão observado o claro-escuro, nem o desenho é muito acadêmico, e nem mesmo é respeitada a perspectiva. O ícone oriental é um exemplo.

Na arte religiosa predomina a luz e a sombra, a perspectiva, o ilusionismo, a paisagem, o drapejado das vestes e certo ar romântico na obra, que é meramente subjetiva.

 

1.4. A oração subjetiva e a oração objetiva

O cristianismo é uma religião do transcendente, do “Totalmente Outro”. Um é o Criador, e o outro a criatura. O cristão busca a sua verdadeira face naquele que o precede, o cria, o ama e vai ao seu encontro. O homem, por si mesmo, de pouco ou quase nada é capaz.

 

“É a tua face, Senhor, que eu busco” (Sl 27,8).

“Volta o teu olhar para a face do teu ungido” (Sl 83,10).

 

Duas são as formas de oração, de postura perante a divindade: a oração subjetiva e a oração objetiva. Portanto, também duas são as expressões de arte: arte de culto ou sagrada e arte de devoção ou religiosa.

 

A oração subjetiva

A oração subjetiva é individual. Procede da interioridade do crente, da relação de intimidade entre a pessoa e Deus. Essa oração é mais um reflexo humano da sensibilidade, um deixar-se conduzir pelos sentimentos, do que escuta do Alto. É o humano que fala, se coloca com suas questões, luta. Nesse caso é difícil distinguirmos entre o “eu-psicológico” e o Deus criador e redentor. Muitas vezes, ela parte de costumes regionais, da piedade popular. Por vezes, leva ao fanatismo e chega a mascarar a própria religião, enfraquecendo a fé por não se alimentar de seus próprios fundamentos.

A oração subjetiva, apesar de partir de fatos objetivos, permanece no âmbito pessoal. Exemplo: o crente tem devoção a certo santo e tudo reduz a ele. Apesar de tomá-lo como exemplo de vida e intercessor, a sua linguagem e postura não criam elos de comunhão e de linguagem universal com os demais crentes. Tal atitude é uma parte do ser Igreja, e não o corpo todo.

O crente pode interpretar a palavra divina ao seu modo, mas não chega a compreender-se no conjunto da história da salvação, na eclesialidade, no corpo místico. Fica no “eu e Deus”. A oração subjetiva pode, porém, ter como aspecto positivo a adesão pessoal, o tempo de namoro, a resposta individual ao mistério. Há um rebaixamento do humano, que se sabe criatura, e não Criador. O fiel não é o centro, mas necessita da graça, do Outro, para viver. Terá no santo alguém para se espelhar na conduta da vida e, humildemente, pede a intercessão de quem o representará perante a divindade, pois se sabe pecador e indigno.

 

A oração objetiva

A oração objetiva é impessoal e nos vem do ser do próprio mistério que nos chama à vida. Ela é comunitária e litúrgica, pois independe do fiel. Em verdade, a oração objetiva vem de longe — da história da salvação —, caminhou milênios com um povo, chegou até nós criando laços e educando. É o próprio Deus quem reza em nós, sua “imagem e semelhança”, e nos ensina a sua linguagem, a sua maneira de ser.

A oração objetiva independe dos sentimentos humanos. Deus é “aquele que é”, e o homem, sua criatura, é convidado a ser um consigo. O homem cala e escuta.

A oração objetiva nos coloca diante da presença de Deus; ela é a própria presença dele em nós e entre nós. Um e todos bebem da mesma e única fonte, respiram o mesmo sopro, aprendem e falam a mesma língua.

A oração objetiva conduz todos à adoração, ao silêncio, à escuta comum, ao respeito, à comoção, ao temor.

Exemplo: o Ofício Divino comunitário (a oração dos salmos) é o tempo em que Deus reza em nós, emite o seu Espírito e paulatinamente vai nos educando a seu modo. Essa oração é milenar e universal, faz parte do povo de Deus, independe da boa vontade do crente. Essa é a oração da Igreja rezada sete vezes ao dia. A “salmodiação”, o canto-chão nos faz respirar Deus. Assim, passamos a pensar, ver, agir, julgar e mover-nos como e em Deus.

Outra grande oração objetiva, a maior, é a eucaristia. Na eucaristia, todos na comunidade, e em todas as comunidades do mundo, escutam a mesma palavra e comungam do mesmo Corpo e Sangue.

A oração objetiva é litúrgica e indispensável, pois está centrada no único cerne da fé: Jesus Cristo. Ele é o único santo que a tudo e a todos santifica.

 

2. O programa iconográfico do edifício igreja

Em primeiro lugar, para o bom êxito desse programa, é preciso ter claro que toda ação desenvolvida nesse espaço é um mistério (sagrado) e, portanto, não se trata de um lugar simplesmente humano. E também que a razão desse edifício é a liturgia eucarística e tudo o mais que decorre dessa ação. A noção de sagrado (mistério) é fundamental, assim como a de sacrifício. Em verdade, somos convidados a participar nesse espaço do “Um Outro”. No espaço sagrado não vamos ao encontro de nós mesmos, mas de um Outro que dá sentido à minha vida, à vida comum do povo de Deus e corpo místico de Cristo.

 

 

2.1. O presbitério

Esse espaço amplo (o possível) contém apenas: ambão, altar, sédia, cruz processional e credência. Como o altar é o centro, temos de deixar livre, em torno dele, 2,50 m (o mínimo) em todas as direções. Por quê? Porque temos de pensar em várias liturgias (celebrações) ao longo do ano litúrgico, além de ordenações, casamentos, funerais… O linguajar comum chama o presbitério de altar. Atenção: presbitério é o lugar que recebe o altar, mesa da celebração.

Todas as peças mencionadas são expressões simbólicas do Cristo celebrante e, à exceção da credência e da cruz, serão todas do mesmo material e estilo, pois nos revelam uma mesma realidade. Essas peças estarão, durante o dia, desnudas, para que sobressaia o simbolismo que elas contêm.

Atenção aos degraus. O altar não estará sobre um “bolo de noiva”. Para boa visibilidade, basta amplo espaço. Dependendo do lugar, um, dois degraus ou três no máximo.

 

ALTAR

Terá dimensões sóbrias — 95 cm de altura — e poderá ser quadrado, com 1 m x 1 m ou 1,30 m x 1,30 m.

Se retangular (por maior que seja a igreja), não necessita ter mais que 1,50 m x 0,80 m ou 1,70 m x 0,80 m.

O altar poderá ser feito em pedra maciça ou em folhas de pedra, em madeira ou em combinação de pedra e madeira e/ou em ferro. Jamais de plástico, fórmica ou vidro, materiais que não revelam firmeza e estabilidade. Sobre ele teremos (após o evangelho) toalha, corporal, cálice, patena e missal, nada mais. Velas, flores, galhetas etc. estarãosempre fora. Numa celebração, segue-se a mesma regra. Junto ao altar, apenas o presidente e dois auxiliares. A ação do Cristo não será maior ou menor se houver muita gente próxima ou distante do altar.

O altar é mesa de um banquete sacrifical (pascal) e em hipótese alguma deve parecer com mesas de bufê de festas. O altar é simples ARA, extensão do mistério da cruz. Sobriedade, simplicidade e discrição darão elegância e dignidade a essa central e preciosa peça.

O altar pequeno dá-nos a noção de sacrifício, condição básica para o espírito de sagrado que parece estar desaparecendo de nossas celebrações, cada vez mais racionais e secularizadas. Pensa-se hoje só na dimensão “banquete” e esquece-se do mistério pascal.

 

TOALHA

O material em si deve ser belo (linho ou outro bom tecido), para que não necessite de rendinhas, bordados… A toalha em si já é simbólica. Pode simplesmente cair nas laterais do altar ou apenas cobrir a mesa ao alto. Muitas vezes o altar (Cristo) parece estar vestido com uma longa saia ou ser uma mesa de salão de festas. Em ambos os casos desaparece o altar, centro da celebração.

 

CRUZ

A cruz processional estará exatamente no centro, à frente do altar, ou uma cruz poderá pender sobre o altar. Será uma cruz simples, instrumento de nossa vitória, trazendo o crucificado ou não.

 

CASTIÇAIS

Dois simples castiçais estarão à direita e à esquerda do altar ou junto à cruz processional.

 

FLORES

Toda decoração é perigosa, pois o excesso pode matar o essencial. Basta um pequeno vaso aos pés da cruz processional — mesmo assim, dependendo do tempo litúrgico.

O cuidado na preparação das flores também deverá refletir o mistério que se celebra. Adornos falsos em tecido, plástico, papel etc. deverão ser evitados. Liturgia não é teatro (cenário) ou coisa que o valha.

 

VELAS

As velas refletem a luz do Cristo, sua presença misteriosa nesse lugar, e são um prolongamento do círio pascal. Portanto, devem ser discretas, se possível de cera de abelha. Nada de velas coloridas, pois o importante é a luz.

 

CÍRIO PASCAL

O círio pascal indica a presença do Ressuscitado e estará no presbitério, de preferência em frente ao ambão, durante o tempo pascal. O resto do ano permanece no batistério e poderá ser usado em grandes ocasiões, como ordenações, primeira comunhão, confirmação e até em velórios, em frente ao esquife.

O círio contém apenas os sinais como a cruz, o ano e as letras alfa e ômega, mais os cravos. Em si ele já é belo e sinal, não havendo necessidade de outros aparatos.

 

AMBÃO

O ambão segue o mesmo princípio do altar e é o lugar que precede a liturgia eucarística. Assim, é o centro (não físico) da primeira parte da liturgia. Em si, desnudo, é peça alta que anuncia e testemunha o Cristo. Não há dois ambões, pois uma só é a palavra de Deus. Não é lugar para comentários e recados, pois faz uma só peça com o altar e, portanto, é feito do mesmo material deste.

 

2.2. Imagens, pinturas, vitrais, via-sacra…

A iconografia, em si, deve formar unidade com a arquitetura. Não se pinta ou se enche de imagens esse espaço ao bel-prazer.

 

VITRAIS

Em geral, quando há pinturas de arte no espaço, não haverá vitrais figurativos, mas apenas abstratos. Os vitrais, porém, são sempre uma opção.

 

PINTURAS

A visualização total do espaço deve ser unitária. Por exemplo, no presbitério, preferencialmente, podemos ter ou uma pintura do Cristo Pantocrator, ou um motivo ligado ao Ressuscitado ou ao Bom Pastor, ou ainda o cordeiro pascal. Dessa cena central decorrerão as demais cenas (em pinturas ou imagens) do evangelho ou do Antigo Testamento, formando uma Biblia pauperum. É a palavra de Deus em forma e cores.

 

IMAGENS

No presbitério nunca se colocam imagens ou pinturas da Mãe de Deus ou de santos, exceto as já existentes em igrejas anteriores ao Concílio Vaticano II, quando a concepção do espaço era outra.

Quando a Mãe de Deus for ao trono do Cristo, então teremos uma exceção, pois o Cristo ainda permanece o centro.

É bom nunca esquecer que nossos espaços celebrativos são cristocêntricos. Somos cristãos, e não “mariãos”, menos ainda “santãos”.

Toda igreja será dedicada a Deus e, às vezes, em honra de determinado santo, por exemplo, santo Agostinho. Aí será bom salientar a centralidade de Cristo (que é aquele que a tudo santifica) para esse santo, e assim, depois, nas paredes laterais, poderemos ou não dar continuidade ao realce da vida do próprio santo. Aqui é bom lembrar e distinguir o que é arte sacra e arte religiosa. Jamais a arte de devoção estará no presbitério.

 

CRUZES DE CONSAGRAÇÃO

As cruzes de consagração, com uma pequena vela, estarão ao longo da igreja (se forem 12), do presbitério à porta de entrada. Se forem apenas quatro, estarão nos quatro ângulos da igreja. Essas cruzes, em geral pequenas (com mais ou menos 20 centímetros de altura), serão ou do mesmo material do altar, ou em ferro ou bronze, ou ainda apenas incisas no reboco da parede.

 

NAVE

Nos últimos séculos (do XVI para cá), herdamos da Reforma Protestante bancos com genuflexórios. As nossas igrejas (quase sempre basilicais: onde o Rei se apresenta — ver Apocalipse) nunca tiveram bancos ou outros assentos que não portáteis. Hoje precisamos repensar, pois jamais se senta em frente ao trono do Senhor e do Cordeiro (= o altar), segundo o livro do Apocalipse. Nossa liturgia é dinâmica: ora atentos à Palavra, ora abertos e disponíveis à eucaristia. A liturgia não pode resumir-se à racionalidade da Palavra e menos ainda a devaneios sentimentais. Ela é precisa, segundo os seus cânones.

Em geral, podemos usar boas cadeiras, dispostas em torno do presbitério. Se o espaço for longitudinal, simples bancos pequenos. Os bancos grandes criarão problemas de locomoção e transtornos na limpeza. Os bancos são pesadões, caros e atrapalham. Esses bancos ou cadeiras não precisam de genuflexórios.

 

LABIRINTO

As paredes (em formas ou cores), assim como o piso, poderão ter movimentos que guiem os fiéis à centralidade do espaço, ao coração (altar) do corpo místico, lá onde nos tornamos UM para a nossa vida e a vida do mundo. Essas mesmas formas e cores poderão ajudar a assembleia numa melhor celebração.

 

VIA SACRA

A via sacra é um ato devocional e, como o nome bem diz, é “caminho”. Assim, é melhor que esteja no jardim da igreja ou em suas paredes externas.

 

CAPELA DO SANTÍSSIMO

A capela do Santíssimo é um espaço à parte, tranquilo, acolhedor, onde se encontram tão somente o tabernáculo, genuflexórios e cadeiras. Aí nunca estará o crucificado ou qualquer outra imagem, pois a presença real é óbvia.

 

BATISTÉRIO

Igualmente, o batistério será um espaço à parte: uma bela capela ou sala junto ao ADRO, ou na entrada da nave principal. Jamais no presbitério. Por conveniências e para ter uma “plateia”, ele tem sido colocado junto ao presbitério. Assim, perde-se a grande celebração mística desse sacramento de entrada do neocatecúmeno no corpo místico. O batistério poderá ser feito de duas formas conjuntas numa só peça, permitindo aspersão ou imersão. Será uma piscina com uma fonte e um longo banco fixo nas quatro paredes, para que todos envolvam o mistério da iniciação cristã. Quando estiver na entrada da nave, permitirá que todos os fiéis se persignem ao entrar nesse espaço sagrado. À volta interna do batistério, nas paredes, no teto ou na peça em si poderá existir a catequese catecumenal (os evangelhos quaresmais e até o Antigo Testamento) em pinturas, baixos-relevos etc.

 

 

3. Conclusão: O lugar da unidade (consigo e com os demais)

O programa iconográfico do edifício-igreja cria uma universalidade (catolicidade) dentro de um microcosmo (unidade) onde todo fiel cristão, ao entrar, imediatamente identifica a sua fé e todos se reconhecem em comunhão, membros do único corpo místico. Como percebemos, esse espaço:

— é o espaço da celebração cristã/liturgia;

— é um espaço catequético/mistagógico que educa e vai conduzindo o fiel à Jerusalém celeste;

— é um espaço referencial que orienta e organiza a vida, e não a descontrola, como faz o mundo;

— é um lugar com qualidade de vida, onde tudo está bem-feito e cuidado. Luxo não é beleza;

— indica-nos a beleza e a alegria do paraíso reaberto, onde quem nos conclama tem seu modo de ser e agir e quer partilhar conosco a sua vida. Trata-se de lugar de festa,e não de bagunça;

— é da liturgia, e não local de reuniões, teatro, comícios, shows…;

— é do silêncio, a fim de escutarmos o Logos, a Palavra, a Sabedoria. Aí a palavra humana não passa de blá-blá-blá;

— é do grande encontro com Aquele que nos chama e gera novos e bons encontros;

— é, mais que os demais, o lugar da presença do Invisível, a “tenda de Deus conosco” (Ap 21,3), espaço do mistério que nos acolhe;

— é o lugar do sacrifício pascal e seu memorial;

— é da tensão e atenção (de vigilância) para com a criação e a redenção da vida;

— é o lugar do repouso, do domingo, do dia do Senhor, espaço de oração e adoração;

— é o lugar da postura: sempre se está atento e em pé em frente ao trono do Senhor e do Cordeiro. Por isso, nossa postura ao sentar, levantar e caminhar, nosso tom de voz e nossos gestos simples e solenes vão dando o referencial e diferencial cristão, de homens e mulheres que já foram salvos, alegres e felizes.

 

O edifício cristão, desde o exterior, testemunha Jesus Cristo: “as pedras gritam” (Lc 19,40). Desse modo, o edifício-igreja é um universo à parte e, desde o exterior, sua estrutura, forma e limpeza deverão testemunhar, revelar o Cristo, luz do mundo. Os campanários são faróis que nos indicam VIDA. Esse edifício deve evitar ao máximo parecer com os demais da sociedade. Não deverá parecer um cinema, um ginásio de esportes, um prédio público qualquer. Não deve inspirar-se no exterior, e sim no interior do mistério cristão.

Por que esse edifício tem suas características próprias?

Não apenas por ser diferente, mas porque a igreja visível é sinal da invisível, e imagem do cristão.

Aos poucos, esse espaço celebrativo vai se revelando como um referencial que converterá o cristão, cada um de nós, no próprio lugar da presença de Cristo no mundo. Como bem nos diz são Bernardo de Claraval: “Você mesmo é o lugar”.

Fonte: Revista Vida Pastoral

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A beleza do canto litúrgico https://soucatequista.com.br/a-beleza-do-canto-liturgico/ https://soucatequista.com.br/a-beleza-do-canto-liturgico/#respond Fri, 14 Feb 2014 19:00:52 +0000 https://soucatequista.com.br/?p=38453 1. Introdução

Ouvindo, como ouço no momento, o mundialmente famoso grupo vocal The Swingle Singers, que interpreta a música sacra, quase divina, dos nossos geniais compositores clássicos, cantando-os a oito vozes, dou-me conta, uma vez mais, de que a música é mesmo “mediadora da transcendência”, a linguagem do belo, o caminho privilegiado para chegar a Deus, Beleza infinita! Deixo-me impregnar por essa música reveladora do cantar do céu e abro o coração ao Espírito-Amor, ele que, no dizer de santo Inácio de Antioquia, é como a cítara que toca as cordas do nosso coração e nos faz vibrar em sintonia com o Divino Músico, em unidade com os irmãos. E deixo-me comover às lágrimas, como santo Agostinho, ao ouvir os cânticos da igreja de santo Ambrósio, em Milão, no início da sua conversão“não tanto pelo canto quanto pelo que vem cantado, se a execução é feita por uma bela voz e com adequada modulação”[1].

Não, a música não é só expressão dos sentimentos nem tem como finalidade apenas o prazer estético, nosso deleite humano, ao ser concebida como o conjunto de sons ordenados entre si, arte pela arte. Para nós, cristãos, ela é, sim, linguagem do sagrado, mediação para nos abrirmos ao infinitamente Outro, um meio de comunicação que favorece nosso encontro com aquele que é o Criador de toda a beleza, com o Salvador que recriou o belo, o justo e o verdadeiro com seu mistério pascal e com o Santo Espírito, sopro de vida e unidade que habita nosso interior, fazendo-nos participar da comunhão trinitária de Deus. Assim, pela música, chegamos ao coração de Deus e Deus desce a nós, uma vez que Cristo, o divino músico, expressão do canto de Deus, pela sua encarnação, nos veio trazer o canto do céu, ensinando-nos a fazer da vida e do mundo a grande sinfonia do amor sob a sua perfeita regência.

 

1.1. A beleza divina

Quando falamos da beleza de Deus, logo nos vem à mente e ao coração santo Agostinho, que assim se dirige ao Amado e Belo de sua alma, quando o descobre no processo de sua conversão:

Tarde te amei, beleza sempre antiga e sempre nova, tarde te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.[2]

 

Um caminho que parte da beleza das coisas criadas e chega à Beleza do Deus Trindade, origem e fonte de toda beleza, de todo bem! Uma vez que experimentamos Deus em sua beleza e verdade, deixando-nos tocar por seu amor, somos por Ele atraídos e seduzidos, aumentando sempre mais nossa fome e sede do Infinito. O encontro verdadeiro com o Belo vai além dos sentidos e da sensibilidade e abrange a totalidade do nosso ser, transformando nossa vida e fazendo-a também beleza e resplendor, iluminada pela Luz que vem do Alto! Quem contempla o Belo e fixa nele o olhar, deixando-se iluminar por ele, acaba se tornando belo também…

 

1.2. A beleza que salvará o mundo

À célebre e intrigante pergunta feita por Dostoievski em sua obra O idiota — “É verdade, príncipe, que um dia disseste que o mundo será salvo pela beleza?… Que beleza salvará o mundo?” —, o cardeal Carlo Maria Martini responde, escrevendo em 1999-2000, por ocasião do Grande Jubileu, importante e questionadora carta pastoral ao seu povo de Milão, chamada Qual beleza salvará o mundo? É óbvia a resposta: só quem pode nos salvar é “a beleza sempre antiga e sempre nova, a beleza de Deus; a beleza que caracteriza o belo e bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas”.[3] Falando da Trindade como modelo de relação e comunhão, Martini afirma mais ou menos o seguinte:

É na Trindade que se revela o mistério da salvação, cujo centro é a encarnação do Filho, Jesus Cristo. Deus se revela Pai, dando-nos seu Filho; o Filho, por sua vez, revela sua unidade com o Pai, abandonando-se a ele e à sua Vontade até a morte, e morte de cruz; o Espírito Santo nos é dado pelo Filho e continua sua presença no meio de nós. A partir do mistério pascal, Deus se mostra Pai, Filho e Espírito Santo.

 

Os padres gregos o dizem em outras palavras: “Do Pai, pelo Filho, no Espírito”[4].

A beleza que salvará o mundo é o Verbo encarnado, Jesus Cristo, beleza em pessoa, lugar e espaço onde a Verdade e a Beleza eternas irrompem na História, se realizam no coração da humanidade, daqueles que creem. Armando sua tenda entre nós, o Logos— Palavra eterna — traz a eternidade para o tempo, permitindo que os mortais participemos novamente da eternidade do Deus infinito e conduzindo-nos de novo à fonte da beleza. Em sua graça e beleza, o amor vem a nós e nos eleva à comunhão suprema do Deus Tri-unidade. Bruno Forte completa de forma admirável essa ideia:

A verdade não é algo que se possui, mas Alguém que nos possui. Não é então a presunção da posse de quem vê, mas a humildade da pobreza de quem escuta e, escutando, corresponde, que será a experiência da verdade que salva: a verdade não tranquiliza você, mas faz de você peregrino; não lhe dá respostas, mas acende em você as perguntas verdadeiras.[5]

 

Tanto o cardeal Martini como Bruno Forte, este citando sobretudo Evdokimov, místico da tradição cristã oriental, falam-nos da “beleza tabórica” de Cristo, que se transfigura no Tabor diante dos discípulos, revestido de glória e esplendor. Ele, a luz do primeiro dia que brilha nas trevas, revela o rosto luminoso de Deus, banhando-nos e transformando-nos também em luz. Fazer a experiência da sua presença iluminadora nos leva a exclamar: “Senhor, é bom, é belo para nós estarmos aqui!” É dessa Beleza que vem do alto que o discípulo de Jesus deve nutrir-se e sempre de novo tornar-se anunciador e testemunha. Mas a Beleza divina que salva é também a “beleza crucificada”: o “mais belo entre os filhos dos homens” (Sl 44) se fez solidário com nosso sofrimento, assumiu nossas dores, experimentando a kenosis, o esvaziamento total de si, até a morte numa cruz. Nesse sentido, a beleza é um mistério, mistério de amor e comunhão perfeita dos Três: o Amado (Filho) se abandona ao Amante (Pai), de quem procede, na unidade e na força do Amor que os une (Espírito Santo), garantindo também a nossa comunhão com o eterno Deus-Amor. Santo Tomás de Aquino, teólogo e poeta, ajuda-nos a ler e cantar a beleza desse mistério santo e pascal do Senhor nestes versos eucarísticos:

Jesus, agora oculto a meus olhos, aconteça — Te peço — o que tanto almejo: vendo-te com o rosto descoberto, eu seja feliz com a visão de tua glória![6]

 

Essa é a beleza da Santidade encarnada, oferecida por Deus para a salvação da humanidade!

 

1.3. O mistério pascal celebrado na liturgia

Na liturgia, a Igreja faz memória do mistério pascal do Senhor, celebrando e atualizando no presente a salvação trazida por Jesus Cristo, a Beleza encarnada. “Fazei isto em memória de mim!” — foi o desejo do Senhor naquela noite em que tomou o pão e o vinho nas mãos, deu graças, pronunciou a bênção e os distribuiu aos seus discípulos, antecipando sua entrega na cruz. A liturgia é o lugar privilegiado do encontro do ser humano com Deus criador e salvador, encontro que o renova interiormente pela contemplação da graça e da santidade, da glória e do esplendor do Pai no rosto de Cristo, ícone do Deus invisível, da divina beleza. Portanto, a beleza na liturgia é condição fundamental para favorecer a experiência com o mistério divino que celebramos.

Joan Maria Canals, cmf, escreveu importante artigo sobre “A beleza na liturgia”,apresentando a liturgia como “o grande tesouro sacramental da Igreja”, uma vez que chegamos ao Invisível e Transcendente por meio dos sinais litúrgicos, dos gestos e palavras, da música e do canto… Diz o autor: “A simbologia litúrgica é considerada como uma linguagem privilegiada e um meio de comunicação que favorece o encontro da criatura humana com Aquele que é a Beleza infinita. A liturgia, graças à sua riquíssima simbologia, nunca cessou de oferecer frutos de renovada beleza”[7].

Vale a pena transcrever o testemunho, citado por Cláudio Pastro, do pensador francês Paul Claudel, sobre quando se converteu ao cristianismo por força da liturgia, celebrando as vésperas na Catedral de Notre-Dame em Paris:

Foi então que se verificou o acontecimento que marcou toda a minha vida. Em um instante, o meu coração foi tocado e acreditei. Acreditei, com uma tal força de adesão, com uma tal elevação de todo o meu ser, com uma convicção tão forte, com uma certeza que não dava lugar a nenhuma espécie de dúvida, que, depois, nem os livros, nem raciocínios, nem as circunstâncias de uma vida agitada puderam abalar a minha fé, nem mesmo, para dizer a verdade, tocá-la.[8]

 

Trata-se de experiência semelhante à de santo Agostinho, já citada anteriormente, para mostrar como uma liturgia bem celebrada nos proporciona o encontro profundo com Deus na pessoa do seu Filho, Jesus, e em seu mistério pascal, de que fazemos memória na liturgia.

Uma liturgia é bela quando carrega em si harmonia e unidade, traduzidas nos gestos e nos símbolos, nas palavras e no silêncio, no canto e na música que tocam o coração. Uma liturgia é bela quando desperta em nós e nos favorece o desejo profundo do encontro com Deus na pessoa de Jesus, “o mais belo entre os filhos dos homens”. Uma liturgia é bela quando nos conduz à beleza transformadora do Senhor ressuscitado, fazendo-nos experimentar o seu inefável amor e enchendo-nos de alegria pela sua salvação. Uma liturgia é bela quando nos possibilita a experiência da fé, fazendo-nos penetrar no mistério do grande Outro, que nos supera infinitamente, sempre maior…

Adélia Prado, renomada poeta e escritora mineira, repetiu na TV Aparecida, em dezembro de 2007, por ocasião do encontro “Vozes da Igreja”, o que já dissera no Jubileu dos Artistas, em São Paulo, em 2000, sobre a importância de resgatar a beleza na liturgia por meio da linguagem poética, da dignidade dos gestos e sinais litúrgicos, da música bem elaborada e executada, do silêncio reverente diante do mistério… Em ambas as ocasiões, tive o privilégio de ouvi-la, devendo concordar com seu lamento ora sério, ora carregado de humor:

A missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum… A palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração, como a beleza da arte, é puro silêncio e pura audição… O mistério é tão indizível, a magnitude é tal, que não cabem palavras. E o que isto significa? Que existe algo inefável, que eu devo tratar com toda reverência… é a criatura diante do Criador…”

 

A esse respeito completa muito bem o autor do livro A porta da beleza: “Encontrar a Palavra é abrir-se ao Silêncio e escutá-lo no profundo; encontrar o Silêncio é acolher a Palavra e vivê-la na transparência dos gestos”[9]. Nossos grandes místicos, como são João da Cruz, compreenderam bem essa “música silenciosa” e essa “solidão sonora”, esse mistério que nos habita e não cabe em poesia ou em música…

Assim, pois, a beleza externa dos ritos — cantos, gestos, posturas, palavras e silêncios, símbolos que usamos na liturgia — deve coincidir com a beleza interna do sagrado mistério de fé que celebramos, ao mesmo tempo próximo, dentro de nós, mas sempre inacessível, fascinante, além de nós.

 

2. A beleza do canto litúrgico

A música e o canto litúrgico, como elementos integrantes da celebração, constituem, portanto, meios privilegiados de oração e participação, devendo ter um caráter sagrado, por estarem a serviço do divino mistério celebrado na liturgia. O documento conciliarSacrosanctum Concilium nos diz a esse respeito: “A tradição musical de toda a Igreja é um tesouro de inestimável valor, que se sobressai entre todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido com o texto, constitui parte necessária ou integrante da liturgia solene”[10].

Assim, o canto e a música são também fruto da beleza, porque criam um clima de festa e esplendor, solenizando e revestindo de maior beleza os atos litúrgicos; abrem caminho para Deus, como dons do seu amor e da sua graça transformadora… Por servirem à sagrada liturgia, “devem ser dignos e belos como sinais e símbolos das realidades celestes”[11]. Citando esses dois documentos, Antonio Alcalde assim resume o canto litúrgico: “Um canto será tanto mais litúrgico e evangelizador quanto mais fiel se mantiver à sua natureza, sentido e função litúrgica, na proporção em que auxiliar a viver e expressar o mistério que se celebra”[12]segundo alguns critérios: a beleza da oração, a participação da assembleia e o caráter solene da celebração. Ainda conforme o nº 112 da SC: “A música sacra será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver unida à ação litúrgica, quer como expressão mais suave da oração, quer favorecendo a unanimidade, quer, enfim, dando maior solenidade aos ritos sagrados”.

Prefere-se hoje o termo “música ritual” para exprimir a função ministerial do canto e da música como aquela que exerce humilde, mas nobre serviço à Palavra; música que está em função do mistério celebrado e da comunidade celebrante; música que nasce da Palavra e a ela serve; música que se transforma na própria ação ritual, devendo realizar em nós a comunhão e a conversão e levando-nos a fazer a experiência pascal do Ressuscitado. Por isso, o texto tem sempre a primazia, devendo a melodia realçar o sentido das palavras, de tal modo que a palavra se faça canto. Tendo como referência essencial Jesus Cristo, deve-se cuidar da dimensão poética e orante do canto. A música na liturgia não é algo secundário nem é realidade autônoma e independente, ornamento apenas, mas expressão humana do divino, verdadeiro sacramento do Cristo, sinal da beleza eterna; portanto, deve ser “dotada de santidade e beleza de formas”[13].

A música é bela quando exerce sua função ministerial, que é dar beleza à celebração, solenizar a liturgia e unir numa só voz o coração da assembleia, favorecendo sua participação. A música é bela quando, em sua dimensão mistagógica, sai de si, ultrapassa o sensível e nos transporta ao Invisível, fazendo-nos mergulhar em Jesus Cristo e no seu mistério salvador. A música é bela quando carrega qualidade poética e musical, quando bem elaborada e executada, quando à voz e aos instrumentos corresponde uma atitude interior, ajudando a oração e a contemplação. A música é bela quando “corresponde ao espírito da ação litúrgica” (SC 116), quando nos leva ao louvor e à adoração, à súplica e à ação de graças, fazendo-se voz sonora da Igreja para o seu Amado.

Carta aos Artistas, do papa João Paulo II, constitui importante referência para os cristãos quem têm vocação artística, a fim de usarem o talento dado por Deus em benefício dos irmãos e a serviço do Reino, da beleza e da dignidade na liturgia. Afirma: “Um artista sabe que deve atuar sem deixar-se dominar pela busca duma glória efêmera ou pela ânsia de uma popularidade fácil, e menos ainda pelo cálculo do possível ganho pessoal. Há, portanto, uma ‘espiritualidade’ do serviço artístico…”[14]. E, citando o poeta polaco Cyprian Norwid: “A beleza é para dar entusiasmo ao trabalho, o trabalho para ressurgir… O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração”.[15] Portanto, devemos de algum modo refletir a infinita beleza e santidade de Deus em nossa arte, orientando para ele o coração, uma vez que em Deus tudo é bom e belo, verdadeiro e santo.

Se Deus assim é, “não cabem na liturgia egoísmos, divisões, banalizações e feiuras de nossa parte”[16]. Daí a necessidade do cultivo da beleza, da formação técnico-musical, litúrgica e espiritual, do conhecimento somado à vivência da fé, à experiência de Deus no mistério de seu Cristo ressuscitado e do Espírito Santo, o “sopro inspirador” e o “misterioso artista do universo”[17]. Ele nos faz mergulhar no oceano infinito de beleza, onde só cabem o amor, a admiração e o fascínio, a adoração e a alegria sem fim… Já dizia santo Tomás de Aquino que, “onde a palavra termina, ali começa o canto, a música”. Como linguagem do inexprimível, a música traduz o sentimento, a vivência, as coisas do coração e do espírito, envolvendo o ser inteiro; por isso é a mais completa, profunda e espiritual de todas as artes. À sagrada liturgia convém uma música santa e bela, digna e plena do “Belíssimo de maior beleza que todos os mortais”[18]. É para Cristo que devemos olhar. É a ele que devemos dirigir nosso canto! É com ele que cantamos ao Pai! Somente nos deixando banhar interiormente por seu brilho e beleza, iluminar-nos-emos e refletiremos sua “luz admirável” com nosso canto e nossa voz, a mente, o coração e a vida, como nos adverte santo Agostinho.

 

3. Algumas reflexões e questionamentos

Precisamos, sim, concordando com Adélia Prado, resgatar a beleza como “necessidade vital” nas nossas celebrações litúrgicas, pois a liturgia já é, por si só, uma “obra de arte”, um poema completo, e não admite enfeites, ornamentos ou “purpurinas”, verniz de falsa beleza, no dizer de Cláudio Pastro. Segundo ele, o maior desafio para a Igreja hoje é a falta da beleza autêntica e verdadeira que nasce do mistério. A música deve ser aquela que brota da oração, da experiência de Deus, e não a encomendada, feita, barulhenta,show onde o centro é o músico, o intérprete, e não a Divina Beleza, o mistério da fé e da vida celebrado. Foi em dezembro de 2007 que, embevecidos, ouvimos Pastro no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, quando lançou o livro Via Pulchritudinis — O caminho da beleza, por ele traduzido. Na ocasião, reforçou: “A liturgia só é bela e, portanto, verdadeira quando despojada de qualquer outro motivo que não seja a celebração de Deus, para ele, por meio dele, com ele e nele”[19].

O papa Bento XVI, de profundo conhecimento litúrgico e sensibilidade musical, escreveu, quando ainda cardeal Ratzinger, importante livro chamado O espírito da liturgia. No capítulo referente à música litúrgica, comparando a música para o culto com a música pop, assim se expressa:

A música pop, que certamente não tem nada a ver com “povo” (…) é um culto do banal (…); oposto ao culto cristão, ele liberta o homem dele próprio, devido à vivência da multidão e a vibrações de ritmo, barulho e efeitos de luzes, deixando-o no êxtase de rompimento dos seus limites, submergindo-o quase nas forças primitivas do universo. A música do “embevecimento sóbrio” do Espírito Santo, que experimentamos na liturgia, se opõe ao irracional e ao excesso, atraindo os sentidos à razão.[20]

 

Diante do “desaparecimento da beleza, decoro e elegância estética no culto cristão, diante da perda da sensibilidade do sagrado e da ausência do espírito de adoração e respeito”[21], ficam então algumas ponderações:

1) O canto deve ser ungido e orante e buscar nas fontes bíblicas e litúrgicas sua inspiração. Quantos cantos simplesmente fabricados, sem beleza nem poesia, dissociados da ação litúrgica, da Palavra, do tempo litúrgico, além de conter graves erros gramaticais e até teológicos, ouvimos por aí!… Falta muita qualidade musical e poética aos nossos cantos. Como comunidades de fé e não simplesmente grupos humanos e sociais, não celebramos uma festa qualquer, mas o mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, verdadeira fonte e centro da festa cristã e litúrgica. Nossos cantos devem expressar esse mistério divino e ser entoados como um ato de louvor e adoração!

2) Ao longo da História, sempre se preferiu ao instrumento o uso da voz, que remete ao sopro do Espírito e à Palavra — Cristo, o Logos do Pai. O que dizer do barulho estonteante, dos instrumentos ruidosos, usados de forma inadequada, dos microfones com volumes altíssimos na voz dos cantores, abafando a voz da assembleia, que deve ter a primazia?… Certamente não ajudam a rezar, mas dispersam, excitam e distraem…

3) Têm razão os que apontam a diminuição do sentido do sagrado, do respeito e veneração pela casa de Deus, casa de oração. Um elemento essencial é o chamado “silêncio sagrado”, parte integrante da celebração (SC 30) e rito simbólico que favorece a oração e a meditação, sendo também uma forma de participação. Não se trata de um silêncio vazio, mas fecundo, que abre espaço no coração para acolher o “Grande Outro”, mergulhando-nos no mistério salvador de Deus em Jesus! Já não encontramos nas nossas igrejas o espaço do silêncio, da audição do mistério, do vazio pleno.

4) Não bastam o louvor externo e formal, a observância de meras rubricas, os gestos e ritos bem executados e até bonitos, porém mecânicos, a celebração apenas conforme às normas litúrgicas: se falta espiritualidade, se não lhes correspondem a atitude interior, a unção e o calor do Espírito que dá vida. O importante é que ao culto corresponda a liturgia da vida, conformando-se com Cristo, pelo Espírito, para a glória do Pai. “Escuta da Palavra e fidelidade à aliança com todo o coração e com toda a alma”, segundo nos diz o Deuteronômio 10,12-13.

5) A sensibilidade para o canto gregoriano é um sinal de redescoberta e revalorização do sagrado e do divino, ajudando a oração e a contemplação. Em meio à música estridente e ruidosa, o gregoriano nos traz uma melodia suave, tranquilizadora, que eleva a alma e suscita o desejo pela beleza, pois, no dizer de alguém, os seres humanos têm direito à beleza e necessitam dela como do ar que respiram. Bento XVI, na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, faz-se voz não só dos padres sinodais, mas da Igreja ao longo dos séculos, pedindo “que se valorize adequadamente o canto gregoriano, como canto próprio da liturgia romana”[22]. Recentemente foi lançado o CDChant — music for paradise pelos monges cistercienses do Mosteiro de Heiligenkreuz, nos arredores de Viena. A obra alcançou sucesso mundial com o mais puro canto gregoriano, revelando que “as pessoas sentem a necessidade de ouvir músicas tranquilas”, como observou um dos monges. E é de Bento XVI o comentário na contracapa: “Onde quer que nos juntemos para cantar, louvar, exaltar e adorar a Deus, um pouco do céu se torna presente na terra”.

6) A liturgia nos precede e nos ultrapassa, é maior do que nós e, portanto, mais obra de Deus do que nossa. O Cristo ressuscitado é o único e sumo sacerdote capaz de oferecer o culto a Deus e santificar a assembleia. Quanto a nós, não somos criadores nem donos da liturgia, mas apenas humildes servos e “guardas do mistério”, conforme diz frei Alberto Beckäuser em seu artigo sobre o silêncio, na revista Grande Sinal.[23] A liturgia é de Jesus Cristo e da Igreja e por isso devemos nos submeter às suas normas, o que não nos escraviza, mas nos torna mais livres e criativos, na alegria da presença e da experiência de Deus. Como João Batista, somos “lâmpadas” que refletem e anunciam a LUZ, Jesus Cristo, o belo e bom Pastor que se faz Cordeiro para dar a vida por nós.

 

4. Conclusão

Sustentai com arte a louvação!”, pede-nos o Salmo 32. Santo Agostinho, comentando-o sabiamente, assim se expressa:

Cantai-lhe, mas bem. Canta bem, irmão! Canta “com júbilo”, sem explicar com palavras o que se canta no coração… Tal júbilo só convém ao Deus inefável. Inefável é aquilo de que é impossível falar. E se não podes falar e não deves calar, o que resta senão jubilar? O coração rejubila sem palavras e a imensidão do gáudio não se limita a sílabas. Cantai-lhe bem com júbilo![24]

 

Eis o que se espera dos ministros da música litúrgica: sustentar com arte a louvação do povo, sem deixar que a liturgia se banalize, mas frutifique em beleza e santidade.

É importante perceber que a Igreja, como mãe e mestra, mas também como discípula de Jesus, continua aprofundando os mistérios da nossa fé, procurando compreendê-los, transmiti-los e vivê-los à luz da fé, pois, como Cristo, ela vai crescendo “em idade, graça e sabedoria”, na comparação feliz de alguém. Assim também, na liturgia, vamos formando nosso coração segundo o coração de Deus, mergulhando sempre mais na beleza da Trindade, sem a qual não podemos viver.

“Beleza”, do sânscrito, significa “a casa onde Deus brilha”. Deixemos então que, na divina liturgia, o céu se una à terra e nos abra a “porta da beleza”. Banhemo-nos no brilho e na luz de Deus, por entre as sombras do passageiro, até ultrapassar o limiar da casa terrestre e alcançar a plena luz da eterna Beleza!

Fonte: revista vida Pastoral

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