Paulo – Sou Catequista https://soucatequista.com.br Milhares de Artigos dos mais variados temas da Igreja Católica para a sua Catequese, Cursos, Downloads e muito mais! Tue, 18 Feb 2014 20:00:15 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://soucatequista.com.br/wp-content/uploads/2024/10/cropped-ico-1-32x32.png Paulo – Sou Catequista https://soucatequista.com.br 32 32 O apóstolo Paulo e a comunicação https://soucatequista.com.br/o-apostolo-paulo-e-a-comunicacao/ https://soucatequista.com.br/o-apostolo-paulo-e-a-comunicacao/#respond Tue, 18 Feb 2014 20:00:15 +0000 https://soucatequista.com.br/?p=38561 Paulo é sempre uma referência na Igreja quando o assunto é comunicação. Isso se dá porque esse apóstolo não mediu esforços para interagir com diversas comunidades. Primou pelo uso dos meios de comunicação disponíveis no seu tempo, sem desprezar o contato direto com as pessoas. A desenvoltura na comunicação certamente teve como motivação a experiência de Jesus Cristo, a paixão pelo evangelho e o amor ao povo ao qual se sentia chamado a anunciá-lo. Tanto no passado como no presente, a comunicação continua a ser um desafio. O modo de agir de Paulo abre-nos algumas pistas para a reflexão da prática comunicativa na Igreja. Vamos, na primeira parte deste artigo, tratar da comunicação de um modo geral e, em seguida, entrar mais especificamente no estilo paulino de evangelizar.

 

1. Falando de comunicação

A comunicação é uma das necessidades básicas do ser humano. É por meio da comunicação verbal e não verbal que as pessoas interagem entre si e constroem a sociedade. Assim como não existem homens sem sociedade, também não existe sociedade sem comunicação. Ela é o fio condutor que perpassa pessoas, grupos sociais e instituições e possibilita a construção do que chamamos de cultura.

 

1.1. Comunicação: uma experiência antropológica

A comunicação é, em primeiro lugar, uma experiência antropológica fundamental, cujo significado está no próprio termo. Seu primeiro sentido, provindo do latim, remonta ao século XII (1160) e remete à ideia de comunhão, partilha.[1] A comunicação é sempre a busca do outro e de um compartilhar. Contudo, por mais que a palavra comunicação esteja na moda, nem sempre as pessoas participam de maneira satisfatória desse processo, particularmente na relação interpessoal, chegando, às vezes, a mal-entendidos.

Não basta querer interagir. Se alguém não consegue expressar seus pensamentos e sentimentos de maneira inteligível ao interlocutor, a comunicação pode fracassar. Comunicar também não é só emitir mensagens, mas estar receptivo para receber e interpretar o que o outro tem para dizer. Ou seja, o bom comunicador não é aquele que fala muito, mas o que fala o necessário e escuta com atenção, a fim de dar a resposta adequada para criar “interação”.

Nesse sentido, a escuta é um elemento importante no processo comunicativo. Escutar não se reduz a “ouvir”. Podemos ouvir um barulho, uma voz, uma mensagem e não nos importar com seu significado. Escutar, ao contrário, é dar atenção e buscar conferir um significado não só à mensagem recebida, mas também à pessoa que transmite o seu conteúdo. Escutar é perceber o outro na sua situação. Para isso é necessário vencer o desejo de dar respostas sem antes “escutar” ou o interlocutor terminar de dizer totalmente o que pensa. A comunicação é tão importante, que podemos afirmar que dela depende a qualidade de nossas relações humanas.

 

1.2. A comunicação instrumental

Entendemos por comunicação tanto a inter-relação direta entre duas ou mais pessoas como a difusão, à distância, de ideias, conhecimentos e experiências midiatizados por instrumentos técnicos criados pela inteligência humana. Tais meios nasceram especialmente a partir do século XV, com a imprensa, e desenvolveram-se rapidamente no século XX, com os veículos eletrônicos e informáticos (revistas e jornais impressos, telefone, televisão, rádio, internet e outros). Além desses aparatos que chamamos de “mídia”, surgiram os meios de transporte que facilitaram a interação entre as pessoas: navio, trem, automóvel, avião etc.

Foi para aperfeiçoar a prática comunicativa, para compartilhar e difundir informações que os instrumentos técnicos de comunicação se desenvolveram, entrando de tal forma na vida cotidiana, que engendraram nova cultura. De fato,

 

há uma cultura veiculada pela mídia cujas imagens, sons e espetáculos ajudam a urdir o tecido da vida cotidiana, dominando o tempo de lazer, modelando opiniões políticas e comportamentos sociais, e fornecendo o material com que as pessoas forjam sua identidade. O rádio, a televisão, o cinema e os outros produtos da indústria cultural fornecem os modelos daquilo que significa ser homem ou mulher, bem-sucedido ou fracassado, poderoso ou impotente.[2]

 

A cultura da comunicação, tal como atualmente está constituída, organizou-se com base no modelo de produção de massa. Assumiu uma forma de cultura comercial, e seus produtos são mercadorias que tentam assegurar o lucro das grandes empresas. É impossível pensar a sociedade sem a comunicação instrumental, e esta, por sua vez, é difícil de ser pensada separadamente de interesses que envolvem lucro e poder.

Todavia, não podemos reduzir a mídia a interesses comerciais. Instituições religiosas, culturais, educativas, ONGs e outras organizações do gênero também descobriram a importância dos instrumentos de comunicação, utilizando-os em suas atividades. Cresce sempre mais a consciência de que, sem o uso desses instrumentos, é muito difícil desenvolver qualquer trabalho eficaz de promoção humana.

A comunicação instrumental é importante, mas não pode fazer-nos esquecer que a comunicação é, antes de tudo, uma experiência humana. O uso das tecnologias comunicacionais facilitou os contatos e os intercâmbios de informações, porém não há nenhuma prova de que melhorou a qualidade da comunicação entre as pessoas. O mesmo se pode dizer da internet, o mais novo espaço de comunicação, para onde convergem todas as mídias. A internet, como todos os outros meios de comunicação, reforça e estimula o intercâmbio de experiências e informações, mas não substitui as relações pessoais nem a vida comunitária. A comunicação, com todo o aparato e avanço tecnológicos, segue como desafio.

 

2. Falando de Paulo na perspectiva da comunicação

Evangelizar é “comunicar”. Paulo é o apóstolo que não se cansou de proclamar a “boa-notícia” de Jesus Cristo. Além de manter-se em contínua comunicação com os que estavam ao seu lado, buscou todos os recursos técnicos disponíveis no seu tempo para interagir com as comunidades distantes. Soube buscar o equilíbrio entre a comunicação epistolar e a interpessoal, tendo um só objetivo: chegar ao maior número de pessoas com a palavra de Deus. Vamos tentar descrever alguns aspectos de Paulo nessa perspectiva.

 

2.1. O perfil de Paulo “comunicador”

Pode ser que, quando ressoa em nós a palavra “comunicador”, de imediato nos venha à mente uma imagem-padrão inculcada pela mídia. Referindo-nos sobretudo à televisão, e especificamente ao apresentador de telejornal ou de programa de auditório, vem-nos a ideia do homem e da mulher bem vestidos e maquiados, com boa dicção e imagem cinematográfica. Aliás, já existem programas jornalísticos cujos apresentadores são modelos, ou seja, pessoas que, a despeito de não terem nenhuma experiência em jornalismo, entram no perfil traçado pela lógica do espetáculo.

O apóstolo Paulo, em sua condição de comunicador, não tem nada que ver com os galãs produzidos pela mídia. Suas cartas, especialmente as duas que escreveu aos coríntios, revelam um homem fora dos padrões do “comunicador espetacular”, seja da nossa época, seja do seu tempo. Tal parecer se baseia em algumas reflexões suas nascidas das controvérsias com os falsos apóstolos que, em nome do evangelho, se apoiavam no poder da linguagem e buscavam cativar pelas aparências, visando a interesses pessoais e não ao anúncio de Jesus Cristo (cf. 2Cor 10,12).

Confrontando sua pregação com a dos falsos evangelizadores, Paulo afirma aos coríntios que não sabe falar com o mesmo brilho: “Irmãos, eu mesmo, quando fui ao encontro de vocês, não me apresentei com o prestígio da oratória ou da sabedoria para anunciar-lhes o mistério de Deus” (1Cor 2,1). Reconhece que não é dotado de grande comunicação oral: “Ainda que eu não seja hábil no falar, eu o sou no saber” (2Cor 11,6) e que sua presença não era em nada sedutora: “Estive no meio de vocês cheio de fraqueza, receio e tremor; minha palavra e minha pregação não tinham brilho nem artifícios para seduzir os ouvintes, mas a demonstração residia no poder do Espírito” (1Cor 2,3).

Paulo não tinha interesse em seduzir as pessoas pela linguagem, pela retórica ou, menos ainda, pelas aparências, como os outros evangelizadores que buscavam explorar o povo. Alguns membros das comunidades não entendiam esse seu modo de agir e o criticavam. Chegavam a duvidar de que ele fosse um evangelizador autêntico por faltar-lhe essas características. Se Paulo não se enquadra no perfil do comunicador que busca o sucesso, onde residia a força de sua comunicação?

 

2.2. Um emissor com mensagem clara

A comunicação é um processo do qual fazem parte o emissor, que transmite uma mensagem, e o receptor, que a recebe, a elabora e dá uma resposta ou, em certos casos, age indiferentemente. Ao descrever o apóstolo Paulo do ponto de vista do emissor, podemos afirmar que ele tem clara a mensagem que deseja levar às pessoas. Sabe o que deseja anunciar. Paulo tem um conteúdo que nasce não só de sua formação intelectual, mas principalmente de sua experiência de vida.

Educado na mais perfeita tradição judaica, Paulo trazia consigo uma bagagem cultural que incluía um conhecimento profundo das tradições de seu povo e noções das filosofias e religiões gregas de seu tempo. No entanto, a experiência que fez na estrada de Damasco, conhecida comumente como “conversão”, marcou profundamente sua vida, mais do que todos os estudos e práticas religiosas.

No caminho de Damasco, o perseguidor ferrenho dos cristãos tem um encontro inusitado que o faz cair por terra. Encontra-se com Jesus Cristo, o mesmo que ele perseguia na pessoa dos cristãos. Ananias, que o acolhe depois dessa experiência, tem uma visão na qual o Senhor afirma: “esse homem é um instrumento que eu escolhi para anunciar o meu nome aos pagãos, aos reis e ao povo de Israel” (At 9,15).

Paulo em pessoa torna-se um “instrumento de comunicação” da boa-notícia. Da conversão nasce a missão, cujo fundamento está numa convicção: “Sei em quem depositei a minha fé” (2Tm 1,12). Tem consciência de que o evangelho, o qual comunica com tanta paixão a todos os povos, chegou a ele por meio de uma revelação que transformou totalmente sua vida. O que move a comunicação de Paulo é a fé em Jesus Cristo, a ponto de dizer: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim. E esta vida que agora vivo, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).

 

2.3. Fazer-se tudo para todos

Paulo não consegue conter o que descobre e o que pensa sobre a revelação que recebe. Sente um impulso forte para a missão. “Anunciar o evangelho”, afirma o apóstolo dos gentios, “não é título de glória para mim; pelo contrário, é uma necessidade que me foi imposta. Ai de mim se eu não anunciar o evangelho!” (1Cor 9,16). O apelo que sente internamente para anunciar a boa-notícia é perceptível nos inúmeros contatos com pessoas e comunidades.

O evangelho faz o apóstolo romper todas as barreiras do preconceito e da discriminação e buscar, a todo custo, criar e reforçar a comunhão. Para ele, o importante é chegar ao maior número de pessoas em meio à situação concreta de cada uma. Por isso afirma: “com os judeus, comportei-me como judeu, a fim de ganhar os judeus; com os que estão sujeitos à Lei, comportei-me como se estivesse sujeito à Lei — embora eu não estivesse sujeito à Lei (…). Com os fracos, tornei-me fraco, a fim de ganhar os fracos. Tornei-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a qualquer custo” (1Cor 9,22).

As cartas que Paulo escreveu a um público diversificado não se resumem à transmissão escrita de uma doutrina nem substituem o contato pessoal. Seus escritos registram um carinho enorme para com os destinatários e o desejo de estar junto a eles. É o que transparece quando o apóstolo escreve aos coríntios: “Irei até vocês depois de passar pela Macedônia… Não quero vê-los apenas de passagem; se o Senhor permitir, espero ficar algum tempo com vocês” (1Cor 16,5.7). Ele expressa esses mesmos sentimentos aos tessalonicenses: “Irmãos, já faz algum tempo que estamos separados de vocês, longe dos olhos, mas não do coração, e por isso temos o mais vivo e ardente desejo de tornar a vê-los” (1Ts 2,17). Igualmente, revela esse desejo a Timóteo: “Escrevo-lhe estas coisas esperando encontrá-lo em breve” (1Tm 3,14).

Paulo se comunica por meio de cartas, mas sente o “ardente desejo” de ver as pessoas e estar com elas. Mesmo quando se encontra na prisão, busca de alguma forma visitar as comunidades por meio de algum colaborador, que faz o “contato pessoal” em seu lugar. Envia, por exemplo, Timóteo e Epafrodito a Filipos (Fl 2,23-25) e Tíquico e Onésimo a Colossas (Cl 4,7-9).

Seja diretamente, seja por meio de outras pessoas, Paulo busca não só passar mensagens, mas também “escutar”. Na verdade, suas cartas são respostas às necessidades, indagações e situações das comunidades. É o caso, por exemplo, do que escreve na primeira carta aos Tessalonicenses: “Timóteo acaba de chegar da visita que fez a vocês, trazendo boas notícias sobre a fé e o amor de vocês” (1Ts 3,6). Paulo envia a boa-notícia, mas permanece atento às “novidades” que chegam de seus destinatários. Dessa maneira constrói relações sólidas que criam “comunhão”.

 

2.4. Linguagem correta em canais adequados

Paulo nasceu aproximadamente no ano 10 da era cristã, em Tarso da Cilícia, uma cidade grande para a época, com cerca de 300 mil habitantes. Conhecia muito bem a cultura urbana, de modo particular a linguagem e as necessidades das pessoas. Essa experiência — associada ao uso dos recursos de comunicação, entre os quais se incluem as estradas e a navegação — contribuiu para a difusão do evangelho.

Mesmo os momentos mais difíceis, como o período em que passou na prisão, não desanimaram o apóstolo em sua missão de “comunicar”. Podia estar no cárcere, mas tinha absoluta certeza de que não havia motivos para a palavra de Deus estar algemada (2Tm 2,9). Fazia o possível para que a boa-notícia chegasse aonde ele, por algum impedimento, não podia estar presente. E a fazia chegar com os recursos de comunicação da época, como as cartas escritas, dirigidas a alguns de seus colaboradores mais próximos ou às comunidades.

Paulo tinha noção do alcance de uma carta. Sabia que uma mesma mensagem escrita podia atingir muitas pessoas e comunidades. Tal estratégia pode ser percebida na recomendação feita aos colossenses: “Depois que vocês lerem esta carta, façam que seja lida também na Igreja de Laodiceia. E vocês leiam a de Laodiceia” (Cl 4,16).

Outro detalhe é o que se refere à adequação da linguagem ao destinatário. Paulo tinha a capacidade de adaptar o evangelho à linguagem do contexto cultural em que vivia. Recordamos que Jesus era um homem do campo. Nas parábolas usa termos como semente, ovelha, videira, pastor. Paulo, originário do meio urbano, utiliza palavras empregadas nas cidades, por exemplo, estádios, competições esportivas, desfiles, armaduras.

Enquanto Jesus anuncia a boa-notícia pelas estradas, nos montes, à beira de lagos, Paulo prega nas praças de grandes cidades. O livro dos Atos dos Apóstolos testemunha que, depois de Paulo ter pregado em numerosos lugares, se dirige ao areópago, onde anuncia o evangelho, utilizando uma linguagem adequada e compreensível naquele ambiente (cf. At 17,22-31). O areópago representava, no seu tempo, o centro da cultura do douto povo ateniense. Buscando a linguagem correta e os meios adequados, Paulo procurou responder às exigências de seu tempo.

 

3. Conclusão

Sem dúvida, Paulo foi um grande comunicador, não obstante as dificuldades que encontrou. Não foi um comunicador “espetacular”. Seu estilo não se assemelhava ao dos evangelizadores que, em sua época, procuravam mais mostrar-se a si mesmos do que anunciar o evangelho. Podemos entender a “comunicação” em Paulo como a busca constante de criar “comunhão”. Nessa inter-relação, evangelizava. Ou melhor, sua forma de comunicar fazia parte da evangelização.

Muitos homens e mulheres de Igreja buscaram em Paulo a inspiração para o trabalho pastoral com a comunicação. Um deles, o Bem-aventurado Tiago Alberione (1884-1971), intuiu, em 1914, que uma das necessidades de seu tempo era justamente a utilização dos meios técnicos mais rápidos e eficazes para chegar aos que “estavam distantes” — aqueles que não participavam da vida das comunidades. Fundou um conjunto de congregações e institutos, a Família Paulina, da qual fazem parte duas instituições voltadas exclusivamente para a comunicação: a Sociedade de São Paulo (Padres e Irmãos Paulinos) e a Pia Sociedade Filhas de São Paulo (Irmãs Paulinas).

Em 1960, ainda antes do Concílio Vaticano II, que tratou de maneira positiva os instrumentos de comunicação, Alberione escrevia: “Se São Paulo vivesse hoje, continuaria a inflamar-se com aquela chama de um mesmo incêndio: o zelo por Deus e pelo seu Cristo, e pelos homens de todas as nações. E para ser mais ouvido falaria dos púlpitos mais altos e multiplicaria sua palavra com os meios do progresso atual: imprensa, cinema, rádio, televisão” (CISP 1.152).

Nas últimas décadas, a Igreja foi descobrindo o mundo da comunicação como o primeiro areópago dos tempos modernos que está unificando a humanidade e transformando-a em uma “aldeia global”. De fato, os meios de comunicação se tornaram o principal instrumento informativo e formativo que influencia, em alguma medida, os comportamentos sociais e individuais e condiciona as novas gerações.[3]

O Documento de Aparecida ressalta, porém, que não basta ter nas mãos os instrumentos de comunicação social. Reconhece que muitas vezes as linguagens utilizadas na evangelização e na catequese não levam em consideração a mutação dos códigos existencialmente relevantes nas sociedades influenciadas pela pós-modernidade e marcadas por amplo pluralismo social e cultural. Admite que a Igreja tem ainda dificuldade de entrar na cultura gerada pelos meios de comunicação.[4]

Paulo continua a ser inspiração para todos os que acreditam na evangelização com as novas tecnologias da comunicação. Soube usar os meios mais rápidos e eficazes de seu tempo com linguagem adequada, sem perder a dimensão humanista, que inclui o contato pessoal. Dele aprendemos que não existe Igreja sem comunicação.

À luz da vida de Paulo, terminamos esta reflexão com algumas indagações: imersos na cultura da comunicação, dominada por interesses do mercado, qual o verdadeiro movente quando o assunto é evangelização? Num mundo marcado pela comunicação instrumental, que espaço é dado à comunicação interpessoal? Como recuperar a dimensão humanista e cristã da comunicação?

Fonte: Revista Vida Pastoral

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A comunicação do Evangelho de Paulo https://soucatequista.com.br/a-comunicacao-do-evangelho-de-paulo/ https://soucatequista.com.br/a-comunicacao-do-evangelho-de-paulo/#respond Wed, 12 Feb 2014 12:00:15 +0000 https://soucatequista.com.br/?p=38436 INTRODUÇÃO

Quem é cristão praticante pode, interessando-se pela vida e pelo ensinamento de são Paulo, melhorar a própria fé? Quem não tem fé, mas está disposto a afrontar o problema da fé, pode encontrar na atividade e nas cartas de são Paulo uma ajuda interessante? O estilo de vida de são Paulo, seu pensar e existir, pode ser, também hoje, um exemplo original de fé? Mesmo num contexto totalmente diferente, a forma de são Paulo crer em Cristo pode ser modelo de uma fé fascinante? Entre os inumeráveis pontos de vista dos quais se pode observar a complexa personalidade de são Paulo, é lícito também deter-se sobre “a qualidade da comunicação” que permitiu ao apóstolo descobrir Cristo, a ponto de considerá-lo o único sentido de sua vida e propô-lo com paixão a muitos mediante corajosas viagens missionárias e numerosas cartas.

 

1. “Tornei-me tudo para todos”

A intensidade da comunicação que flui de Cristo para Paulo e deste aos seus ouvintes e leitores pode ser encontrada em alguns trechos de suas cartas.

Ainda que livre em relação a todos, fiz-me o servo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. Para os judeus fiz-me como judeu a fim de ganhar os judeus. Para os que estão sujeitos à Lei, fiz-me como se estivesse sujeito à Lei — se bem que não esteja sujeito à Lei —, para ganhar aqueles que estão sujeitos à Lei. Para aqueles que vivem sem a Lei fiz-me como se vivesse sem a Lei — ainda que não viva sem a lei de Deus, pois estou sob a lei de Cristo —, para ganhar aqueles que vivem sem a Lei. Para os fracos, fiz-me fraco, a fim de ganhar os fracos. Tornei-me tudo para todos a fim de salvar alguns a todo custo. E isto tudo eu faço por causa do evangelho, para dele me tornar participante (1Cor 9,19-23).

 

Paulo tornou-se “tudo para todos” na pregação do evangelho. Sua comunicação sobre Cristo compreende, como elemento necessário, a identidade específica de quantos o escutam ou leem. Sua adequação da palavra e da escrita ao público específico ao qual se dirige é componente indispensável para “salvar alguns a qualquer custo”. Uma comunicação somente preocupada com a realização de um dever (por parte de quem formula a mensagem) ou obcecada pelo conteúdo da mensagem a ser transmitida não constitui a comunicação evangelizadora de são Paulo. Não é suficiente ter autoridade para falar, tampouco possuir a integralidade e a pureza de todos os conteúdos a ser ditos; a validade da mensagem de Cristo é proporcional à capacidade de entender de quem escuta ou lê. Para ser compreendido, não basta falar.

Quem aprofunda sua fé ou está em busca da fé pensa e age com sua personalidade e espera encontrar uma ajuda que saiba adequar-se às suas exigências. Se encontrar somente alguém ou alguma coisa que exprime uma fé que parece fazer diminuir os fiéis, tem a impressão de ter entrado em contato com uma ideologia incontestável, com um sistema filosófico exaustivo ou com uma pessoa fanática. Talvez a formulação e a elaboração das verdades de fé sejam argumentadas e expostas com inteligência. Talvez as tomadas de posição práticas sejam consequentes e constantes, mas não permitem à outra pessoa mostrar interesse e prazer em saber mais ou desejar torná-las próprias. Trata-se de uma comunicação muito voltada para si mesma, fruto de uma mentalidade muito defensiva da verdade, vinculada a um agir concreto, agressivo e intolerante em direção ao que seja diferente. Não existe lugar para o outro, carente e titubeante, numa fé que seja somente um sistema de ideias bem organizadas, ritos cada vez mais misteriosos ou regras operativas que não admitem discussão. Quem deseja um aprofundamento ou está em busca quer, em primeiro lugar, uma resposta aos problemas que põe e a como os põe e não a transformação de suas expectativas e perguntas em linguagens que, de fato, não preveem perguntas nascidas no decorrer da história.

Pode-se observar a vida de são Paulo e ler as cartas com o critério que motiva toda sua comunicação: Cristo, morto e ressuscitado, é a salvação para todos. A pregação universal desse “evangelho” deve realizar-se unindo, de forma fecunda, a pessoa de Cristo e a capacidade comunicativa do público que acolhe o anúncio. Para são Paulo, e para a Igreja de todos os tempos, seria um fracasso comunicativo deformar a pessoa de Cristo, mas também seria uma comunicação estéril deformar a identidade do público, pessoas que vivem num contexto cultural bem particular e se interrogam de forma inédita sobre sua fé.

 

2. “Quando sou fraco, então é que sou forte”

São Paulo, a quantos diminuem sua identidade religiosa ou seu encargo de apóstolo de Cristo, num momento de “loucura”, comparando-se a outros, enumera a riqueza de sua fé, judaica e cristã, e as dificuldades em propô-la aos demais:

São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São descendentes de Abraão? Também eu. São ministros de Cristo? Como insensato digo: muito mais eu. Muito mais pelas fadigas; muito mais, pelas prisões; infinitamente mais, pelos açoites. Muitas vezes, vi-me em perigo de morte. Dos judeus recebi cinco vezes os quarenta golpes menos um. Três vezes fui flagelado. Uma vez, apedrejado. Três vezes naufraguei. Passei um dia e uma noite em alto-mar. Fiz numerosas viagens. Sofri perigos nos rios, perigos por parte dos ladrões, perigos por parte dos meus irmãos de estirpe, perigos por parte dos gentios, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos por parte dos falsos irmãos. Mais ainda: fadigas e duros trabalhos, numerosas vigílias, fome e sede, múltiplos jejuns, frio e nudez. E isto sem contar o mais: a minha preocupação cotidiana, a solicitude que tenho por todas as Igrejas. Quem fraqueja sem que eu também me sinta fraco? Quem cai sem que eu também fique febril? (2Cor 11,22-29).

 

A esse elenco segue-se a enumeração das visões e das revelações do Senhor (2Cor 12,2-10), das quais são Paulo poderia vangloriar-se para justificar sua profunda fé e a aprovação divina à sua atividade apostólica.

Como conclusão à descrição detalhada de sua identidade, de suas fadigas e das revelações recebidas, são Paulo apresenta a única coisa pela qual deseja gabar-se: “Se é preciso gloriar-se, de minha fraqueza é que me gloriarei” (2Cor 11,30); pois “quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). “Mas pela graça de Deus sou o que sou: e sua graça a mim dispensada não foi estéril. Ao contrário, trabalhei mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo” (1Cor 15,10).

A comunicação do evangelho em são Paulo é “fraca”, realiza-se em condições que, humanamente falando, podem ser avaliadas como insólitas e insignificantes em comparação ao efeito que almejam alcançar de “salvar alguns a qualquer custo”.

São Paulo comunica o evangelho com uma pregação que não utiliza elaboradas construções mentais ou linguagem refinada; argumentos ou elaboração retórica também não se fazem presentes em sua exposição. Em um contexto cultural onde a comunicação do saber e a proposta da religião são confiadas ao poder de convicção sobre os temas tratados e à utilização de uma linguagem refinada, são Paulo, por escolha, anuncia o Cristo morto e ressuscitado com palavras e discursos simples.

Os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas, para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus (1Cor 1,22-24).

Eu mesmo, quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com o prestígio da palavra ou da sabedoria para vos anunciar o mistério de Cristo. Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. Estive entre vós cheio de fraqueza, receio e tremor; minha palavra e minha pregação nada tinham da persuasiva linguagem de sabedoria, mas eram uma demonstração de Espírito e poder, a fim de que a vossa fé não se baseie sobre a sabedoria dos homens, mas sobre o poder de Deus (1Cor 2,1-5).

 

Outra escolha original expõe Paulo a críticas que põem em dúvida o valor de sua pregação: não querer nenhuma retribuição.

Da mesma forma, o Senhor ordenou àqueles que anunciam o evangelho que vivam do evangelho. Da minha parte, porém, não me vali de nenhum desses direitos […]. Qual é então o meu salário? É que, pregando o evangelho, eu o prego gratuitamente, sem usar dos direitos que a pregação do evangelho me confere. Ainda que livre em relação a todos, fiz-me o servo de todos, a fim de ganhar o maior número possível (1Cor 9,14-15.18-19).

 

Poder-se-iam acrescentar outras escolhas que Paulo faz para garantir ao máximo a eficácia de sua comunicação junto ao público: “Tudo suportamos, para não criar obstáculo ao evangelho de Cristo” (1Cor 9,12).

Aos que desejam aprofundar sua fé e aos que decidem interessar-se por ela, a comunicação da fé nunca se reduz a um conteúdo, privado de seu contexto; o contato com a pessoa de Cristo é mediado por um conjunto comunicativo que inclui, com certeza, conteúdos precisos, mas apresentado de determinada maneira e por pessoas concretas.

Bem consciente de que sua pessoa e as formas de sua pregação podem ter influência sobre a relação que se estabelece entre Cristo morto e ressuscitado e os ouvintes e leitores, o apóstolo escolhe o caminho da “fraqueza”, deixando ao “poder” de Deus o valor e o resultado da incapacidade humana.

A história do cristianismo documenta tanto momentos felizes de uma evangelização que confia na “força da fraqueza” quanto pessoas, épocas, iniciativas eclesiais que apelam à “fraqueza da força”, com resultados, muitas vezes, deploráveis.

Quem se interessa pela fé percebe claramente alguns obstáculos que, nem sempre de forma consciente ou desejada, caracterizam certa comunicação do evangelho.

A experiência da fé não pode ser estimulada a crescer ou nascer quando vem a reboque de uma evangelização que apresenta um Cristo fragmentado, que cria um desequilíbrio ou, de forma excessiva, sublinha somente as verdades da fé, ou os ritos e celebrações, ou os deveres éticos.

Uma comunicação do evangelho viciada por um estilo de vida em plena contradição com o que é anunciado, pela manifestação explícita dos interesses pessoais e de vontade de poder social e cultural, pela busca angustiada de uma proposta de fé com maior motivação na preocupação em criar adeptos mediante a astúcia humana, constitui alguns dos impedimentos para chegar à verdadeira fé.

Escolher a “fraqueza” na comunicação e na recepção do evangelho segundo o exemplo de são Paulo significa considerar a experiência de Cristo como um dom do Espírito, e não o resultado automático de conflitos dialéticos, de uma espiritualidade feita somente de práticas sacramentais e de uma ética de imperativos moralistas.

 

3. “Devemos anunciar o evangelho aos gentios”

O encontro com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco é vivido por Paulo como a vocação para uma missão: comunicar o evangelho a quantos não acreditam em Deus. A consciência desse encargo é expressa com clareza: “Quando, porém, aquele que me separou desde o seio materno e me chamou por sua graça houve por bem revelar em mim o seu Filho, para que eu o evangelizasse entre os gentios” (Gl 1,15-16). Deus revela seu Filho, Jesus, a Paulo para que este o comunique aos gentios.

A missão confiada a Paulo constitui uma abertura a novos destinatários: “[…] em virtude da graça que me foi concedida por Deus de ser um ministro de Cristo Jesus para os gentios, a serviço do evangelho de Deus, a fim de que a oblação dos gentios se torne agradável, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15,16). Mas suas fadigas são obra de Cristo: “[…] pois eu não ousaria falar de coisa que Cristo não tivesse realizado por meio de mim para obter a obediência dos gentios em palavras e ações” (Rm 15,18).

A convicção de ter recebido de Deus o encargo de comunicar o evangelho aos gentios influi sobre a compreensão que Paulo tem a respeito dos que eram apóstolos antes dele e sobre a forma particular de realizar a evangelização diante de um público novo.

A obra de Pedro e dos outros apóstolos que viveram com Cristo toma, em Jerusalém, a forma de uma experiência de Cristo morto e ressuscitado em continuidade com a fé e as práticas religiosas hebraicas: é um judeo-cristianismo vivido sobretudo por judeus que se abrem à fé em Cristo.

Alguns cristãos saídos da Palestina, espontaneamente ou obrigados, vivendo em um contexto helenista, dão vida em Antioquia a um cristianismo sensível aos que, sendo judeus da diáspora e, sobretudo, gentios, se convertem a Cristo.

Barnabé, enviado expressamente pelos apóstolos e pelos cristãos de Jerusalém para tomar conhecimento do cristianismo vivido em Antioquia, fica impressionado e logo vai procurar Paulo, que se havia refugiado em sua pátria, a fim de uni-lo à comunidade cristã antioquena, que prega e vive a fé em Cristo com atenção a quantos estão distantes, um pouco ou totalmente, das práticas do judaísmo de Jerusalém.

Evangelizar os gentios não é a mesma coisa que evangelizar os judeus, pois estes provêm de experiências religiosas completamente diversas. A comunidade de Antioquia percebe a grande dificuldade dos gentios convertidos ao cristianismo em assumir tudo o que, primeiramente, o judaísmo incluía para uma vida de fé: circuncisão, prática minuciosa de todos os preceitos da Lei, aceitação da mentalidade particular com a qual foi vivida a fé hebraica durante séculos.

Com a difusão do cristianismo aos gentios, o modo judeu-cristão e o modo antioqueno-helenista de viver se impõem a ponto de tornar necessária uma avaliação radical. São Paulo mesmo nos informa sobre a discussão ocorrida em Jerusalém entre os representantes qualificados daquela comunidade e os enviados pela comunidade antioquena:

Subi em virtude de uma revelação e expus-lhes — em forma reservada aos notáveis — o evangelho que prego entre os gentios, a fim de não correr, nem ter corrido, em vão. […] nada me acrescentaram. Pelo contrário, vendo que a mim fora confiado o evangelho dos incircuncisos como a Pedro dos circuncisos, pois aquele que estava operando em Pedro para a missão dos circuncisos operou também em mim em favor dos gentios […] nós pregaríamos para os gentios e eles para a circuncisão (Gl 2,2-9).

 

Todo trabalho evangelizador de Paulo é marcado pela determinação de permitir também aos pagãos uma experiência particular de Cristo. Trata-se de esforço de comunicação que envolve todo o processo comunicativo: o comunicador e os conteúdos da comunicação em sua integralidade em função da salvação dos destinatários gentios.

Entre os elementos mais visíveis da diversidade pedida está a inutilidade da circuncisão e das práticas minuciosas da Lei:

Atenção! Eu, Paulo, vos digo: se vos fizerdes circuncidar, Cristo de nada vos servirá. Declaro de novo a todo homem que se faz circuncidar: ele está obrigado a observar toda a Lei. Rompestes com Cristo, vós que buscais a justiça na Lei; caístes fora da graça. Nós, com efeito, aguardamos, no Espírito, a esperança da justiça que vem da fé. Pois, em Cristo Jesus, nem a circuncisão tem valor nem a incircuncisão, mas a fé agindo pela caridade (Gl 5,2-6).

 

Aprofundar as escolhas comunicativas feitas por são Paulo, em meio aos conteúdos da fé, para anunciar o evangelho aos gentios é permanente ajuda na história do cristianismo para evitar qualquer enrijecimento ou saudade do passado que possam transformar-se, por analogia, em um confronto dialético parecido com aquele entre judeo-cristianismo e o cristianismo antioqueno. Com a qualidade de sua comunicação evangelizadora, são Paulo apresenta-se em todos os tempos como permanente corretivo ao enfraquecimento ou à ameaça de desaparecimento da universalidade de Cristo.

Para quem deseja cultivar sua fé ou se interessa em descobri-la, é uma consolação saber que, no exemplo de são Paulo, a experiência de Cristo se mostra possível tanto “aos judeus como aos gentios”, que podem ser individuados nas pessoas e nos ambientes culturais e de vida atuais. A identidade de quem quer fazer experiência de Cristo com são Paulo é valorizada a tal ponto, que também a maneira de propor e viver a fé sofre adequada reelaboração e renovação.

 

4. “Levo-os no coração”

“Ai de mim se eu não anunciar o evangelho!” (1Cor 9,16), são Paulo reconhece abertamente; por isso ele exercita não um “trabalho” autônomo, mas cumpre um “encargo” recebido por Deus. A intensidade do encontro com Cristo ressuscitado incide também em sua missão, transformando-a em um testemunho que o envolve — em algo bem diferente de uma obra à parte, assemelhada ao trabalho de um mercenário. A “paixão” em comunicar o evangelho brota da convicção de ter recebido de Deus um dom inesperado; como de surpresa experimentou o Cristo, assim entendeu que o evangelho é destinado a todos numa dimensão de universalidade.

Facilmente se pode encontrar em são Paulo uma comunicação “apaixonada”, não no sentido de fanatismo, mas como envolvimento emotivo de toda a pessoa.

Apresentamo-nos no meio de vós cheios de bondade, como uma mãe que acaricia os seus filhinhos. Tanto bem vos queríamos que desejávamos dar-vos não somente o evangelho de Deus, mas até a própria vida, de tanto amor que vos tínhamos (1Ts 2,7-9);Bem sabeis que exortamos a cada um de vós como um pai exorta a seus filhos, nós vos exortávamos, vos encorajávamos e vos conjurávamos a viver de maneira digna de Deus, que vos chama ao seu reino e à sua glória (1Ts 1,11-12).

Nós, porém, irmãos, privados por um momento de vossa companhia, não de coração, mas só de vista, desejávamos muito vos rever (1Ts 2,17).

E é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos tenho no meu coração. […] Deus me é testemunha de que eu vos amo a todos com a ternura de Cristo Jesus (Fl 1,7-8).Não é estreito o lugar que ocupais em nós, mas é em vossos corações que estais na estreiteza. […] Acolhei-nos em vossos corações. A ninguém causamos injúria, a ninguém pervertemos, a ninguém exploramos (2Cor 6,12; 7,2-3).

 

A relação que se estabelece na comunicação do evangelho entre Paulo e os cristãos das várias comunidades por ele fundadas é “afetuosa”: como entre mãe, pai e filhos; como entre pessoas queridas; como quem tem saudade e deseja ver rostos amados.

Essa ternura de Paulo pode surpreender, sobretudo quando se olha para certas representações que o reproduzem sisudo, irritado e punitivo ou quando se leem alguns trechos de suas cartas que parecem drásticos e não abrem espaço para a discussão. “Que preferis? Que eu vos visite com vara ou com amor e em espírito de mansidão?” (1Cor 4,21).

Uma leitura mais global das cartas de são Paulo nos permite reencontrar um estilo de comunicação que cria um laço — diferente de outro que queira somente garantir a “fria” passagem de uma mensagem em sentido único, sem a preocupação “quente” de saber o que o destinatário entende ou faz.

O envolvimento emotivo de Paulo é exemplo para uma comunicação do evangelho que não seja um “trabalho” a ser praticado com profissionalismo ou um “dever” a ser executado contra a vontade. A comunicação “apaixonada”, todavia, não se esgota na manifestação explícita dos sentimentos por parte do pregador do evangelho, mas engloba também os sentimentos manifestados pelos que recebem o anúncio.

A carência de emotividade não sobressai apenas na ausência de expressões afetuosas, mesmo úteis e necessárias, mas se percebe de forma evidente quando a mensagem do evangelizador é somente o espelho dos próprios sentimentos, desejos e vontade. Numa comunicação do evangelho em que não se prevê o destinatário em carne e osso, deste lugar ou neste tempo, faltam as condições para suscitar ou acrescer o interesse por Cristo.

Às vezes, tem-se a impressão de que alguns conteúdos de evangelização tenham sido simplesmente pensados e escritos, “inventando-se” um ouvinte ou um leitor que já não existe ou, de qualquer modo, não é o destinatário que se deseja alcançar ou envolver. Em são Paulo, a evangelização é comunicação “encarnada”, não uma formulação árida da inteligência. A seguinte passagem é esclarecedora: “Cheguei então a Trôade para lá pregar o evangelho de Cristo e, embora o Senhor me tivesse aberto uma porta grande, não tive repouso de espírito, pois não encontrei Tito, meu irmão. Por conseguinte, despedi-me deles e parti para a Macedônia” (2Cor 2,12-13).

Uma comunicação que faz “vibrar” o comunicador, a mensagem e os destinatários é a que provoca uma resposta emotiva do destinatário, se derrama sobre a mensagem e retorna ao mensageiro, criando diálogo integral. É uma pretensão compelir o Espírito, comunicando o evangelho sem envolver os afetos que entram em jogo.

 

5. “Sejam meus imitadores”

Em algumas de suas cartas, são Paulo convida os cristãos das igrejas por ele fundadas a imitá-lo: “Sede meus imitadores, irmãos, e observai os que andam segundo o modelo que tendes em nós” (Fl 3,17). E em outro lugar: “Sede meus imitadores, como eu mesmo o sou de Cristo” (1Cor 11,1). De forma diferente: “Vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar das numerosas tribulações; de sorte que vos tornastes modelo para todos os fiéis da Macedônia e da Acaia” (1Ts 1,6).

Aos cristãos, são Paulo indica particular experiência da pessoa de Cristo: não simples “seguimento”, mas “imitação”. Aderir a Cristo não se reduz, de fato, a fazer parte de um grupo que se identifica com suas ideias e projetos, mas envolve uma relação interpessoal sustentada pelo empenho de assemelhar-se a ele em tudo.

O fato de propor-se como exemplo não é presunção, mas uma forma de comunicação do evangelho: imitar são Paulo, que imita Cristo, é imitar o mesmo Cristo. O contato com o Cristo ressuscitado não é direto, mas mediado pela pessoa de Paulo; o encontro entre Paulo e Cristo pode ser observado nas suas consequências, na maneira de pensar e agir do apóstolo: “Pois para mim o viver é Cristo” (Fl 1,21).

Sua mudança radical no viver a fé é posta em relação direta com Cristo; após ter falado de todos os aspectos positivos que tinha como observante da Lei, Paulo afirma: “Mas o que era para mim lucro eu o tive como perda, por amor de Cristo. Mais ainda: tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo a justiça da Lei, mas a justiça que vem de Deus, apoiada na fé” (Fl 3,7-9). Essa polarização na pessoa de Cristo é vivida por Paulo como uma identificação: “Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Fl 2,19-20).

A identificação de Paulo com Cristo não é uma fusão que despersonaliza, como se fosse um plágio que tira a autonomia da identidade, mas trata-se da assimilação de uma partilha total. São Paulo interpreta a sua vida à luz do acontecimento de Cristo: crucifixão, morte e ressurreição. Comparando-se a um atleta que corre, explica o sentido do seu correr: “Não que eu já o tenha alcançado ou que seja perfeito, mas vou prosseguindo para ver se o alcanço, pois que também já fui alcançado por Cristo Jesus” (Fl 3,12).

A constante fadiga para imitar a Cristo é decorrente da comunicação do evangelho: “Graças sejam dadas a Deus, que por Cristo nos carrega sempre em seu triunfo e, por nós, expande em toda parte o perfume do seu conhecimento. Em verdade, somos para Deus o bom odor de Cristo, entre aqueles que se salvam e aqueles que se perdem” (2Cor 2,14-15). Sendo impregnada do bom odor de Cristo, a comunicação do evangelho realizada por Paulo se expande ao redor como o aroma de um perfume. O método de evangelização de Paulo não é nem a lógica pura, que dobra a inteligência dos outros, nem um hábil discurso enganoso por interesses pessoais, mas se trata de um testemunho comparado a um perfume.

Desde sempre o aprofundamento e a busca da fé encontram uma ajuda particular nas pessoas que são testemunhas viventes dos efeitos do acreditar em Cristo. Com razão, Paulo VI escreve: “O homem contemporâneo escuta com mais gosto testemunhas que mestres ou, se escuta os mestres, é porque se trata de testemunhas” (Evangelii Nuntiandi, 8/12/1975, n. 41).

A história do cristianismo é rica, em cada época, de pessoas de fé que souberam assimilar Cristo com tamanha profundidade, que se transformaram em uma forma bem visível de comunicação da fé. É mais eficaz dar-se conta do significado da fé encontrando pessoas impregnadas de Cristo que mergulhando num tratado de teologia.

Visto que a comunicação da fé por meio do testemunho de quem acredita é desde sempre incluída entre as formas de evangelização, revela-se uma maneira adequada também para a evangelização por meio das tecnologias da comunicação atual. Falar de forma explícita de Cristo por meio do jornalismo, da imprensa, das imagens, dos produtos multimidiáticos e da comunicação em rede pede visibilidade, narração e sintonia com o público.

Usada de forma narrativa, a comunicação da fé, sobretudo com a comunicação midiática, multimidiática e em rede, é, por um lado, para a comunidade dos que acreditam, garantia de que o evangelho se tornou “vida”, encarnando-se na história das pessoas; por outro lado, no universo da comunicação atual, é uma forma de proposta que pode prever maior aceitação por parte do público.

Existe outro ensinamento que pode ser tirado da comunicação do evangelho de são Paulo e convida os cristãos a imitá-lo. Além de propor-se como “imagem viva” de Cristo, o apóstolo, em suas cartas, não faz uma exposição sistemática das verdades e das consequências operativas do acreditar em Cristo. Com habilidade comunicativa, seu método habitual é saber individuar a realidade problemática de uma pessoa ou de uma comunidade cristã e saber interpretá-la com sua experiência de Cristo morto e ressuscitado. Suas cartas, desse modo, mais que um evangelho de afirmações gerais e de sábias sentenças, são uma aplicação dos valores cristãos em cada circunstância. A fé é assim envolvida nas realidades da vida cotidiana; por isso é possível, partindo do episódio concreto, remontar aos grandes ensinamentos e à centralidade da pessoa de Cristo.

Todas as formas de evangelização e qualquer aprofundamento e busca da fé dão fruto se assumem plenamente a vida concreta, sabendo interpretá-la à luz da pessoa de Cristo. Para alcançar resultados úteis, é indispensável saber conjugar, com idêntica competência, a indispensável referência a Cristo e o imprescindível conhecimento das pessoas e dos problemas humanos.

É tarefa dos que acreditam não só falar de forma explícita de Cristo, mas também saber interpretar e expor todo aspecto da vida pessoal e social à luz do evangelho. A comunicação do evangelho por meio do “testemunho de valores” encontra, na participação do debate da opinião pública, a qual se realiza nas várias formas de comunicação atual, um espaço ideal a ser valorizado. Nesse âmbito, a fé cristã não se reduz ao espetáculo de alguma personagem ou a acontecimentos que representam mínima parte da religião, mas se torna uma proposta de interpretação e de solução dos problemas da vida cotidiana à luz de Cristo.

São Paulo, de fato, representa um estilo de vida cristã que compreende um pensar e um agir bem específicos na comunidade cristã do começo; por essa razão, na história da Igreja, esse apóstolo permanece um modelo de referência, sobretudo nos momentos de revisão e de novo impulso da evangelização, quando é preciso responder às mudanças ocorridas nas pessoas e na sociedade. A universalidade da comunicação de Cristo é confiada, de forma complementar, ao serviço da unidade de Pedro e à coragem da diversidade de Paulo.

Quando o bem-aventurado Tiago Alberione (1884-1971) iniciou a Sociedade de São Paulo para, de modo progressivo, evangelizar com a imprensa, com os mass media, com a multimídia e a comunicação em rede, foi fortemente motivado também por uma frase de Dom Wilhem von Ketteler (1811-1877), arcebispo de Magonza: “Se são Paulo voltasse a este mundo, tornar-se-ia jornalista”.

A partir do Concílio Vaticano II (1962-1965), a Igreja manifestou a decidida vontade de viver o programa de são Paulo: “Lanço-me para a frente” (Fl 3,13). “A Igreja católica não é um museu de arqueologia. É a antiga fonte do lugar que dá água às gerações de hoje, como a deu no passado” (João XXIII, 13 de novembro de 1960).

Fonte: Revista Vida Pastoral

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A conversão de Paulo https://soucatequista.com.br/a-conversao-de-paulo/ https://soucatequista.com.br/a-conversao-de-paulo/#respond Tue, 26 Jul 2011 01:05:29 +0000 https://soucatequista.com.br/?p=4440 Objetivos
SABER que mostramos o amor de Deus quando servimos os outros.
SENTIR desejo de servir os outros.
RESPONDER procurando maneiras para revelar o amor de Deus através do serviço a outros.

Oração inicial

Acolhida

Partindo do concreto

Dinâmica: Passar amor

OBJETIVO: A brincadeira do Passa Amor pode ser utilizada nos encontros que falem sobre partilha, valorização da pessoa humana, sobre o Sagrado Coração de Jesus etc.

MATERIAL: Confeccione um coração de cartolina em um tamanho que fique escondido no meio de nossas mãos (pode se escrever Jesus no centro do coração).

COMO DESENVOLVER: Essa dinâmica na verdade é o conhecido Passa anel, só que em vez de passarmos um anel iremos passar um coração. Sorteia-se a criança que via passar o coração.

As outras sentam-se lado a lado, com as mãos fechadas (como para rezar) no colo.

A que está com o coração entre as palmas das mãos começa a passá-lo, ou seja, finge que põe o coração na mão de cada um dos participantes, na verdade, só deixa cair na mão de um.

Quando acaba, abre as mãos mostrando que já não está mais com o coração. Ao terminar, a criança pergunta a um dos participantes: quem está com Jesus no coração? Se a criança acertar, vai passá-lo na vez seguinte.

Dessa forma a criança aprende brincando que Jesus está em todas as pessoas e que é necessário enxergamos sua presença no irmão, todas as pessoas podem partilhar amor.

A chave
Como posso demonstrar que amo Jesus?

História
A CONVERSÃO DE PAULO

Explicação
A conversão de Saulo para Paulo é um grande fenômeno que acontece em sua vida. Ele se transformou num grande evangelizador e missionário. Faz varias viagens para proclamar as maravilhas de Deus que se manifestou em Jesus Cristo.

Atividade
Colorir o desenho.

Guardando
“Quando me sinto fraco, então é que sou forte.”

Encerramento

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Profissão de fé https://soucatequista.com.br/profissao-de-fe/ https://soucatequista.com.br/profissao-de-fe/#respond Wed, 26 Jan 2011 20:04:40 +0000 https://soucatequista.com.br/?p=2343 Por: DOM PAULO MENDES PEIXOTO
BISPO DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO – SP
www.bispado.org.br

Duas personalidades bíblicas, Pedro e Paulo, unidos por um ideal comum, o seguimento dos princípios de Jesus Cristo, mas com estruturas pessoais totalmente diversas. Ambos conviveram com as realidades que anunciavam, a justiça e a verdade, e morreram por elas.

Pedro e Paulo foram martirizados em Roma, um representando a Instituição, a Igreja, e o outro, testemunhando a missão. Os dois são definidos como colunas mestras da Igreja, porque lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro, revelando uma profunda profissão de fé.

Como seguidores de Jesus Cristo, esses dois apóstolos se destacaram como homens do serviço, trabalhando pela liberdade das pessoas, promovendo a vida e rejeitando todas as formas de opressão e morte. Este é o fundamento da ação de todo aquele que se coloca na posição de líder numa comunidade de pessoas.

Toda liderança supõe despojamento e renúncias importantes. O alvo principal não deve ser a pessoa do líder, mas o objetivo definido como ação. Sempre está em jogo o bem comum e o bem das pessoas. Se o foco for o bem próprio, esse líder está traindo a sua missão, podendo estar também desviando o bem público.

Olhando para o sofrimento de Pedro e Paulo, imaginamos o sofrimento do povo hoje, numa realidade tão próspera, mas mal conduzida pelo despreparo e pela baixa preocupação com o bem dos mais sofridos. Sentimos a síndrome da política suja, sem perspectiva e sem esperança. Até a ficha limpa está já sendo burlada.

Pedro e Paulo cumpriram sua liderança com fidelidade até a morte. Tiveram coragem de enfrentar os sofrimentos e as perseguições, sempre marcados pela esperança de vida nova. Conseguiram motivar o povo desanimado e decepcionado com outras lideranças sem compromisso.

Estamos no mundo das divergências, de pensamentos detonantes liderados até por pessoas mal intencionadas, motivadas por conquista de poder ou de dinheiro. Líderes que se deixam levar pela injustiça, pela droga, a violência, a permissividade, a cultura da morte, a ganância, a falta de ética na política. Não é este o ideal do verdadeiro líder que desejamos para o país.

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