futuro – Sou Catequista https://soucatequista.com.br Milhares de Artigos dos mais variados temas da Igreja Católica para a sua Catequese, Cursos, Downloads e muito mais! Tue, 27 May 2014 13:25:42 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://soucatequista.com.br/wp-content/uploads/2024/10/cropped-ico-1-32x32.png futuro – Sou Catequista https://soucatequista.com.br 32 32 Razões da esperança https://soucatequista.com.br/razoes-da-esperanca/ https://soucatequista.com.br/razoes-da-esperanca/#respond Tue, 27 May 2014 13:25:42 +0000 https://soucatequista.com.br/?p=42225 esperanca-de-vida-eterna-300x253As cenas de violência, que acompanham as manifestações de protesto das mais diversas bandeiras, multiplicam-se por toda parte. Ao mesmo tempo, a humanidade fica chocada com acidentes de toda ordem, desastres naturais, a grande chaga da guerra e o desentendimento entre pessoas, grupos e culturas. Aquela que uma vez foi chamada de aldeia global se mostra diariamente em nossas casas. Há inclusive meios de comunicação que se comprazem em mostrar, ao vivo e a cores, a miséria humana, tirada do fundo do baú, aquela que outrora se encontrava escondida na sarjetas da vida ou dissimulada através de mil truques. E o que dizer da exposição das pessoas e seus eventuais deslizes, através das chamadas redes sociais? Para muitos, a tentação que vem à tona é a do desânimo. Pode ser ainda a banalização da vida das pessoas e de sua dignidade. Outros são levados inclusive ao desespero.

Há um futuro promissor para a humanidade? Será que as previsões relativas ao aquecimento global ou outras projeções pessimistas se realizarão? Bem perto de nós, como serão os próximos meses com os eventos esportivos e políticos que se avizinham? Seremos capazes de nos manter serenos e fiéis? Jesus, conversando com seus discípulos, reunidos no Cenáculo, por ocasião da última Ceia, pronunciou palavras de fogo, garantindo-lhes as forças necessárias para a caminhada neste mundo. Temos certezas que nos permitem ir ao encontro dos outros sem receios, ajudando a todos na descoberta dos sinais de vida e de esperança.

Para os cristãos existe um ponto de referência, projetado pela esperança, uma virtude teologal. Virtudes teologais, Fé, Esperança e Caridade (Cf. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 384-387), são aquelas que têm como origem, motivo e objeto imediato o próprio Deus. São infundidas com a graça santificante, tornando-nos capazes de viver em relação com a Trindade, fundamentam e animam o agir, consolidando e vivificando as virtudes humanas. Elas são a garantia da presença e da ação do Espírito Santo em nós. Pela fé, cremos em Deus e em tudo o que Ele nos revelou e que a Igreja nos propõe para acreditarmos. Pela esperança, desejamos e esperamos de Deus a vida eterna como nossa felicidade, colocando a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos na ajuda da graça do Espírito Santo para merecê-la e perseverar até ao fim da vida terrena. A caridade, por sua vez, é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus. Jesus faz dela o mandamento novo, a plenitude da lei. A caridade é o vínculo da perfeição (Cf. Cl 3,14) e o fundamento das outras virtudes, que ela anima, inspira e ordena: sem ela “não sou nada” e “nada me aproveita”, afirma São Paulo (Cf. 1 Cor 13,1-3).

A vida cristã tem sua origem em Deus, que nos chama a partilhar de sua vida e nos oferece a salvação. Quer dizer que a vida, quando começa no alto, tem sentido e rumo. Há uma meta a alcançar e esta é a felicidade plena na eternidade, com Deus e com os irmãos. De fato, Deus nos fez para chegar a esta realização completa e a maldade ou o pecado não têm a última palavra.

Para manter viva a esperança, é necessário acreditar que Deus tem algo a ver com a humanidade e pode, sim, intervir na história humana e na vida das pessoas. Só Ele pode fazê-lo sem violentar a liberdade, dom com que todos foram criados. Há um percurso a fazer, para que se mantenha viva a certeza de sentido na vida humana nesta terra, tantas vezes “vale de lágrimas”, mas destinada a ser lugar de felicidade, “um novo céu e uma nova terra, descendo do céu, de junto de Deus, vestida como noiva enfeitada para o seu esposo, a morada de Deus-com-os-homens. Eles serão o seu povo, e o próprio Deus-com-eles será seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas anteriores passaram. Estas coisas serão a herança do vencedor, e eu serei seu Deus, e ele será meu filho” (Ap 21, 1.3-6).

O ponto de chegada é muito alto, mas não é complicado caminhar até lá! Basta seguir a receita do Evangelho: Quem ama enxerga e entende o que deve fazer: “Quem me ama será amado por meu pai e eu o amarei e me manifestarei a ele”. Não é apenas conversa, pois “quem acolhe e observa os meus mandamentos, esse me ama” (Jo 14, 15-21). Trata-se de praticar os mandamentos! Depois, quem compromete assim sua liberdade e sai de si para amar a Deus e cumprir os mandamentos, tem a certeza de que o Espírito da Verdade, prometido por Jesus, permanece sempre dentro de si e a seu lado. Sabendo que o Espírito Santo prometido age no mundo e na Igreja, não desfaleceremos no caminho e a esperança permanecerá acesa.

Uma das consequências é o testemunho a ser oferecido diante das pessoas. Mesmo quando aparece o sofrimento, é melhor sofrer praticando o bem, se essa for a vontade de Deus, do que praticando o mal. Cristo morreu, justo pelos injustos, para nos conduzir a Deus, mas recebeu nova vida no Espírito (Cf. 1 Pd 3, 15-18). Quando alguém quer saber os motivos da esperança que está em nossos corações, começamos com o Céu, mostramos o rumo futuro, a meta da esperança, mas também olhamos para a terra, enxergando os sinais de Deus existentes no momento presente, ao identificar o bem que é feito e a bondade que se espalha ao nosso redor. Há muita caridade vivida, há muitos gestos gratuitos e generosos, assim como tanta doação de vida. Há pessoas acendendo sinais verdes de esperança, ao invés de se armar com o amarelo do semáforo do medo ou interromper a caminhada com o vermelho que interrompe o trânsito da vida. Que nossa vida corresponda à fé, esperança e caridade que nos foram dadas de presente.

Por Dom Alberto Taveira Corrêa – Arcebispo de Belém do Pará

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Presente e futuro do Sacerdócio na Igreja Católica https://soucatequista.com.br/presente-e-futuro-do-sacerdocio-na-igreja-catolica/ https://soucatequista.com.br/presente-e-futuro-do-sacerdocio-na-igreja-catolica/#respond Tue, 11 Feb 2014 12:00:30 +0000 https://soucatequista.com.br/?p=38430 INTRODUÇÃO

Bento XVI anunciou um ano sacerdotal. Essa iniciativa visa contribuir para que o conjunto da Igreja volte o olhar para tal ministério eclesial. Motiva-a a celebração do 150º aniversário do dies natalis de S. João Maria Vianney, patrono dos sacerdotes diocesanos. A intenção profunda mira a renovação interior dos sacerdotes a fim de serem testemunhas vivas do evangelho no mundo atual. Assim se responde positivamente à dolorosa conjuntura causada pelos numerosos escândalos de padres.

 

1. Diferentes linguagens sobre o sacerdote

As linguagens variam conforme o sujeito que as constrói no horizonte de seus interesses. A instituição eclesiástica tece linguajar próprio sobre o sacerdócio. Tal linguajar aparece nos documentos e discursos do magistério, em comemorações e solenidades encomiásticas.

Trata-se de leitura idealizada do sacerdote a exaltar-lhe a dignidade. Centra-se na relação entre ele e o mundo sagrado que administra. Faz fluir para a pessoa do padre a grandeza dos sacramentos. A proximidade com o universo divino dá-lhe poder e relevância espiritual. Mesmo quando essa leitura lhe reconhece as deficiências e problemas, vê-o em pedestal sagrado. Repetem-se frases de santos que viveram a experiência da sublimidade do ministério. Bento XVI cita o próprio Cura d’Ars. Para ele, o sacerdote “é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina”. Em outro momento, o santo exclama: “Oh, como é grande o padre! (…) Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria. (…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia”.

Em contraste com esse discurso, a imprensa ensombreceu-lhe a imagem, ao divulgar os escândalos de pedofilia. Apraz-lhe o discurso chocante e sensacionalista dos contrastes. E quanto mais a Igreja oficial insiste no celibato e na tônica moral, tanto mais o noticiário se interessa pelos desvios morais de homens de Igreja. De tempos em tempos, noticiam-se alguns atos heroicos de eclesiásticos. Mas o conjunto pende para o lado obscuro da vida sacerdotal.

Afastando-se de ambas as linguagens, corre a vida comum e rotineira do sacerdote na real ambivalência da existência humana. Nem heroísmos raros nem vida semeada de aventuras chocantes. Na normalidade, vivem-se os desgastes do cotidiano, feito de pequenos sinais de fidelidade e de mediocridades escondidas. Em toda vocação e profissão, existem pessoas humanas ambiciosas, carreiristas, invejosas, que envenenam o ambiente. Deitam-se num conformismo consigo e com o trabalho sem garra, sem coragem criativa. Há também as que trabalham a si mesmas em processo contínuo de crescimento. A classe sacerdotal não se isenta dessa condição humana, nem sempre na mesma proporção que outras profissões ou vocações.

 

2. Profissão e vocação

Atravessa o ministério presbiteral tensão inevitável. Tem duas faces: vocacional e profissional. Profissão e vocação ressoam diferentemente, embora se entrecruzem. A vocação se põe antes do lado do carisma, da inspiração, enquanto a profissão cultiva o ofício, o encargo.

 

2.1. Conceituação de profissão

A etimologia já nos oferece primeira abordagem. Na origem da palavra estão dois étimos: pro + fateorFateor significa declarar, confessar. Pro denota fazê-lo diante de alguém, pessoa ou instituição. Ao exercer uma profissão, declaramos diante da sociedade nossa habilidade para determinado exercício. A profissão busca principalmente reconhecimento social. E o grau de importância que se lhe atribui oscila segundo a maior ou menor legitimação social. Um conjunto de fatores culturais torna uma profissão mais valorizada em determinada sociedade e momento histórico. A modernidade estabeleceu vários critérios para avaliar uma profissão: competência, produtividade, eficiência, resultados visíveis, sucesso, especializações, desempenho excelente. E, para chegar lá, exigem-se preparação, estudos concluídos com títulos, habilidades, conhecimentos técnicos. A profissão dá status social segundo o imaginário da sociedade. Ele influencia tanto a escolha profissional como o seu desempenho.

A vida profissional tende a exigir cada vez mais das pessoas. Para muitos, ocupa-lhes o centro da existência, ao relegar para segundo plano família, relações afetivas, atividades estritamente gratuitas. Esses tornam-se incapazes de suportar o fracasso e qualquer frustração — haja vista a depressão de tantos que se incapacitaram para trabalhar por causa de doença, aposentadoria, desemprego. Sentir-se inútil no mundo profissional pesa sofridamente. Com a crescente concorrência e transformação rápida da sociedade, as profissões, antigamente permanentes, caducam com facilidade se não se fazem contínuos cursos de atualização e especialização.

Na sociedade capitalista, a profissão se mede pelo critério maior da remuneração econômica. Esta garante a segurança do futuro, ao amealhar recursos para o tempo de aposentadoria. Junto com os altos salários vêm a glória, o poder, o sucesso, a aparência, o prestígio. O nome da instituição tem papel importante. Os funcionários participam de sua fama. Ela lhes rende dividendos em todos os níveis.[1]

Salta aos olhos que, se o ministério sacerdotal se orienta para a linha profissional, participa da enorme ambiguidade da concepção profissional da sociedade capitalista. Então só uma compreensão do sacerdócio como real vocação evita considerá-lo como mera profissão regida pelos valores do sistema.[2]

 

2.2. Vocação

De novo, a etimologia vem-nos em auxílio. No coração da palavra vocação se esconde o étimo voc, de vox — vocis do latim. Em português, significa voz. Que voz está na origem da vocação?

A psicologia a ouve como realização pessoal. Movem-nos o gosto, o prazer, a felicidade que a vocação promete até a paixão. Seguem-se atitudes de entrega, dedicação, empenho, à custa mesmo de sacrifícios.

Ela se nutre de gratuidade, de motivação interior, da busca de algo mais dentro de nós. Realiza-se em situações difíceis, lá onde a profissão esgotou as possibilidades. Tem certo caráter de perenidade.

Entretanto, a pós-modernidade está a mudar a compreensão de vocação. O jovem moderno encarava-a sob o signo do dever, do compromisso. Pesava-lhe a relevância social. Ele percebia-se como agente transformador da realidade. Alimentava-se de utopias. O futuro dava-lhe coragem para suportar as agruras do presente.

O jovem pós-moderno, porém, pensa-a sob o aspecto do prazer, do interesse individual sem alcance social. Despe-se da agressividade diante do real. Acomoda-se a ele sem gasto de energia. Não acredita poder modificá-lo. Busca antes usufruir o presente sem lançar mirada ao futuro. “As flores não as queremos para o funeral, mas agora”, assim diziam jovens espanhóis. O futuro fala de funeral. E o presente oferece a fruição. A vocação se motiva pelo gozo que ela suga do momento.

A leitura teológica critica esse viés pós-moderno. Oferece outra perspectiva de vocação. A voz interior, em última análise, vem de Deus. Tudo o que se refere a Deus, e enquanto se refere a ele, goza de dimensão definitiva. Daí a gravidade e o peso da vocação. São Paulo admoesta-nos: “De fato, vós não recebestes espírito de escravos, para recairdes no medo, mas recebestes o Espírito que, por adoção, vos torna filhos, e no qual clamamos: ‘Abbá, Pai!’” (Rm 8,15). Esse Espírito faz ouvir sua voz. Dele vem a vocação. E a do ministério sacerdotal mantém referência fundamental à práxis de Jesus, que nos alerta: “Sabeis que os que são considerados chefes das nações as dominam, e os seus grandes fazem sentir seu poder. Entre vós não deve ser assim. Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós seja o escravo de todos. Pois o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10,42-45).

A vocação, na perspectiva cristã, significa chamado ao serviço a Deus na pessoa do irmão, numa unidade radical de amor, de tal modo que se reconhece naquele que serve, mesmo que não conheça a fé cristã, “um cristão anônimo”[3]. As vocações éticas se identificam, na prática, com a cristã.

O termo carisma serve também para traduzir essa dimensão teologal de vocação. Significa um dom, habilidade, qualidade do Espírito para o serviço da comunidade. Visa à sua construção. Implica, portanto, o dom da graça que se recebe de Deus.

 

2.3. Relação entre profissão e vocação

A vocação não se opõe à profissão, mas dá-lhe uma dimensão que esta não tem de si. Insere-a no nível de resposta ao chamado de Deus. Vale dessa relação a clássica afirmação de santo Tomás: a graça não substitui a natureza, mas a aperfeiçoa e lhe supre defeitos.[4] A vocação, como obra da graça do Espírito Santo, pede o cultivo de qualidades humanas, de competência profissional, de formação séria, de empenho. Entretanto, corrige-lhe o acento funcionalista, “eficientista”, instrumental, ao recordar a dimensão de graça, de gratuidade, de dom. Vem a propósito dessa relação o adágio inaciano: “Deposita tua confiança em Deus, como se todo o êxito do trabalho não dependesse de ti, mas apenas de Deus; aplica-te todo inteiro à tua obra, como se Deus não devesse fazer coisa alguma, mas tu devesses tudo fazer sozinho”. A vocação situa-se na linha da confiança, e a profissão na do empenho.

 

2.4. Problema da escolha vocacional

No que se refere às profissões, a sociedade impõe regras. Algumas severas. Controla-se seu exercício, exigindo cursos, diplomas, inscrições em órgãos do Estado.

A vocação, como tal, escapa de tais injunções. Ela brota do coração. Mas, no momento em que assume aspectos profissionais, cai sob as mesmas obrigações.

No caso da vocação sacerdotal, temos claramente dois momentos. O candidato, com base em discernimento espiritual, chega à convicção de que tem vocação. Sente-se chamado por Deus para tal missão eclesiástica. Nesse momento, interfere a Igreja institucional para aceitá-lo ou não. E ela impõe condições para a realização de tal vocação.

Na origem da vocação está a experiência fundamentadora de Deus, que dá o desejo de entrega de si mesmo ao serviço eclesial e a graça de realizá-lo. Sem ela, a vocação se degenera em pura profissão, com consequências desastrosas.

A maneira pela qual a Igreja institucional procedeu na confirmação da vocação variou ao longo dos séculos. De maneira bem simplificada, dois modelos vigeram. Um primeiro atravessou o primeiro milênio e o segundo se impôs a partir do segundo milênio. Em ambos se reconheceu que se comunicava o ministério presbiteral pela via da graça sacramental. O candidato tocado pela graça da vocação tinha, na ordenação, essa graça confirmada. Conferia-se-lhe o exercício de tal missão.

Mas, entre o momento interior da graça e a ordenação, intermedeia a ação externa da Igreja institucional. Durante o primeiro milênio, o papel principal cabia à comunidade. Ordenava-se o presbítero para servi-la. A legitimidade da ordenação encontrava a raiz última no serviço ao corpo eclesial concreto de uma comunidade. Pesava antes a dimensão pneumatológica da Igreja e menos o fato da sucessão do poder. Predominava uma eclesiologia comunitária, simbólica, com sabor patrístico. O ministério sacerdotal existia em função da comunidade.

O segundo milênio trouxe viravolta. Entrou uma concepção sacerdotal individualista. A imposição das mãos sai do contexto da Igreja local. Privatiza-se o ministério ordenado e valoriza-se o poder do indivíduo ordenado. Acentua-se o rito sacramental. Aceita-se a ordenação absoluta desde que garantidos os benefícios eclesiásticos para sustentar o ministro ordenado.

A ordenação já dava todo o poder e só faltava designar o lugar como algo secundário e posterior. A comunidade já não escolhe o ministro. Este se torna, sob certo aspecto, funcionário do poder. Possui autoridade por si mesmo, independentemente da comunidade. Estabelece relação direta com a realização dos sacramentos, máxime a da eucaristia, a ponto de sacerdotes celebrarem sozinhos. Santo Tomás sanciona, em certo sentido, tal perspectiva, ao dizer que “o sacramento da ordem se orienta à consagração da eucaristia”[5]. A ordenação separa o sacerdote do povo, enquanto no primeiro milênio o inseria nele. Reflete uma eclesiologia hierárquica vertical.

 

3. Conjuntura atual

A conjuntura atual de Igreja no que diz respeito ao ministério presbiteral permite diversas observações. O Concílio Vaticano II retomou a intuição central do primeiro milênio. Pôs no centro a eclesiologia do povo de Deus, com base no qual o ministério presbiteral se compreende como diaconia. Deslocou o acento para a importância da comunidade. Não se chegou, porém, a possibilitar à comunidade exercer maior influência na escolha do seu presbítero e ter poder de afastá-lo, caso ele não responda aos seus anseios. Tal processo ainda permanece nas mãos da hierarquia. O peso sacramentalista continua preponderante.

As mudanças iniciadas no pós-concílio estancaram e até mesmo regrediram. Prossegue a prática do poder do ministro ordenado acima da comunidade e até mesmo à sua revelia. Em alguns casos, chega-se a aberrações, sem que os fiéis disponham de outro mecanismo além do recurso à autoridade que o nomeou. Restringe-se tudo ao mundo hierárquico, sem participação da comunidade.

Numa cultura extremamente voltada para a exterioridade, vige uma figura de sacerdotes também eles cultivadores da aparência externa por meio de vestes, do brilho da liturgia e da presença na mídia. O próprio conteúdo das pregações sofre de superficialidade, ao carregar o tom na emoção, na imagem. Perde-se tanto no aspecto teológico de aprofundamento da fé quanto na riqueza simbólica da liturgia. Confunde-se facilmente o uso de recursos de imagens com a beleza e a profundidade simbólica própria da liturgia. O símbolo, na expressão de Paul Ricoeur, leva-nos a pensar, a meditar. A imagem, pelo contrário, paralisa o pensamento e afeta a sensibilidade imediata e de curta duração.

Em reação a tal figura, cresce uma linha oposta. Desloca o polo para a fidelidade à verdade doutrinal ensinada pelo magistério, especialmente pontifício, e às prescrições canônicas da Igreja institucional no campo da moral, da liturgia, da disciplina eclesiástica até as raias do rigorismo ortodoxo, moralista e litúrgico. Cresce um tipo de ministro ordenado pouco preocupado em responder aos problemas de hoje, mas voltado para a conservação dos fiéis dóceis. Tenta-se reter a sangria de católicos para as denominações evangélicas. Culpam-se as reformas promovidas na esteira do Vaticano II. Em países de tradição teológica e litúrgica antiga, cultiva-se certo elitismo religioso. A volta às celebrações em latim responde a tal modelo de Igreja. Aposta-se no purismo doutrinal, moral e disciplinar. Melhor um grupo de católicos fervorosos e obedientes às normas da Igreja do que uma multidão frouxamente praticante ou superficialmente seduzida pelas luzes midiáticas.

A onda libertadora da década de 1960, que esteve na gênese das comunidades eclesiais de base e de tantos presbíteros engajados no meio do povo simples e pobre, não desapareceu, embora tenha perdido visibilidade. Persiste a figura do sacerdote metido no meio do povo em íntima sintonia com suas aspirações de libertação. Aposta-se nas CEBs e na teologia da libertação. Preza-se a religiosidade do povo simples e trabalham-se as expressões populares da fé.

 

4. Futuro

E o futuro? Anuncia-se plural. Permanece forte a tendência clericalista. Com a valorização do poder sagrado da ordenação, o sacerdote se pensa, se prepara e atua em função do exercício desse poder. A sua dinâmica o vincula à instituição que representa, e não tanto ao povo a quem serve. Perde-se a intuição do Vaticano II da precedência do povo de Deus em relação à hierarquia. O poder, por natureza, resiste à mudança, que na Igreja católica se faz ainda mais difícil. O exercício do ministério petrino não tem nenhuma instância superior que o controle — exceto o evangelho, que, no entanto, é interpretado por ele mesmo. Jesus ensinara que o poder existe para o serviço. A prática hierárquica, porém, facilmente conflita com tal ensinamento. Surgem, sim, vozes proféticas que questionam tal poder, embora sejam frequentemente malvistas.

A cultura atual critica tal tipo de exercício. A sociedade humana já experimenta, há séculos, regimes políticos de traços democráticos. A Constituição brasileira reza: “Todo o poder emana do povo, que o exerce”. Tal visão se choca com a figura de um ministro ordenado escolhido, nomeado e mantido por autoridade independente da comunidade de fiéis que, no caso, exerceria a função de povo.

Ademais, aumenta hoje a rejeição das instituições. Se autoritária, o repúdio cresce.[6]Isso se origina de experiências negativas vividas. A Igreja católica, com ministros autoritários, tem sido envolvida nessa onda. Fica-lhe o desafio da democratização das estruturas. O caráter sagrado do ato da ordenação não contradiz a escolha e a designação do ordenado por parte da comunidade.

O momento atual desafia também o próprio ministro ordenado. Conhecedor de dados da psicologia profunda, percebe pulsões inconscientes, não raro reprimidas por parte da instituição eclesiástica. Sente-se então infeliz e revoltado, sobretudo no que toca à sexualidade e à afetividade. Não consegue realizar as exigências de nova imagem de sacerdote que os tempos pedem. Antes sacerdote da proximidade com as pessoas que do púlpito, homem do mistério antes que da doutrina, colaborador antes que solitário, de uma espiritualidade encarnada antes que monacal, voltado para a libertação de toda a pessoa humana antes que salvador de almas.

O mundo das relações com os fiéis enriqueceu-se, mas trouxe riscos e, não raro, turbulências afetivas. Como conjugar a transcendência própria do amor celibatário com a proximidade com os fiéis? Cabe-lhe distinguir relações humanas de amizade, de intimidade conjugal e de caráter pastoral. E aí situar-se sadiamente.

Certas imposições eclesiásticas pesam-lhe afetivamente. O seu senso pessoal de dignidade e autonomia refuga tudo o que sugere mantê-lo em atitude infantil.

A liberdade em face de normas eclesiásticas tem-lhe produzido dilaceramento interior. Percebe que algumas já não lhe servem de baliza de vida. No entanto, guarda a aparência de observância perante as autoridades da Igreja, deslizando para atitudes infantis de subserviência ou de conveniência. Não faltam conflitos de consciência no que se refere à lealdade e fidelidade à instituição eclesiástica.[7]

Os três ministérios principais — da palavra, da presidência e da coordenação — disputam-lhe o tempo, as energias e a prioridade. A imagem do sacerdote reconhecido e encomiado por seu papel no mundo sagrado perde consistência. Valorizam-se antes o manuseio da palavra, a capacidade litúrgica de presidir e a maneira delegada e democrática de coordenar. Nem sempre se preparou para essa nova maneira de exercer o tríplice ministério.

À guisa de conclusão, um toque de Aparecida. Vale do sacerdote a intuição central do projeto evangelizador. Tudo começa com o encontro pessoal com Cristo. Dele segue a conversão. Esta conduz ao seguimento de Jesus. E tal seguimento se realiza na comunhão eclesial e alimenta o zelo missionário. Interpretando para o sacerdote em perspectiva futura, a ordem se inverteria. Tudo começa na missão apostólica. Com base no engajamento, levanta questões sobre as formas de comunhão atuais. E, em relação com elas, pensa o seguimento do Jesus histórico. E esse encontro com ele pede conversão, que consiste fundamentalmente em nova maneira de interpretar Jesus para sua vida.

Na perspectiva do Jesus palestinense, a eucaristia reencontra sua centralidade antes como mistério de vida do que como lugar do poder sagrado. E, nessa nova realização de seu ministério, o sacerdote encontra melhor articulação entre vocação e profissão. A vocação alimenta-se do seguimento de Jesus. E o lado profissional lhe oferece elementos concretos para realizar tal seguimento e conduzir os fiéis a ele.

Fonte: Revista Vida Pastoral

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O futuro da Eucaristia visto da América Latina https://soucatequista.com.br/o-futuro-da-eucaristia-visto-da-america-latina/ https://soucatequista.com.br/o-futuro-da-eucaristia-visto-da-america-latina/#respond Mon, 10 Feb 2014 12:00:04 +0000 https://soucatequista.com.br/?p=38424 Desde o Vaticano II e sua releitura latino-americana na Conferência Episcopal de Medellín (1968), a opção preferencial pelos pobres tornou-se a marca característica da Igreja deste continente. Convém esclarecer que a opção pelos pobres não é meramente econômica, mas social, política, cultural, espiritual, ética, teologal. “A minha fome é um problema material; a fome dos outros, porém, é um problema espiritual” (Berdiaeff). Com o fim do “socialismo real”, não compreendendo a abrangência da opção, alguns quiseram considerá-la ultrapassada. Impossível pretensão. A opção preferencial pelos pobres é evangélica e, por isso, irrenunciável. Ademais, sob o império neoliberal tornou-se ainda mais urgente, por ter a situação dos pobres piorado.

O futuro da eucaristia na América Latina está intimamente relacionado com a opção pelos pobres. O simbolismo eucarístico do partir o pão e reparti-lo é sumamente sugestivo, quando tantos, sob vários pontos de vista, não têm lugar na mesa do banquete globalizado. Cristo quis fazer-se presente num simbolismo vital: a refeição. Não é possível partir e repartir o pão eucarístico sem um compromisso com os pobres que nos cercam. O futuro da eucaristia depende da coerência em torná-la verdade em nossa vida. E a verdade do símbolo eucarístico se expressa na partilha na vida de cada dia.

É comum referir-se à América Latina como um continente homogêneo por sua religião e cultura. Na verdade, porém, ela apresenta rica gama de culturas, a começar pelos povos autóctones e afro-americanos, sem esquecer os europeus e asiáticos de migração mais recente. O que, em tempos passados, estava oculto sob a capa de uma cultura e religião hegemônicas aparece agora com toda sua riqueza. Indígenas e negros levantam sua voz, exigindo o reconhecimento de sua idiossincrasia.

Nos sulcos do Concílio Vaticano II, a afirmação do pluralismo eclesial trouxe para a discussão teológica e a prática pastoral a temática da inculturação. A eucaristia, que está no coração da Igreja, necessariamente será atingida por ela. A inculturação significa mais do que alguns retoques rituais na venerável liturgia romana. Em regiões da América Latina com mais forte identidade indígena, será preciso levantar a questão da própria matéria do sacramento. A eucaristia foi instituída com pão e vinho em meio à cultura mediterrânea, no contexto da civilização do trigo. Entre os povos autóctones da América Latina, o milho, principalmente nas regiões do altiplano andino, e a mandioca, dos Andes ao Atlântico, desempenham a função do trigo no mundo mediterrâneo e são alimento básico sob formas similares ao pão. O pão de trigo, por familiar que seja nas mesas citadinas, é estranho em muitas regiões rurais e, em outras partes, apenas complementa o emprego tradicional de massas de milho ou mandioca.

O uso do vinho é ainda mais restrito. Sua cultura em escala comercial foi implantada apenas desde o século passado por imigrantes italianos e espanhóis, em regiões bem delimitadas. Ultimamente tem aparecido em regiões sem tradição vinícola, mas está longe de ter criado raízes na maioria da população.

Seria possível celebrar a eucaristia com beiju (torta feita de mandioca) e chicha (bebida fermentada de milho)? A inculturação não poderá passar ao largo dessa questão. O pão, na cultura mediterrânea, era o alimento básico, cotidiano; o vinho, a bebida festiva. Em outras culturas, outros são o alimento e a bebida que correspondem a esse significado. A “substância do sacramento” (cf. DS 1.728) estaria preservada só com o uso do pão e do vinho? Não bastaria o simbolismo de uma refeição?

Se a pluralidade cultural da América Latina já constitui um desafio prático e teórico, mais ainda sua pluralidade religiosa. Embora tenham aceito o cristianismo trazido pelo conquistador, os povos autóctones e os escravos africanos mantiveram na clandestinidade suas religiões de origem que hoje vêm à luz com força renovada e são aceitas também por descendentes de europeus ou os influenciam. Muitas vezes, verifica-se uma dupla pertença (ou prática) religiosa, a ponto de a participação na eucaristia ser eventualmente exigida em função do culto de outra religião.

Eis um aspecto da intercomunhão dificilmente contemplado na reflexão europeia ou de antemão desprezado como uso supersticioso. Será esta a única explicação, considerando que tais pessoas são batizadas e se consideram católicas? A afirmação da especificidade eclesial da América Latina exigirá uma reflexão que aborde tais questões, até agora nunca discutidas teologicamente.

religiosidade popular herdada da colonização ibérica se caracteriza pela centralidade do culto aos santos. Desde o século passado, porém, religiosos vindos da Europa tentaram introduzir uma piedade eucarística calcada na prática do culto aos santos que, em alguns lugares, teve êxito. A hóstia consagrada passa a ser cultuada como um “santo” a mais. Esse tipo de piedade vem sendo ultimamente reforçado pela Renovação Carismática Católica, que em muitos cultos focaliza a devoção à eucaristia não como celebração, mas como presença real. O desafio é a maneira pela qual, a partir daí, levar os fiéis à centralidade da eucaristia como celebração do mistério pascal.

Uma compreensão da Igreja como comunhão de Igrejas locais, que se visibilizam na eucaristia presidida por seu bispo (cf. LG 23 e 26), traz consigo a exigência de umanova concretização dos ministérios eclesiais.

Em nosso continente, a maior parte das comunidades está impossibilitada de celebrar cada semana a eucaristia por falta de presbítero que a presida, o que impede a maioria dos cristãos de ter experiência concreta da centralidade da eucaristia.

O problema real não é a falta de padres, mas a forma de seleção dos ministros a partir da concepção pós-tridentina de vocação ao ministério. Os presbíteros são retirados de seu meio ambiente, educados num seminário, providos de formação acadêmica, celibatários, encarregados de uma paróquia desconhecida deles. Ou vêm de fora cada domingo para celebrarem a eucaristia sem participarem da vida cotidiana das comunidades que presidem.

Ora, em todas as comunidades cristãs surgem hoje lideranças que, ocupadas profissionalmente em outras tarefas, dedicam o tempo livre a animar na gratuidade a vida da comunidade e, de fato, a presidem em lugar do padre. Muitas vezes não têm formação teológica, nem sequer acadêmica. Se essas pessoas pudessem ter o ministério que efetivamente exercem, reconhecido pela imposição das mãos do bispo, não haveria escassez de presbíteros e toda comunidade cristã poderia celebrar a páscoa dominical.

A formação teológica dos presbíteros é uma aquisição que não se deveria perder. No entanto, nas condições reais da América Latina, o analfabetismo ainda é uma realidade, o ensino público se deteriora a olhos vistos, nos ambientes pobres cada vez mais se fazem presentes “seitas” pentecostais cujos pastores são tomados do próprio povo, sem maior preparo. Uma alternativa viável seria que não fosse exclusivo o modelo de presbítero pós-tridentino. Estes continuariam a existir com a função de percorrer as comunidades, confirmando-as na fé e atualizando os presbíteros estáveis escolhidos entre o povo, com suas características culturais e o nível de estudos exigido pelas circunstâncias de cada lugar. Só assim as comunidades não se veriam privadas da celebração dominical da eucaristia. O ministério em tempo parcial não é problema na América Latina, pois a fidelidade à fé cristã e católica da grande maioria das comunidades se manteve até hoje graças à ação de leigos socorrida pela visita esporádica de padres.

Eucaristia vivida no compromisso social, inculturada até no gesto simbólico central, presidida por presbíteros tomados do meio do povo que permanecem integrados na vida da comunidade a que pertencem, eis alguns dos aspectos do futuro a ser desejado para que se possa viver a centralidade da eucaristia na América Latina.

Fonte: Revista Vida Pastoral

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