Católico – Sou Catequista https://soucatequista.com.br Milhares de Artigos dos mais variados temas da Igreja Católica para a sua Catequese, Cursos, Downloads e muito mais! Mon, 13 Jan 2020 11:46:06 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://soucatequista.com.br/wp-content/uploads/2024/10/cropped-ico-1-32x32.png Católico – Sou Catequista https://soucatequista.com.br 32 32 As vantagens de ser católico https://soucatequista.com.br/as-vantagens-de-ser-catolico/ https://soucatequista.com.br/as-vantagens-de-ser-catolico/#respond Mon, 13 Jan 2020 11:46:06 +0000 https://soucatequista.com.br/?p=94199 Hoje está na moda falar de empatia. Num mundo tão tecnicista e cheio de distrações, as pessoas têm sentido falta de relações humanas verdadeiras, de olho no olho, de aperto de mãos, abraços, enfim, coisas que só um ser humano concreto pode oferecer. Chegamos a um ponto que não dá mais para esconder o profundo vazio e distanciamento que nossa sociedade está vivendo. Nas ruas, encontramos moças e rapazes oferecendo “abraços grátis”. Ora, empatia tem a ver com essa necessidade de conexão, com a atitude profundamente humana de colocar-se no lugar do outro e compartilhar dos mesmos sentimentos.

O ser humano não foi feito para ficar só. Está na sua natureza pessoal a busca por relações, nas quais ele possa reconhecer-se numa família; a descoberta do outro é, como salientava Gustavo Corção, uma das coisas mais fascinantes e admiráveis da existência, porque, estando “face a face com o outro, o homem está como diante de um espelho: inebriado, fascinado, enamorado numa espécie de narcisismo positivo que se abre para o louvor” [1]. O outro nos interroga e, ao mesmo tempo, nos consola, nos revela a nossa própria identidade pelo simples fato de nos estender a mão e, com isso, mostrar que somos feitos do mesmo barro.

Porém, quando essas relações não acontecem, o homem adoece e perde o elã da vida. Se falta empatia — ou seja, se falta amizade, compaixão, amor, companheirismo etc. —, nossas histórias acabam perdidas como cartas no baú, porque não temos com quem compartilhá-las; não há quem as escute, mesmo que seja para rir de nossas estrepolias. Tornamo-nos, de fato, uma mônada, uma bolha fechada em nossas próprias depressões. E aí surgem as máscaras de relações artificiais, de busca de alguma coisa que possa substituir os relacionamentos ausentes; as pessoas vão atrás de morfina para amenizarem a dor do tumor que lhes corrói a alma, submetendo-se a qualquer tipo de coisa para deixarem de ser invisíveis.
É isso o que notamos no romance As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky, por exemplo. A história gira em torno do adolescente Charlie, um jovem bastante tímido, que, após algumas experiências traumáticas na infância, acaba bastante debilitado emocionalmente, sofrendo de fortes alucinações. Para aliviar seus sentimentos, ele escreve cartas em uma espécie de diário, no qual despeja todos os seus pensamentos sem qualquer medo de censura ou depreciação. Mas tudo começa a mudar na vida dele, quando Charlie ingressa no ensino médio e passa a ser “percebido” pela turma de “descolados” do colégio.

Nesse novo ambiente, Charlie tem a oportunidade de mostrar como ele se sente, porque encontra um ambiente de cumplicidade. Assim como ele, os seus amigos têm sede de viver algo em profundidade, não temendo os riscos do que suas atitudes podem acarretar. É emblemática a cena em que a jovem Sam, paixão secreta de Charlie, sobe na carroceria do carro de seu irmão, e abre os braços para experimentar o vento correndo sobre seu corpo e, desse modo, “sentir-se como o infinito”. De fato, eles têm desejo de um amor para além deste mundo, que os faça sair da bolha na qual estiveram aprisionados por tanto tempo

Aos poucos, porém, Charlie vai descobrindo as feridas e os segredos de cada um de seus amigos, e como ainda estão vazios, mesmo com todas as suas festas, transgressões e rebeldias. Ele mesmo tem um encontro com suas “chagas” depois de ser privado da presença de seus companheiros, que o distraíam da sua interioridade bagunçada. Certo dia, vendo sua irmã ser agredida pelo próprio namorado, ele se intriga com aquilo e pergunta ao seu professor de inglês, com quem mantinha certa confiança: “Por que pessoas legais escolhem pessoas erradas para namorar?” E o seu professor responde: “Aceitamos o amor que imaginamos merecer”.

Na mosca. A maior parte dos personagens de As vantagens de ser invisível vive esse terrível drama de contentar-se com qualquer aparência de amor que sirva para retirá-los da fossa, por assim dizer. Eles sentem, sim, desejo do amor infinito (desiderium naturale videndi Deum, diriam os escolásticos), mas, por se julgarem tão antiquados e fora dos padrões, vão se entregando às aventuras da vida, porque, no fim das contas, acreditam ser a única coisa que lhes resta. E é assim que Charlie aparece, uma hora, na fila da Comunhão, junto com seus pais, para receber a Santíssima Eucaristia e, depois, na casa de seus amigos, para consumir drogas. Ele também aceita o amor que julga merecer.

Na realidade, nós todos experimentamos essa sensação terrível de querer algo infinitamente superior às nossas próprias forças e capacidades, e, ao mesmo tempo, julgarmo-nos dignos apenas das mixarias que a história nos oferece, porque não encontramos quem possa se conectar a nós mesmos, de maneira tão profunda como gostaríamos. Temos sede de absoluta empatia, mas nós não nos amamos o suficiente para renunciar àquilo que nos destrói a alma. Esse é um daqueles muitos paradoxos da humanidade, sobre os quais tanto escrevia G. K. Chesterton.

Chesterton também precisou passar pelo fio da navalha, até finalmente encontrar-se com a resposta que tanto procurava para seus dilemas. No seu livro Ortodoxia, ele afirma que sua vida pode ser definida como a viagem de um homem que sai à procura do infinito, da verdade mais profunda de seu ser, e a acaba encontrando no lugar mais improvável: a sua própria casa, de onde saíra.

Durante toda a sua juventude, ele viveu tormentos profundos e grandes dúvidas espirituais, que o fizeram passar do ateísmo ao agnosticismo, de modo que ele chegou a pensar no suicídio. Mas ao abrir-se ao mistério do cristianismo, que ele havia ignorado por tanto tempo, Chesterton descobriu novamente a alegria da religião verdadeira, que nos conecta com o amor infinito que tanto procuramos. E as coisas que estavam invisíveis ao seus olhos tornaram-se claras, sobretudo o Homem Deus que veio se colocar no lugar da humanidade, num admirável intercâmbio.

Em sua obra mais vigorosa, O Homem Eterno, Chesterton observa como Jesus realiza, com sua misteriosa Encarnação, o mais perfeito gesto de empatia que homem algum jamais imaginou. Esse gesto, diz Chesterton, começa justamente onde tudo começou para o ser humano: na caverna. Ele escreve assim:

A segunda metade da história humana, que foi como uma nova criação do mundo, também começa numa caverna. Até se constata um detalhe dessa fantasia no fato de animais estarem mais uma vez presentes pois se deu numa caverna usada pelos montanheses das regiões altas de Belém, que ainda hoje conduzem seu gado para essas grutas e cavernas para o pernoite. Foi num lugar assim que um casal sem teto se refugiou junto com o gado quando as portas da apinhada estalagem haviam sido fechadas na cara deles; e foi num lugar assim, exatamente debaixo dos pés dos passantes, num subterrâneo sobre o próprio chão do mundo, que Jesus Cristo nasceu. Mas nessa segunda criação houve algo realmente simbólico nas raízes da rocha primeva ou nos chifres da pré-histórica manada. Deus era também um homem das cavernas e também havia desenhado estranhas formas de criaturas, curiosamente coloridas, sobre a parede do mundo; mas as pinturas do mundo feitas por ele ganharam vida [2].

No mais humilde dos berços, e na mais discreta de todas as maternidades, repousava o menino Jesus, em quem Chesterton descobriu não apenas outra pessoa, mas o Totalmente Outro que não se contentou em ser consubstancial ao Pai, e quis também ser consubstancial ao homem, para dar-lhe uma nova filiação. E, assim, Chesterton pôde experimentar a mesma alegria dos pastores de Belém, porque também lhe nascera na Cidade de Davi um Salvador. E ele poderia encontrar esse menino sempre que quisesse, poderia debruçar-se sobre o seu peito e confessar-lhe todos os tormentos, poderia comungar na sua mesma mesa eucarística, poderia alegrar-se com suas parábolas e também chorar suas feridas; poderia, afinal, ser um e todos ao mesmo tempo, numa autêntica família, porque, de fato, a Igreja, Corpo Místico do menino Deus, “não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo”.

Com o mistério do Natal, Jesus veio merecer para todos os homens o amor que tanto desejamos, mas que, por nossos próprios méritos, não somos dignos de receber. Em suas andanças e pregações, Ele olhou nos olhos de muitos, deu abraços, chorou e compadeceu-se, acolheu doentes, ladrões e prostitutas, e todos paravam para ouvir as suas Palavras de Vida Eterna, “porque o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10). Mais ainda: Cristo não só se recusou a condenar a adúltera, que aceitava qualquer amor por imaginar-se indigna de coisa melhor; Ele a fez enxergar um horizonte maior, para além da vida medíocre que ela levava. Jesus a redimiu e ajudou a buscar um novo sentido para sua existência.

Todos nós, seja Charlie, seja Chesterton, temos dentro de nossas almas uma mulher adúltera, que precisa ser urgentemente redimida. Por medo, podemos nos esconder do apedrejamento do mundo, buscando uma vida invisível, escondida na escuridão, onde talvez nos sintamos aparentemente mais seguros. Mas os fantasmas permanecem lá, no mesmo lugar, apenas esperando a oportunidade para nos atormentarem outra vez. E é então que deve nascer o Menino Deus, para nos trazer alegria e exorcizar de nossos corpos todos os falsos ídolos e reis, todo e qualquer fantasma de uma existência sombria e amarga. Porque Ele, diz o salmista, “não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos castiga em proporção de nossas faltas”; “porque tanto os céus distam da terra quanto sua misericórdia é grande para os que o temem” (Sl 102, 10-11).

Que belo é esse amor, que belo é esse Deus que vem ao nosso encontro, e coloca-se no nosso lugar, como dizia São Gregório Nazianzeno, aceitando a pobreza de nossa condição humana para que nós recebamos os tesouros de sua divindade. No desfecho do diálogo de Charlie com seu professor, o jovem pergunta-lhe se é possível mostrar às pessoas que elas merecem um amor maior. “Nós podemos tentar”, responde-lhe o mestre. Mas Jesus não só tentou; ao contrário, aquele que possuía tudo em plenitude, aniquilou-se a si mesmo, despojou-se de sua glória por algum tempo, para que nós participássemos de sua plenitude.

Para recebermos esses dons, basta que façamos como Chesterton e abramos os nossos olhos ao pequenino na manjedoura, que está ali quase invisível, enquanto nos distraímos com o mundo… Assim descobriremos as vantagens de ser católico.

Referências
* Gustavo Corção. Dois amores, duas cidades. Rio de Janeiro: Agir, 1967, v. 1, p. 33.
* G. K. Chesterton. O homem eterno. Cajamar: Mundo Cristão, 2010, p. 220.

Via Aleteia

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Presente e futuro do Sacerdócio na Igreja Católica https://soucatequista.com.br/presente-e-futuro-do-sacerdocio-na-igreja-catolica/ https://soucatequista.com.br/presente-e-futuro-do-sacerdocio-na-igreja-catolica/#respond Tue, 11 Feb 2014 12:00:30 +0000 https://soucatequista.com.br/?p=38430 INTRODUÇÃO

Bento XVI anunciou um ano sacerdotal. Essa iniciativa visa contribuir para que o conjunto da Igreja volte o olhar para tal ministério eclesial. Motiva-a a celebração do 150º aniversário do dies natalis de S. João Maria Vianney, patrono dos sacerdotes diocesanos. A intenção profunda mira a renovação interior dos sacerdotes a fim de serem testemunhas vivas do evangelho no mundo atual. Assim se responde positivamente à dolorosa conjuntura causada pelos numerosos escândalos de padres.

 

1. Diferentes linguagens sobre o sacerdote

As linguagens variam conforme o sujeito que as constrói no horizonte de seus interesses. A instituição eclesiástica tece linguajar próprio sobre o sacerdócio. Tal linguajar aparece nos documentos e discursos do magistério, em comemorações e solenidades encomiásticas.

Trata-se de leitura idealizada do sacerdote a exaltar-lhe a dignidade. Centra-se na relação entre ele e o mundo sagrado que administra. Faz fluir para a pessoa do padre a grandeza dos sacramentos. A proximidade com o universo divino dá-lhe poder e relevância espiritual. Mesmo quando essa leitura lhe reconhece as deficiências e problemas, vê-o em pedestal sagrado. Repetem-se frases de santos que viveram a experiência da sublimidade do ministério. Bento XVI cita o próprio Cura d’Ars. Para ele, o sacerdote “é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina”. Em outro momento, o santo exclama: “Oh, como é grande o padre! (…) Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria. (…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia”.

Em contraste com esse discurso, a imprensa ensombreceu-lhe a imagem, ao divulgar os escândalos de pedofilia. Apraz-lhe o discurso chocante e sensacionalista dos contrastes. E quanto mais a Igreja oficial insiste no celibato e na tônica moral, tanto mais o noticiário se interessa pelos desvios morais de homens de Igreja. De tempos em tempos, noticiam-se alguns atos heroicos de eclesiásticos. Mas o conjunto pende para o lado obscuro da vida sacerdotal.

Afastando-se de ambas as linguagens, corre a vida comum e rotineira do sacerdote na real ambivalência da existência humana. Nem heroísmos raros nem vida semeada de aventuras chocantes. Na normalidade, vivem-se os desgastes do cotidiano, feito de pequenos sinais de fidelidade e de mediocridades escondidas. Em toda vocação e profissão, existem pessoas humanas ambiciosas, carreiristas, invejosas, que envenenam o ambiente. Deitam-se num conformismo consigo e com o trabalho sem garra, sem coragem criativa. Há também as que trabalham a si mesmas em processo contínuo de crescimento. A classe sacerdotal não se isenta dessa condição humana, nem sempre na mesma proporção que outras profissões ou vocações.

 

2. Profissão e vocação

Atravessa o ministério presbiteral tensão inevitável. Tem duas faces: vocacional e profissional. Profissão e vocação ressoam diferentemente, embora se entrecruzem. A vocação se põe antes do lado do carisma, da inspiração, enquanto a profissão cultiva o ofício, o encargo.

 

2.1. Conceituação de profissão

A etimologia já nos oferece primeira abordagem. Na origem da palavra estão dois étimos: pro + fateorFateor significa declarar, confessar. Pro denota fazê-lo diante de alguém, pessoa ou instituição. Ao exercer uma profissão, declaramos diante da sociedade nossa habilidade para determinado exercício. A profissão busca principalmente reconhecimento social. E o grau de importância que se lhe atribui oscila segundo a maior ou menor legitimação social. Um conjunto de fatores culturais torna uma profissão mais valorizada em determinada sociedade e momento histórico. A modernidade estabeleceu vários critérios para avaliar uma profissão: competência, produtividade, eficiência, resultados visíveis, sucesso, especializações, desempenho excelente. E, para chegar lá, exigem-se preparação, estudos concluídos com títulos, habilidades, conhecimentos técnicos. A profissão dá status social segundo o imaginário da sociedade. Ele influencia tanto a escolha profissional como o seu desempenho.

A vida profissional tende a exigir cada vez mais das pessoas. Para muitos, ocupa-lhes o centro da existência, ao relegar para segundo plano família, relações afetivas, atividades estritamente gratuitas. Esses tornam-se incapazes de suportar o fracasso e qualquer frustração — haja vista a depressão de tantos que se incapacitaram para trabalhar por causa de doença, aposentadoria, desemprego. Sentir-se inútil no mundo profissional pesa sofridamente. Com a crescente concorrência e transformação rápida da sociedade, as profissões, antigamente permanentes, caducam com facilidade se não se fazem contínuos cursos de atualização e especialização.

Na sociedade capitalista, a profissão se mede pelo critério maior da remuneração econômica. Esta garante a segurança do futuro, ao amealhar recursos para o tempo de aposentadoria. Junto com os altos salários vêm a glória, o poder, o sucesso, a aparência, o prestígio. O nome da instituição tem papel importante. Os funcionários participam de sua fama. Ela lhes rende dividendos em todos os níveis.[1]

Salta aos olhos que, se o ministério sacerdotal se orienta para a linha profissional, participa da enorme ambiguidade da concepção profissional da sociedade capitalista. Então só uma compreensão do sacerdócio como real vocação evita considerá-lo como mera profissão regida pelos valores do sistema.[2]

 

2.2. Vocação

De novo, a etimologia vem-nos em auxílio. No coração da palavra vocação se esconde o étimo voc, de vox — vocis do latim. Em português, significa voz. Que voz está na origem da vocação?

A psicologia a ouve como realização pessoal. Movem-nos o gosto, o prazer, a felicidade que a vocação promete até a paixão. Seguem-se atitudes de entrega, dedicação, empenho, à custa mesmo de sacrifícios.

Ela se nutre de gratuidade, de motivação interior, da busca de algo mais dentro de nós. Realiza-se em situações difíceis, lá onde a profissão esgotou as possibilidades. Tem certo caráter de perenidade.

Entretanto, a pós-modernidade está a mudar a compreensão de vocação. O jovem moderno encarava-a sob o signo do dever, do compromisso. Pesava-lhe a relevância social. Ele percebia-se como agente transformador da realidade. Alimentava-se de utopias. O futuro dava-lhe coragem para suportar as agruras do presente.

O jovem pós-moderno, porém, pensa-a sob o aspecto do prazer, do interesse individual sem alcance social. Despe-se da agressividade diante do real. Acomoda-se a ele sem gasto de energia. Não acredita poder modificá-lo. Busca antes usufruir o presente sem lançar mirada ao futuro. “As flores não as queremos para o funeral, mas agora”, assim diziam jovens espanhóis. O futuro fala de funeral. E o presente oferece a fruição. A vocação se motiva pelo gozo que ela suga do momento.

A leitura teológica critica esse viés pós-moderno. Oferece outra perspectiva de vocação. A voz interior, em última análise, vem de Deus. Tudo o que se refere a Deus, e enquanto se refere a ele, goza de dimensão definitiva. Daí a gravidade e o peso da vocação. São Paulo admoesta-nos: “De fato, vós não recebestes espírito de escravos, para recairdes no medo, mas recebestes o Espírito que, por adoção, vos torna filhos, e no qual clamamos: ‘Abbá, Pai!’” (Rm 8,15). Esse Espírito faz ouvir sua voz. Dele vem a vocação. E a do ministério sacerdotal mantém referência fundamental à práxis de Jesus, que nos alerta: “Sabeis que os que são considerados chefes das nações as dominam, e os seus grandes fazem sentir seu poder. Entre vós não deve ser assim. Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós seja o escravo de todos. Pois o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10,42-45).

A vocação, na perspectiva cristã, significa chamado ao serviço a Deus na pessoa do irmão, numa unidade radical de amor, de tal modo que se reconhece naquele que serve, mesmo que não conheça a fé cristã, “um cristão anônimo”[3]. As vocações éticas se identificam, na prática, com a cristã.

O termo carisma serve também para traduzir essa dimensão teologal de vocação. Significa um dom, habilidade, qualidade do Espírito para o serviço da comunidade. Visa à sua construção. Implica, portanto, o dom da graça que se recebe de Deus.

 

2.3. Relação entre profissão e vocação

A vocação não se opõe à profissão, mas dá-lhe uma dimensão que esta não tem de si. Insere-a no nível de resposta ao chamado de Deus. Vale dessa relação a clássica afirmação de santo Tomás: a graça não substitui a natureza, mas a aperfeiçoa e lhe supre defeitos.[4] A vocação, como obra da graça do Espírito Santo, pede o cultivo de qualidades humanas, de competência profissional, de formação séria, de empenho. Entretanto, corrige-lhe o acento funcionalista, “eficientista”, instrumental, ao recordar a dimensão de graça, de gratuidade, de dom. Vem a propósito dessa relação o adágio inaciano: “Deposita tua confiança em Deus, como se todo o êxito do trabalho não dependesse de ti, mas apenas de Deus; aplica-te todo inteiro à tua obra, como se Deus não devesse fazer coisa alguma, mas tu devesses tudo fazer sozinho”. A vocação situa-se na linha da confiança, e a profissão na do empenho.

 

2.4. Problema da escolha vocacional

No que se refere às profissões, a sociedade impõe regras. Algumas severas. Controla-se seu exercício, exigindo cursos, diplomas, inscrições em órgãos do Estado.

A vocação, como tal, escapa de tais injunções. Ela brota do coração. Mas, no momento em que assume aspectos profissionais, cai sob as mesmas obrigações.

No caso da vocação sacerdotal, temos claramente dois momentos. O candidato, com base em discernimento espiritual, chega à convicção de que tem vocação. Sente-se chamado por Deus para tal missão eclesiástica. Nesse momento, interfere a Igreja institucional para aceitá-lo ou não. E ela impõe condições para a realização de tal vocação.

Na origem da vocação está a experiência fundamentadora de Deus, que dá o desejo de entrega de si mesmo ao serviço eclesial e a graça de realizá-lo. Sem ela, a vocação se degenera em pura profissão, com consequências desastrosas.

A maneira pela qual a Igreja institucional procedeu na confirmação da vocação variou ao longo dos séculos. De maneira bem simplificada, dois modelos vigeram. Um primeiro atravessou o primeiro milênio e o segundo se impôs a partir do segundo milênio. Em ambos se reconheceu que se comunicava o ministério presbiteral pela via da graça sacramental. O candidato tocado pela graça da vocação tinha, na ordenação, essa graça confirmada. Conferia-se-lhe o exercício de tal missão.

Mas, entre o momento interior da graça e a ordenação, intermedeia a ação externa da Igreja institucional. Durante o primeiro milênio, o papel principal cabia à comunidade. Ordenava-se o presbítero para servi-la. A legitimidade da ordenação encontrava a raiz última no serviço ao corpo eclesial concreto de uma comunidade. Pesava antes a dimensão pneumatológica da Igreja e menos o fato da sucessão do poder. Predominava uma eclesiologia comunitária, simbólica, com sabor patrístico. O ministério sacerdotal existia em função da comunidade.

O segundo milênio trouxe viravolta. Entrou uma concepção sacerdotal individualista. A imposição das mãos sai do contexto da Igreja local. Privatiza-se o ministério ordenado e valoriza-se o poder do indivíduo ordenado. Acentua-se o rito sacramental. Aceita-se a ordenação absoluta desde que garantidos os benefícios eclesiásticos para sustentar o ministro ordenado.

A ordenação já dava todo o poder e só faltava designar o lugar como algo secundário e posterior. A comunidade já não escolhe o ministro. Este se torna, sob certo aspecto, funcionário do poder. Possui autoridade por si mesmo, independentemente da comunidade. Estabelece relação direta com a realização dos sacramentos, máxime a da eucaristia, a ponto de sacerdotes celebrarem sozinhos. Santo Tomás sanciona, em certo sentido, tal perspectiva, ao dizer que “o sacramento da ordem se orienta à consagração da eucaristia”[5]. A ordenação separa o sacerdote do povo, enquanto no primeiro milênio o inseria nele. Reflete uma eclesiologia hierárquica vertical.

 

3. Conjuntura atual

A conjuntura atual de Igreja no que diz respeito ao ministério presbiteral permite diversas observações. O Concílio Vaticano II retomou a intuição central do primeiro milênio. Pôs no centro a eclesiologia do povo de Deus, com base no qual o ministério presbiteral se compreende como diaconia. Deslocou o acento para a importância da comunidade. Não se chegou, porém, a possibilitar à comunidade exercer maior influência na escolha do seu presbítero e ter poder de afastá-lo, caso ele não responda aos seus anseios. Tal processo ainda permanece nas mãos da hierarquia. O peso sacramentalista continua preponderante.

As mudanças iniciadas no pós-concílio estancaram e até mesmo regrediram. Prossegue a prática do poder do ministro ordenado acima da comunidade e até mesmo à sua revelia. Em alguns casos, chega-se a aberrações, sem que os fiéis disponham de outro mecanismo além do recurso à autoridade que o nomeou. Restringe-se tudo ao mundo hierárquico, sem participação da comunidade.

Numa cultura extremamente voltada para a exterioridade, vige uma figura de sacerdotes também eles cultivadores da aparência externa por meio de vestes, do brilho da liturgia e da presença na mídia. O próprio conteúdo das pregações sofre de superficialidade, ao carregar o tom na emoção, na imagem. Perde-se tanto no aspecto teológico de aprofundamento da fé quanto na riqueza simbólica da liturgia. Confunde-se facilmente o uso de recursos de imagens com a beleza e a profundidade simbólica própria da liturgia. O símbolo, na expressão de Paul Ricoeur, leva-nos a pensar, a meditar. A imagem, pelo contrário, paralisa o pensamento e afeta a sensibilidade imediata e de curta duração.

Em reação a tal figura, cresce uma linha oposta. Desloca o polo para a fidelidade à verdade doutrinal ensinada pelo magistério, especialmente pontifício, e às prescrições canônicas da Igreja institucional no campo da moral, da liturgia, da disciplina eclesiástica até as raias do rigorismo ortodoxo, moralista e litúrgico. Cresce um tipo de ministro ordenado pouco preocupado em responder aos problemas de hoje, mas voltado para a conservação dos fiéis dóceis. Tenta-se reter a sangria de católicos para as denominações evangélicas. Culpam-se as reformas promovidas na esteira do Vaticano II. Em países de tradição teológica e litúrgica antiga, cultiva-se certo elitismo religioso. A volta às celebrações em latim responde a tal modelo de Igreja. Aposta-se no purismo doutrinal, moral e disciplinar. Melhor um grupo de católicos fervorosos e obedientes às normas da Igreja do que uma multidão frouxamente praticante ou superficialmente seduzida pelas luzes midiáticas.

A onda libertadora da década de 1960, que esteve na gênese das comunidades eclesiais de base e de tantos presbíteros engajados no meio do povo simples e pobre, não desapareceu, embora tenha perdido visibilidade. Persiste a figura do sacerdote metido no meio do povo em íntima sintonia com suas aspirações de libertação. Aposta-se nas CEBs e na teologia da libertação. Preza-se a religiosidade do povo simples e trabalham-se as expressões populares da fé.

 

4. Futuro

E o futuro? Anuncia-se plural. Permanece forte a tendência clericalista. Com a valorização do poder sagrado da ordenação, o sacerdote se pensa, se prepara e atua em função do exercício desse poder. A sua dinâmica o vincula à instituição que representa, e não tanto ao povo a quem serve. Perde-se a intuição do Vaticano II da precedência do povo de Deus em relação à hierarquia. O poder, por natureza, resiste à mudança, que na Igreja católica se faz ainda mais difícil. O exercício do ministério petrino não tem nenhuma instância superior que o controle — exceto o evangelho, que, no entanto, é interpretado por ele mesmo. Jesus ensinara que o poder existe para o serviço. A prática hierárquica, porém, facilmente conflita com tal ensinamento. Surgem, sim, vozes proféticas que questionam tal poder, embora sejam frequentemente malvistas.

A cultura atual critica tal tipo de exercício. A sociedade humana já experimenta, há séculos, regimes políticos de traços democráticos. A Constituição brasileira reza: “Todo o poder emana do povo, que o exerce”. Tal visão se choca com a figura de um ministro ordenado escolhido, nomeado e mantido por autoridade independente da comunidade de fiéis que, no caso, exerceria a função de povo.

Ademais, aumenta hoje a rejeição das instituições. Se autoritária, o repúdio cresce.[6]Isso se origina de experiências negativas vividas. A Igreja católica, com ministros autoritários, tem sido envolvida nessa onda. Fica-lhe o desafio da democratização das estruturas. O caráter sagrado do ato da ordenação não contradiz a escolha e a designação do ordenado por parte da comunidade.

O momento atual desafia também o próprio ministro ordenado. Conhecedor de dados da psicologia profunda, percebe pulsões inconscientes, não raro reprimidas por parte da instituição eclesiástica. Sente-se então infeliz e revoltado, sobretudo no que toca à sexualidade e à afetividade. Não consegue realizar as exigências de nova imagem de sacerdote que os tempos pedem. Antes sacerdote da proximidade com as pessoas que do púlpito, homem do mistério antes que da doutrina, colaborador antes que solitário, de uma espiritualidade encarnada antes que monacal, voltado para a libertação de toda a pessoa humana antes que salvador de almas.

O mundo das relações com os fiéis enriqueceu-se, mas trouxe riscos e, não raro, turbulências afetivas. Como conjugar a transcendência própria do amor celibatário com a proximidade com os fiéis? Cabe-lhe distinguir relações humanas de amizade, de intimidade conjugal e de caráter pastoral. E aí situar-se sadiamente.

Certas imposições eclesiásticas pesam-lhe afetivamente. O seu senso pessoal de dignidade e autonomia refuga tudo o que sugere mantê-lo em atitude infantil.

A liberdade em face de normas eclesiásticas tem-lhe produzido dilaceramento interior. Percebe que algumas já não lhe servem de baliza de vida. No entanto, guarda a aparência de observância perante as autoridades da Igreja, deslizando para atitudes infantis de subserviência ou de conveniência. Não faltam conflitos de consciência no que se refere à lealdade e fidelidade à instituição eclesiástica.[7]

Os três ministérios principais — da palavra, da presidência e da coordenação — disputam-lhe o tempo, as energias e a prioridade. A imagem do sacerdote reconhecido e encomiado por seu papel no mundo sagrado perde consistência. Valorizam-se antes o manuseio da palavra, a capacidade litúrgica de presidir e a maneira delegada e democrática de coordenar. Nem sempre se preparou para essa nova maneira de exercer o tríplice ministério.

À guisa de conclusão, um toque de Aparecida. Vale do sacerdote a intuição central do projeto evangelizador. Tudo começa com o encontro pessoal com Cristo. Dele segue a conversão. Esta conduz ao seguimento de Jesus. E tal seguimento se realiza na comunhão eclesial e alimenta o zelo missionário. Interpretando para o sacerdote em perspectiva futura, a ordem se inverteria. Tudo começa na missão apostólica. Com base no engajamento, levanta questões sobre as formas de comunhão atuais. E, em relação com elas, pensa o seguimento do Jesus histórico. E esse encontro com ele pede conversão, que consiste fundamentalmente em nova maneira de interpretar Jesus para sua vida.

Na perspectiva do Jesus palestinense, a eucaristia reencontra sua centralidade antes como mistério de vida do que como lugar do poder sagrado. E, nessa nova realização de seu ministério, o sacerdote encontra melhor articulação entre vocação e profissão. A vocação alimenta-se do seguimento de Jesus. E o lado profissional lhe oferece elementos concretos para realizar tal seguimento e conduzir os fiéis a ele.

Fonte: Revista Vida Pastoral

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