REFLEXÃO BÍBLICA – Sou Catequista https://soucatequista.com.br Milhares de Artigos dos mais variados temas da Igreja Católica para a sua Catequese, Cursos, Downloads e muito mais! Fri, 30 Aug 2024 15:23:30 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://soucatequista.com.br/wp-content/uploads/2024/10/cropped-ico-1-32x32.png REFLEXÃO BÍBLICA – Sou Catequista https://soucatequista.com.br 32 32 “VENDE TUDO O QUE TENS E DÁ AOS POBRES, DEPOIS VEM E SEGUE-ME!” (MC 10,17-30) https://soucatequista.com.br/vende-tudo-o-que-tens-e-da-aos-pobres-depois-vem-e-segue-me-mc-1017-30/ https://soucatequista.com.br/vende-tudo-o-que-tens-e-da-aos-pobres-depois-vem-e-segue-me-mc-1017-30/#respond Fri, 30 Aug 2024 15:23:30 +0000 https://revistaavemaria.com.br/?p=75156 No texto, diversas pessoas se aproximam de Jesus para pedir uma palavra, a resolução de alguma situação: o jovem rico, os discípulos, Pedro. 

O texto descreve a conversão progressiva que, segundo o convite de Jesus, deve ocorrer na nossa relação com os bens materiais e com as pessoas. Marcos situa esse texto quando Jesus caminha em direção a Jerusalém, onde será crucificado (cf. Mc 8,27; 9,30.33; 10,1.17.32). Ele está pronto para entregar sua vida e sabe que em breve será morto, mas, não volta atrás. Diz: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10,45). Essa atitude de fidelidade e dedicação à missão recebida do Pai autoriza-o a poder dizer o que é realmente importante na vida. As recomendações de Jesus são válidas para todos os tempos. Ele nos diz que o verdadeiramente importante na vida, ontem e hoje, é construir o Reino, cuidar das relações com as outras pessoas e com Deus, estar disposto a sempre recomeçar (conversão) e que os bens materiais sejam para fazer justiça e compartilhar. 

Um encontro e uma pergunta: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” (Mc 10,17). Vendo que o homem cumpre os mandamentos desde pequeno, Jesus “olha para ele com amor”. O que vai dizer a ele é muito importante. Ele é um bom homem, Jesus o convida a segui-lo até o fim: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois vem e segue-me!” (Mc 10,21). A mensagem de Jesus é clara: não basta pensar na própria salvação, tem-se que pensar nas necessidades dos pobres. Não basta preocupar-se com a vida futura, tem-se que se preocupar com aqueles que sofrem na vida. Não basta não prejudicar as pessoas, devemos colaborar no projeto de um mundo mais justo, tal como Deus quer. Não é isso que falta a quem se diz satisfeito na prática dos deveres religiosos com a consciência limpa e é indiferente ao número cada vez mais crescente de pessoas excluídas, marginalizada, empobrecidas?

“Ele ficou triste e foi embora” (Mc 10,22): o homem rico não esperava a resposta assim. Ele procurava algo para a sua inquietação religiosa e Jesus falou-lhe dos pobres. Ele preferia seu estilo de vida, viveria sem seguir Jesus. Talvez essa seja a postura mais generalizada entre os cristãos acomodados, eles preferem seu bem-estar, tentar ser cristão sem “seguir” totalmente a Cristo.

Depois da atitude que teve o jovem rico, Jesus radicalizou ainda mais as suas palavras: “Quão difícil é entrar no Reino de Deus” (Mc 10,24). 

Os discípulos ficaram surpresos ao ouvir essas palavras. Jesus insistiu: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha (…)” (Mt 19,24). Quando Jesus fala da quase impossibilidade de “um rico entrar no Reino de Deus”, não se refere à entrada no Céu após a morte, mas à entrada na comunidade com Jesus. Até hoje é muito difícil para quem se considera muito importante, acima dos demais, possuidor de muito, entrar numa pequena comunidade eclesial e sentar-se ao lado dos pobres e, assim, seguir Jesus: “Para os homens é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível” (Mc 10,27).

Jesus convida o homem rico a orientar a sua vida a partir de uma nova lógica. A primeira coisa é não viver preso aos seus bens (“vende o que tens”). A segunda coisa é ajudar, “dá aos pobres”. Por último, “vem e segue-me”. Os dois poderão percorrer juntos o caminho para o Reino de Deus. O homem se levanta e se afasta de Jesus. Ele esquece seu olhar amoroso e sai triste. Sabe que nunca poderá conhecer a alegria e a liberdade de quem segue Jesus. Marcos explica que “era muito rico”. Não é essa a experiência de que acha satisfeito? Vive preso ao modo de vida própria. A religião não se expressa exatamente no amor prático ao próximo, amor pelos pobres?

A conversa entre Jesus e Pedro, que acreditava que seguindo Jesus teria algum privilégio, por isso perguntou: “Eis que deixamos tudo e te seguimos” (Mc 10,28). Será que teria algum tipo de recompensa? Ele ainda não tinha entendido o significado do serviço gratuito. A resposta de Jesus é objetiva, sugere que não se deve esperar qualquer vantagem ou segurança. Será recebida, mas com perseguições. No futuro, ter-se-á a vida eterna. O fundamental é seguir Jesus na disponibilidade e totalidade da vida.

]]>
https://soucatequista.com.br/vende-tudo-o-que-tens-e-da-aos-pobres-depois-vem-e-segue-me-mc-1017-30/feed/ 0
O SEGUIMENTO DE JESUS (MC 8, 27-35) https://soucatequista.com.br/o-seguimento-de-jesus-mc-8-27-35/ https://soucatequista.com.br/o-seguimento-de-jesus-mc-8-27-35/#respond Wed, 31 Jul 2024 19:47:22 +0000 https://revistaavemaria.com.br/?p=74641 Neste ano, o Evangelho seguido na liturgia é o do evangelista Marcos. O texto de 8,27-35 ocupa um lugar central e decisivo no relato dele. Jesus continua ensinando que aqueles que desejam segui-lo devem negar a si mesmos, tomar a cruz e segui-lo. Ele enfatiza a importância de renunciar aos próprios desejos e vontades e estar disposto a sofrer por causa do Evangelho. Ao mesmo tempo, Jesus assegura que aqueles que perdem suas vidas por amor a Ele e ao Evangelho encontrarão a vida eterna. Esse trecho destaca a centralidade da cruz na vida do discípulo de Jesus e a necessidade de renúncia e entrega total a Ele.

Os discípulos já convivem com Jesus há algum tempo. Chegou a hora em que eles devem falar claramente. A quem de fato eles seguem? O que descobrem em Jesus? O que entendem de sua vida, sua mensagem e seu projeto? Eles vivem se questionando sobre sua identidade. O que mais lhes surpreende é a autoridade com que Jesus fala, a força com que cura os enfermos e o amor com que oferece o perdão de Deus aos pecadores. Quem é esse homem que sentem tão presente e tão próximo de Deus como amigo da vida e do perdão?

O texto de Marcos 8,27 começa com uma longa instrução de Jesus aos seus discípulos, que continua até 10,45. Tanto no início como no fim dessa instrução, Marcos situa a cura de um cego em 8,22-26 e 10,46-52. No início, a cura do cego requereu dois momentos ou etapas para a realização da cura definitiva. Não foi fácil a cura da cegueira dos discípulos. Jesus teve que dar uma longa explicação sobre o significado da cruz para ajudá-los a entender um pouco, pois foi a cruz que causou sua cegueira. No fim, a cura do cego Bartimeu, fruto da fé em Jesus, sugere como deve ser a fé do discípulo: acreditar em Jesus e aceitá-lo como ele é, não como o quero e imagino. Nos anos 70, quando Marcos escreveu seu Evangelho, a situação da comunidade não era fácil. Havia muita dor, eram muitas as cruzes. No ano 64, o imperador Nero ordenou a primeira perseguição, matando muitos cristãos. Em 70, Jerusalém estava prestes a ser destruída pelos romanos. A maior dificuldade foi aceitar a cruz de Jesus. Os judeus pensavam que uma pessoa crucificada não poderia ser o tão esperado Messias do povo, pois sua lei estabelecia que quem fosse crucificado deveria ser considerado amaldiçoado por Deus (cf. Dt 21,22-23).

O texto traz o primeiro anúncio da paixão e morte de Jesus aos discípulos, a tentativa de Pedro de eliminar a cruz e o ensinamento de Jesus sobre as consequências da cruz para ser seu discípulo. Pedro não entende a proposta de Jesus sobre a cruz e o sofrimento. Ele aceitava Jesus Messias, mas não como Messias sofredor. Pedro pensava, como outros do seu tempo, que o Messias deveria de ser um rei glorioso. Pedro parecia cego. Hoje muitos creem em Jesus, mas nem todos da mesma forma. Quem é Jesus para nós? Qual é a imagem mais comum que as pessoas têm dele hoje? Quem somos nós para Jesus?

Jesus, a caminho de Jerusalém, vai repetir três vezes a mesma coisa: que vai ser entregue e crucificado. Com isso, a história adquire um intenso dramatismo. Jesus é consciente do que poderia acontecer com Ele, mas, apesar de tudo, mantém a decisão de ir a Jerusalém e proclamar com clareza e firmeza seu projeto do Reino de Deus. O relato diz ainda que Pedro, um dos seus discípulos, tentou em privado convencer Jesus a não ir a Jerusalém. A reação de Jesus será forte para com Pedro. Diante de todos, Ele dirá “Afasta-te de mim, Satanás, porque teus sentimentos não são os de Deus, mas os dos homens” (Mc 8,33). É no caminho para Jerusalém, nessa situação de crise, nesse momento de tentação para Jesus, em que se tem de tomar decisões claras, Ele vai explicar o que exige de um dos seus discípulos. Jesus vai falar mais claramente e com muita firmeza. Algumas dessas exigências são “Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, irá salvá-la. Pois que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida? Ou que dará o homem em troca da sua vida?” (Mc 8,34-36).

A cruz não é o desejo do Deus Pai para Jesus ou para qualquer um de nós, seus filhos e filhas. A cruz é consequência do compromisso acolhido livremente por Jesus para revelar a Boa-Nova do Pai. Por anunciar isso, por defender a justiça, os mais pobres e marginalizados, Jesus foi perseguido e assassinado. Tomar a cruz e carregá-la atrás dele significa, portanto, aceitar ser excluído pelo sistema injusto que praticou e ainda hoje pratica a injustiça. Não há amor maior do que dar a vida pelos irmãos, diz o próprio Jesus.

]]>
https://soucatequista.com.br/o-seguimento-de-jesus-mc-8-27-35/feed/ 0
“JESUS OS VIU E TEVE COMPAIXÃO” (MC 6,30-34) https://soucatequista.com.br/jesus-os-viu-e-teve-compaixao-mc-630-34/ https://soucatequista.com.br/jesus-os-viu-e-teve-compaixao-mc-630-34/#respond Mon, 01 Jul 2024 19:11:56 +0000 https://revistaavemaria.com.br/?p=74432 O texto é breve, apenas cinco versos, porém, esses cinco versículos revelam uma característica de Jesus que sempre chamou a atenção: sua solicitude pela vida e a formação dos discípulos, a sua humanidade bondosa e amorosa para com o povo pobre da Galileia, a sua ternura para com as pessoas. Se o texto nos convida a refletir sobre esses aspectos da atuação de Jesus é para nos encorajar a ter esse mesmo comportamento de Jesus em nossa relação com as pessoas. 

A passagem de Marcos 6,30-34 narra um momento-chave no ministério de Jesus, em que Ele e seus discípulos experimentam intensa atividade e precisam de um tempo de descanso e reflexão. 

Antes dessa passagem, Marcos relata como Jesus enviou seus discípulos dois a dois para pregar, ensinar e curar em seu nome (cf. Mc 6,7-13). O relato então inclui a execução de João Batista (cf. Mc 6,14-29) e a narrativa da multiplicação dos pães e peixes (cf. Mc 6,30-44). Esse último milagre, que ocorreu em um lugar remoto e isolado, mostra o poder e a compaixão de Jesus para com as multidões famintas.

O povo estava em situação de opressão e ofendido em sua dignidade. Tinha que pagar muitos impostos e também tinha que cumprir o dízimo para o templo. A situação econômica era crítica. A sociedade estava cada vez mais dividida, tentando encontrar uma solução para os problemas do momento: alguns acreditavam na força das armas, outros se isolavam e viviam de forma independente. Por outro lado, a religião estava repleta de leis de purificação até se tornar um simples cumprimento de regras. Diante de toda essa situação, o povo estava desorientado e desnorteado, esperando por um Messias que pusesse fim a essa situação, livrasse-o e o trouxesse de volta a Deus. Jesus é a presença de Deus nesse momento. 

Muitos marginalizados do templo por não cumprirem as normas rituais de purificação quando ouvem Jesus falar sentem-se identificados com o seu ensinamento e prática, descobrem que não estão tão longe dos caminhos de Deus, encontram nele o pastor que em vez de dispersar, reúne.

No versículo 30, os discípulos retornam a Jesus e o informam sobre tudo o que fizeram e ensinaram. Esse momento é importante porque reflete a importância do descanso e da reflexão no ministério. Até Jesus, na sua humanidade, compreendeu a necessidade de se retirar para descansar e renovar as suas forças.

Apesar de seu desejo de se retirar para um lugar tranquilo, Jesus e seus discípulos encontram-se cercados pela multidão. Em vez de rejeitá-los ou ignorá-los, Jesus os vê “como ovelhas sem pastor” e movido pela compaixão (em grego ἐσπλαγχνίσθη) muda seu plano e atende as pessoas. Esse versículo destaca a compaixão e o amor de Jesus pelas pessoas necessitadas e sua disposição de colocar as necessidades dos outros acima das suas.

No versículo 34, Marcos usa a metáfora do pastor para descrever o ministério de Jesus. Ele é o bom pastor que cuida e guia o seu rebanho. Essa imagem reflete a preocupação de Jesus com o bem-estar espiritual e físico das pessoas e sua disposição de oferecer orientação e direção.

Marcos reconhece que Jesus, movido pela compaixão ao ver a multidão que andava como ovelhas sem pastor, começa a ensinar. É a causa do Reino que consome seu tempo e sua vida. É por isso que Ele veio, sua paixão é o Reino. Somente quem caminhou na vida motivado por uma causa entende essas atitudes de Jesus e não sente fome ou cansaço de fazer o que gosta e motiva.

Jesus não sabia olhar para ninguém com indiferença. Ele não podia ver as pessoas sofrendo, era algo além de suas forças. Foi assim que foi lembrado pelas primeiras gerações cristãs, mas, os evangelistas dizem outra coisa, Jesus não se comove apenas com as pessoas concretas que encontra no seu caminho, os doentes que o procuram, os indesejáveis que se aproximam dele, as crianças que ninguém abraça; Ele sente compaixão por todas as pessoas que vivem desorientadas e não têm ninguém para guiá-las e alimentá-las. Ainda há muitas, muitas “ovelhas sem pastor” entre nós. O que podemos fazer?

]]>
https://soucatequista.com.br/jesus-os-viu-e-teve-compaixao-mc-630-34/feed/ 0
O PROFETA REJEITADO (MC 6,1-6)  https://soucatequista.com.br/o-profeta-rejeitado-mc-61-6/ https://soucatequista.com.br/o-profeta-rejeitado-mc-61-6/#respond Fri, 31 May 2024 19:32:51 +0000 https://revistaavemaria.com.br/?p=74197 Neste ano, através do Evangelho de Marcos, as comunidades cristãs são convidadas a refletir e aprofundar sobre os ensinamentos de Jesus, conforme registrados por Marcos. Neste texto de Marcos 6,1-6, depois do ensinamento em parábolas e da atuação milagrosa ao redor do lago da Galileia, Jesus retorna à sua terra. O povo de Nazaré fica espantado com seus ensinamentos e começa a questionar sua identidade. Eles olham na direção equivocada para a resposta, e seu espanto termina em escândalo e incompreensão. Assim se conclui a segunda etapa do ministério de Jesus na Galileia.

Na história, os profetas são pessoas que, movidas por Deus, em determinados momentos se tornam a consciência de seu povo. Compreendendo dessa forma, verifica-se que todo cristão é chamado a ser profeta, ou seja, a pensar e viver a vida segundo os ensinamentos de Jesus e seu Evangelho.

Jesus, depois de ter ensinado em parábolas e realizar alguns milagres, retorna à sua terra natal: Nazaré. Exercendo o direito de todo israelita adulto do sexo masculino, Jesus entra na sinagoga no sábado para ler e comentar as Escrituras. Os habitantes de Nazaré ficam atônitos: “Donde lhe vem isso? Que sabedoria é essa que lhe foi dada, e como se operam por suas mãos tão grandes milagres?” (cf. Mc 6,2). Inicialmente, pode ser uma reação normal. Porém, na rapidez de encontrar uma resposta, enganam-se: “Não é este o filho do carpinteiro?” O espanto termina, assim, em escândalo e incompreensão, porque não percebem a Deus que se revela nas coisas cotidianas, recusam-se a aceitar que se manifeste no filho de um humilde carpinteiro. Olham, mas não veem; ouvem, mas não compreendem (cf. Mc 4,12). Os discípulos acompanham o Mestre nesses momentos e aprendem uma importante lição: onde se espera encontrar encorajamento, coragem, participação, pode-se apresentar indiferença, incompreensão e rejeição.

Na mente deles, Jesus não tinha poder cultural, não era um intelectual educado. Nem era sacerdote do templo, nem membro de uma família importante. Ele era um “trabalhador” de uma pequena aldeia na Galileia. E, precisamente por ser conhecido, os seus conterrâneos pensam que ele não tem autoridade para falar: Ele é “um de nós”, não pode “ensinar” com “sabedoria”. É por isso que é motivo de escândalo, de tropeço. Mas muitas pessoas o viam como um mestre que ensinava a entender e viver a vida de forma diferente, porém, ser algo mais que isso?

Jesus anuncia a vontade de Deus, de um Deus que se revela como Pai. Jesus pode falar em nome de Deus porque está unido a Ele. Como os profetas, Jesus ensina os caminhos de Deus, muitas vezes rejeitado pelos seres humanos e, como os profetas, Jesus é muitas vezes rejeitado e sua vida é direcionada para a cruz. É característico do Evangelho de Marcos apresentar o aparente fracasso, a solidão, o escândalo da cruz de Jesus. Mas, o Pai está com Ele. Essa cruz é compartilhada com Ele por todos os perseguidos por causa de seu nome, como a comunidade de Marcos. Deus Pai o ressuscita, validando a sua Palavra e a sua Vida.

A atenção é necessária na vida de fé. Pode ocorrer de não se reconhecer e compreender a passagem de Deus em nossa história e de seus profetas. Por vezes esperamos coisas extraordinárias e espetaculares, ou olhamos para alguém de fora como um profeta, mas não para aquele que podemos ter ao nosso lado, os muitos irmãos e irmãs que gastam e se desgastam trabalhando para os outros, mesmo que isso lhes custe a vida. É muito mais maravilhoso olhar para os milagres que os pregadores anunciam na televisão do que aceitar o sinal de solidariedade e fraternidade que está ao nosso lado todos os dias. É muito mais rápido querer buscar um estilo de vida fácil, cômodo do que ouvir o chamado de Deus para semear vida e esperança todos os dias. Tudo isso será mais fácil, porém não deixaremos Jesus passar sem reconhecê-lo e sem perceber sua presença ao nosso lado? As pessoas por vezes fazem uma imagem de Deus que não é verdadeira, e quando Ele não responde ao que se acredita que Ele deveria ser, em seguida O abandonam, colocando o precioso valor e dom da fé de lado.

]]>
https://soucatequista.com.br/o-profeta-rejeitado-mc-61-6/feed/ 0
A EFUSÃO DO ESPÍRITO SANTO: PENTECOSTES (CF. JO 20,19-23) https://soucatequista.com.br/a-efusao-do-espirito-santo-pentecostes-cf-jo-2019-23/ https://soucatequista.com.br/a-efusao-do-espirito-santo-pentecostes-cf-jo-2019-23/#respond Thu, 02 May 2024 13:31:38 +0000 https://revistaavemaria.com.br/?p=73979 No Evangelho de João, a ressurreição (Páscoa) e a efusão do Espírito Santo (Pentecostes) acontecem no mesmo momento. A situação dos discípulos, fechados por medo dos judeus, reflete a atitude da comunidade de João, que, receosa de um mundo hostil, é tentada a refugiar-se no seu próprio círculo. Jesus os envia para o mundo para serem suas testemunhas e do Pai. 

O presente relato baseia-se no cumprimento das palavras de Jesus. Ele tinha dito: voltarei a estar convosco (cf. Jo 14,18); o evangelista diz: apareceu no meio deles (cf. Jo 20,19). Jesus tinha assegurado: em breve me vereis de novo (cf. Jo 16,16ss); o evangelista afirma: os discípulos estavam radiantes por verem o Senhor (cf. Jo 20,20). Jesus anunciou: enviar-vos-ei o Espírito (cf. Jo 14,26; 15,26; 16,7ss), e tereis paz (cf. Jo 16,33); o evangelista retoma as palavras de Jesus: a paz esteja convosco e recebei o Espírito Santo (cf. Jo 20,21ss). Jesus afirmava: eu vou para o Pai (cf. Jo 14,12) que é também vosso Pai (cf. Jo 20,17).

No Evangelho, o primeiro encontro entre Jesus ressuscitado e seus discípulos é marcado pela saudação: “A paz esteja convosco”. A paz que Jesus dá é diferente da pax romana, construída pelo Império Romano por meio da violência (cf. Jo 14,27). A paz na Bíblia (shalom) é uma palavra rica em significados. Significa integridade das pessoas perante Deus e os outros, vida plena, feliz e abundante (cf. Jo 10,10). A paz é um sinal da presença de Deus, porque o nosso Deus é um Deus de paz. “O Deus da paz esteja com todos vós” (Rm 15,33). Nem todos acolhem a proposta de paz de Deus e provocam reações violentas. A paz que Jesus concede fortalece os membros da comunidade diante das perseguições. O próprio Jesus anuncia tribulações (cf. Jo 16,33). É preciso ter confiança, perseverar no Espírito para que um dia a justiça e paz de Deus triunfem (cf. Sl 85,11) e, então, o Reino de Deus será justiça, paz e alegria e estes serão os frutos do Espírito Santo (cf. Rm 14,17) e “Deus será tudo em todos” (1Cor 15,28).

O envio: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós” (Jo 20,21). De Jesus crucificado e ressuscitado recebemos a missão, a mesma que Ele recebeu do Pai. Para nós, repete: “A paz esteja convosco”. A repetição sublinha a importância da paz. Construir a paz faz parte da missão. A paz que Jesus nos deixa significa muito mais do que a ausência de guerra, significa construir um todo humano harmonioso, onde as pessoas possam ser elas próprias, com tudo o que precisam para viver, e onde possam viver felizes, em justiça e paz. Construir uma comunidade segundo a comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. 

A língua hebraica utiliza a mesma palavra para designar o vento e o espírito. Jesus soprou e disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O vento tem um objetivo, uma direção: vento do norte, vento do sul; da mesma forma, o Espírito de Deus (o vento de Deus) tem uma meta, um projeto que se manifesta de muitas maneiras nas obras que o Espírito realiza na criação, na história e especialmente em Jesus. A grande promessa do Espírito está presente nos profetas: a visão dos ossos ressequidos que se tornam vivos pelo poder do Espírito de Deus (cf. Ez 37,1-14); a efusão do Espírito de Deus sobre todas as nações (cf. Jl 3,1-5); a visão do Messias servo que será ungido pelo Espírito para restaurar a justiça na terra e anunciar a boa nova aos pobres (cf. Is 11,1-9; 42,1; 44,1-3; 61,1-3). Os profetas preveem um futuro em que o povo de Deus renascerá pela efusão do Espírito (cf. Ez 36,26-27; Sl 51,12; Is 32,15-20). Em João, essas profecias cumprem-se em Jesus. Como na criação (cf. Gn 1,1), assim o Espírito aparece e repousa em Jesus “do Céu em forma de uma pomba” (cf. Jo 1,32).

É o início da nova criação! Jesus pronuncia as palavras de Deus e nos comunica o Espírito em abundância (cf. Jo 3,34). As suas palavras são Espírito e vida (cf. Jo 6,63). Quando Jesus se despede, diz que enviará outro consolador, outro advogado que estará conosco, é o Espírito Santo (cf. Jo 14,16-17). Pela sua paixão, morte e ressurreição, Jesus assegura para nós o dom do Espírito. O primeiro efeito da ação do Espírito Santo em nós é a reconciliação: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, lhes serão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, lhes serão retidos” (Jo 20,23). Pelo Batismo, todos nós recebemos esse mesmo Espírito de Jesus (cf. Jo 1,33). O Espírito é como a água que brota do íntimo daqueles que acreditam em Jesus (cf. Jo 7,37-39; 4,14). O Espírito nos é dado para que possamos recordar e compreender o sentido pleno das palavras de Jesus (cf. Jo 14,26; 16,12-13). Animados pelo Espírito de Jesus, podemos adorar Deus em qualquer lugar (cf. Jo 4,23-24) e experimentamos a liberdade do Espírito: “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Cor 3,17), confirma São Paulo.

]]>
https://soucatequista.com.br/a-efusao-do-espirito-santo-pentecostes-cf-jo-2019-23/feed/ 0
JESUS RESSUSCITADO ESTÁ NO MEIO DELES (JO 20,19-31) https://soucatequista.com.br/jesus-ressuscitado-esta-no-meio-deles-jo-2019-31/ https://soucatequista.com.br/jesus-ressuscitado-esta-no-meio-deles-jo-2019-31/#respond Mon, 01 Apr 2024 17:22:15 +0000 https://revistaavemaria.com.br/?p=73736 No Tempo Pascal, o texto referência é o de João 20,19-31. Os acontecimentos presentes no texto acontecem na parte da manhã (cf. Jo 20,1-18) e à tarde do primeiro dia depois do sábado e oito dias depois, no mesmo local (cf. Jo 20,26). 

João relata alguns dos sinais que Jesus realizou. Ele escreve “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (cf. Jo 20,31). Crer é ter vida. Para João, tudo começa com a experiência e o encontro com Jesus (cf. Jo 1,35-39). O evangelista apresenta-se como testemunha dos atos e das palavras daquele que venceu a morte e ressuscitou. Esse testemunho é próprio dos discípulos, daquelas pessoas que o seguiam. Quando Jesus morreu, eles temeram que tudo estivesse acabado, ficaram desorientadas, mas o Senhor ressuscitado apareceu para eles. Sua presença dá-lhes paz – “A paz esteja convosco!” (cf. Jo 19-21.26) – ao mesmo tempo que significa uma nova exigência – “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós” (cf. Jo 21). Eles são os continuadores da sua obra. Nós recebemos esse testemunho e, com ele, a paz e a missão. João insiste na experiência como fundamento da fé.

Inicialmente, os discípulos têm dificuldade em reconhecer o Ressuscitado, julgam ver um fantasma. É por isso que o pedido de Tomé para ver e sentir as marcas em suas mãos e no seu lado é muito interessante para sublinhar que o Crucificado e o Ressuscitado são a mesma pessoa, mesmo que seu modo de vida seja diferente. A ressurreição de Jesus não é o regresso de um cadáver à vida, mas a plena participação de um ser humano na vida divina. Tomé não acredita por intermédio das outras testemunhas oculares, ele quer fazer sua própria experiência, assim, o Evangelho apresenta a dificuldade de qualquer pessoa acreditar na ressurreição, sobretudo aqueles que não viram o Senhor. Tomé está disposto a acreditar, mas, quer resolver, pessoalmente, as dúvidas por temor de errar. Jesus vê em Tomé um homem em busca da verdade e lhe permite fazer a experiência; é, portanto, a ocasião de dizer aos futuros crentes “Felizes aqueles que creem sem ter visto!” (Jo 20,30).

Tomé é apresentado como o representante daqueles que não querem acreditar sem ver. Vencida sua incredulidade, o evangelista apresenta-o como um modelo de fé. Suas palavras contêm a autêntica confissão da fé cristã: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28). Com essas palavras, o Evangelho de João atinge seu ponto mais alto: o reconhecimento de Jesus como Senhor e Deus. Essa clareza só tinha sido anunciada no prólogo “O Verbo era Deus” (Jo 1,1).

Ao verem Jesus ressuscitado no meio deles, os discípulos têm suas vidas transformadas. Experimentam o Espírito de Jesus sobre eles e abrem as portas porque se sentem enviados a viver a mesma missão que Jesus havia recebido do Pai. Também hoje o cristão precisa colocar Cristo ressuscitado no centro da sua vida e agir com todas as suas forças.

Pode suceder que a ideia da ressurreição de Jesus e da sua presença no meio de nós seja mais uma doutrina pensada e pregada do que uma experiência vivida. Jesus ressuscitado está no centro da Igreja, mas sua presença precisa estar mais viva em nós e na vida das nossas comunidades para, assim, alimentar e orientar os nossos passos e projetos.

Após vinte séculos de cristianismo, Jesus ainda não é conhecido e compreendido em toda a sua originalidade. Só a presença viva de Cristo ressuscitado pode dar-nos hoje a força, a alegria e a criatividade de que necessitamos para enfrentar a crise por que passamos na sociedade, no mundo. Nada nem ninguém mais o pode fazer. Sem a força do Ressuscitado, do seu Espírito, não sairemos da nossa passividade, continuaremos com as portas fechadas, sem alegria, nem convicção. Precisamos de Jesus mais do que nunca. Precisamos viver da sua presença, de recordar em todas as ocasiões a sua Palavra e o seu Espírito, de repensar a sua vida, de deixá-lo ser o inspirador de nossa ação. Ele está no meio de nós, comunicando-nos sua paz, sua alegria e seu Espírito. 

Envia-nos em missão!

]]>
https://soucatequista.com.br/jesus-ressuscitado-esta-no-meio-deles-jo-2019-31/feed/ 0
MORRER PARA VIVER E DAR FRUTOS (JO 12,20-33) https://soucatequista.com.br/morrer-para-viver-e-dar-frutos-jo-1220-33/ https://soucatequista.com.br/morrer-para-viver-e-dar-frutos-jo-1220-33/#respond Fri, 01 Mar 2024 15:58:19 +0000 https://revistaavemaria.com.br/?p=73527 Estamos no Tempo Quaresmal. O texto referência é o de João, que nos oferece uma cena de grande significado. O destino de Jesus está traçado, pois os judeus já decidiram que Ele deve morrer. Contudo, no Evangelho de João, Jesus não morre de qualquer maneira; não lhe tiram a vida, mas ele a entrega livremente. Jesus decide ir até às últimas consequências no seu empenhamento pelo Reino de Deus: a entrega da sua própria vida. Assim será glorificado. 

Surge o pedido dos gregos que querem ver Jesus: “Chegou a hora”. O texto é uma expressão clara da teologia joanina da glorificação. A paixão é marcada como a hora da glorificação. É a hora da decisão, da crise do mundo. O mundo quer viver de si e para si. Não se dá conta de que é Jesus que, com a sua morte, dá a vida, a salvação. A “hora” de Jesus é também a hora do mundo. Ela mostra que Deus é amor, mas, expõe também o pecado do mundo. É a hora da exaltação, da morte e da glória de Jesus. É a hora do julgamento contra Satanás e também a hora do perdão para todos os que acreditam em Jesus. É a hora em que Deus reúne todos os eleitos em torno daquele que é “exaltado”, pois a vitória e o julgamento ocorrem na cruz de Cristo. 

Esse texto é um momento-chave no processo de revelação de Jesus ao mundo. A hora da glorificação está próxima, mas, tem de passar pela cruz. Isso provoca uma crise em muitos dos discípulos, que não querem segui-lo nesse caminho. O Evangelho, rejeitado pelos judeus, passa para os gentios, representados pelos gregos.

O importante e fundamental é ter a consciência de que o discípulo também não está livre do sofrimento e da decisão pessoal. A união com Cristo cria um problema vital. O discípulo não pode salvar sua vida, mas, conserva-a se a entregar. Jesus afirma-o por meio de três frases: o grão que morre para dar fruto, o servo que deve seguir o seu mestre, o sofrimento de Jesus ao ver aproximar-se sua morte e exaltação na cruz.

“Para dar fruto”: João utiliza sempre a expressão “dar fruto” num sentido missionário. Cada pessoa é chamada a fazer uma escolha livre pelo Evangelho. É por isso que Jesus, que na sua vida e morte cumpriu a lei da sementeira, da generosidade e do dom de si, aponta o caminho que todos nós devemos fazer, o mesmo que Ele fez, se quisermos entrar com Ele na vida eterna. Aquele que só cuida de si mesmo e não tem outra preocupação senão salvar a sua própria vida, perde-a, mas, aquele que vive e morre pelos outros, ganha a vida eterna.

“Atrairei todos a mim” (Jo 12,32): a cruz, que em princípio era símbolo de violência, de marginalização, de querer tirar Jesus do meio, torna-se – segundo o evangelista João – uma verdadeira entronização de Jesus, que coloca diante dos olhos de todos aquele que é salvação e bênção para todas as pessoas, para as atrair a si. Não se trata de uma “atração” por curiosidade, mas, por amor. É por isso que nos chama a ser seus discípulos, a ver para além do fato físico da cruz, para ver nele a gratuidade total, o dom total de si, sem reservas. Sua morte não nos afastará, tornar-se-á uma fonte de atração misteriosa, que abre novos sentidos para a vida: uma vida doada que gera vida, uma vida sacrificada que gera esperança e nova solidariedade, nova comunhão, nova liberdade.

Morte que dá vida: poucas frases do Evangelho são tão desafiantes como estas palavras que captam uma convicção profunda de Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto” (Jo 12,24). Com uma linguagem tão clara e poderosa, Jesus deixa claro que sua morte, longe de ser um fracasso, dará fruto à sua vida. Ao mesmo tempo, convida seus seguidores a viverem de acordo com essa mesma lei: para dar a vida é preciso “morrer”. Não se pode gerar vida sem dar a própria. Não é possível ajudar a viver se não está disposto a “entregar-se” pelos outros. Ninguém contribui para um mundo mais justo e humano sem renunciar ao seu próprio bem-estar. Não se trabalha, seriamente, para o Reino de Deus e para a sua justiça se não estiver disposto a correr os riscos e as rejeições, os conflitos e as perseguições que Jesus suportou. Fechar os olhos ao sofrimento dos outros, acreditando que isso nos fará felizes, é um erro. Se o fizermos, o nosso bem-estar tornar-se-á cada vez mais vazio, a nossa religião cada vez mais triste e egoísta. Os oprimidos e aflitos querem saber se alguém se preocupa com sua dor.

]]>
https://soucatequista.com.br/morrer-para-viver-e-dar-frutos-jo-1220-33/feed/ 0
O EVANGELHO DE MARCOS https://soucatequista.com.br/o-evangelho-de-marcos/ https://soucatequista.com.br/o-evangelho-de-marcos/#respond Thu, 01 Feb 2024 15:27:55 +0000 https://revistaavemaria.com.br/?p=73322 Visando ao conhecimento e ao aprofundamento da Palavra de Deus, o tempo litúrgico foi formado em anos: “A”, “B” e “C”. No ano “A” é lido o Evangelho de Mateus; no ano “B”, o de Marcos; no ano “C”, o de Lucas. O Evangelho de João é lido nas solenidades maiores. 

O Evangelho de Marcos é o mais sucinto. Ele trata do discipulado e busca responder à pergunta “Quem é Jesus?”. Anuncia a chegada do Reino de Deus. 

Em Marcos 1,14-20, depois do início do Evangelho com João Batista, a vinda do Espírito sobre Jesus no rio Jordão e as tentações no deserto, Marcos conta, em síntese, o início da atividade pública de Jesus. Ele percorreu a região da Galileia pregando a Boa-Nova, que o Reino de Deus começara e a necessária conversão para aceitá-lo na fé e comprometer-se com ele. 

Nas aldeias da Galileia estavam as pessoas mais pobres e deserdadas, privadas do seu direito de usufruir da terra que lhes fora dada por Deus. Aí, como em nenhum outro lugar, Jesus encontrou o Israel mais doente, oprimido e maltratado pelos poderosos. Nas cidades, por outro lado, viviam os detentores do poder com seus vários colaboradores: governantes, grandes proprietários de terras, cobradores de impostos. Não eram eles os representantes do povo de Deus, mas seus opressores, os causadores da miséria e da fome dessas famílias. O Reino de Deus deve começar onde o povo é mais humilhado. Esses pobres, famintos e aflitos eram as “ovelhas perdidas” que melhor representavam todos os oprimidos de Israel. Jesus era muito claro ao afirmar que o Reino de Deus só podia ser anunciado pelo contato direto e próximo com as pessoas mais necessitadas de alívio e de libertação; nelas a semente do Reino encontra “terra boa”.

Jesus foi de cidade em cidade e de aldeia em aldeia proclamando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus. A causa a que Jesus dedicou daí em diante seu tempo, suas forças e toda sua vida é o que Ele chamava de o “Reino de Deus”. Foi, sem dúvida, o centro da sua pregação, o que animava toda a sua atividade. Tudo o que Ele disse e fez está ao serviço do Reino de Deus, que é a chave para compreender o sentido que Jesus deu à sua vida e para entender o projeto que Ele quis ver realizado na Galileia, no povo de Israel e, em última análise, em todos os povos. Na Galileia, Jesus não ensinou uma doutrina religiosa para que seus ouvintes a aprendessem bem, mas anunciou um acontecimento para que essas pessoas o recebessem com alegria e fé. O povo encontrou um profeta apaixonado por uma vida mais digna para todos, que procurava com todas as suas forças que Deus fosse amado e que o seu Reino de vida, de justiça, de paz e de misericórdia se difundisse com alegria.

Após a morte de João, Jesus começou a falar uma nova linguagem: o “Reino de Deus está próximo”. Não devemos esperar mais, temos de acolhê-lo e, em breve, ele espalhará a sua força salvadora. Essa Boa-Nova deve ser anunciada a todos. O povo deve converter-se, contudo, a conversão não consistirá em preparar-se para um julgamento, mas em “entrar no Reino de Deus” e aceitar o seu perdão salvador. A ideia de julgamento não desaparece em Jesus, mas sua visão muda completamente: Deus vem para todos como salvador, não como juiz. Deus não obriga ninguém, Ele convida. Seu convite pode ser aceito ou rejeitado. 

Cada um decide seu destino. Alguns ouvem o convite, aceitam o Reino de Deus, acolhem-no e deixam-se transformar; outros não ouvem a Boa-Nova, rejeitam o Reino, não entram na dinâmica de Deus e fecham-se à salvação.

A conversão e a fé devem realizar-se no seguimento de Jesus. A vocação dos primeiros discípulos é um exemplo concreto de conversão e de fé e também um ato que mostra o seguimento de Jesus. No tempo de Jesus eram os discípulos que escolhiam o mestre. No caso, porém, é Jesus que chama os pescadores para o seguirem. Além disso, Jesus não os chama para aprender uma doutrina, mas para uni-los à sua pessoa e à sua missão. A iniciativa de Jesus, que chama e cria a decisão de segui-lo, recorda a iniciativa e a autoridade com que o Deus de Israel chamou os seus profetas para desempenharem uma missão especial a favor do povo (cf. 1Rs 19,19-21; 2Rs 2,12-15), missão que nesse caso é a de serem “pescadores de homens”, isto é, de reunirem os membros dispersos do povo de Deus. Esse primeiro chamado divino, exemplo de conversão e de fé, pretende ser ao mesmo tempo o modelo de toda vocação cristã. 

Três traços fundamentais caracterizam essa vocação: a) é uma resposta a um chamado anterior; b) não pode haver dúvida a esse respeito; c) a resposta da pessoa implica desprendimento e renúncia, traduzindo-se, sobretudo, num “seguimento”. Discípulo, portanto, não é aquele que abandona algo; é aquele que, respondendo decididamente a um chamamento, encontrou alguém e o segue.

]]>
https://soucatequista.com.br/o-evangelho-de-marcos/feed/ 0
SOLENIDADE DA DIVINA MATERNIDADE DE MARIA https://soucatequista.com.br/solenidade-da-divina-maternidade-de-maria/ https://soucatequista.com.br/solenidade-da-divina-maternidade-de-maria/#respond Sun, 31 Dec 2023 20:35:58 +0000 https://revistaavemaria.com.br/?p=73100 Ao iniciar o novo ano, no primeiro dia a liturgia celebra Maria como Santa Mãe de Deus, pois ela deu à luz Jesus, o Salvador. Jesus, com sua vida, morte e ressurreição, venceu o mal em sua raiz. A Solenidade da Divina Maternidade de Maria, Theotókos, traz em si o grande anúncio que é para toda a humanidade: “Hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). É motivo de jubilo. Toda a história está sob o senhorio de Jesus Cristo.

A grande alegria é o nascimento de uma criança. É a afirmação de que Deus se fez carne por obra do Espírito Santo. Nesse acontecimento, “os pastores foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura” (Lc 2,16). Na divina maternidade de Maria, Jesus, sem deixar de ser divino, assume a condição humana. A plenitude da bênção de Deus alcança toda a humanidade. Ao nascer, une-se a toda ela. Assim como os pastores, todos são chamados a ir ao encontro do Senhor, ou seja, humanizar-se no amor. Em cada ato de amor, a pessoa se faz mais humana a exemplo de Jesus e coloca em prática o seu mandamento: “Amai-vos como eu vos amei” (Jo 13,32).

Em Cristo, a plenitude da revelação do que é ser verdadeiramente humano. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, no número 22, assim expressa: “Na realidade, o mistério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado (…). Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação”.

Em seu encontro com a criança, os pastores louvam e glorificam a Deus: “Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito” (Lc 2,20). A alegria que sentem torna-se a característica cristã. 

O Papa Francisco, ao escrever a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, convida e encoraja todos os cristãos a viver essa mesma experiência quando nos diz “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento” (1).

O sinal dado aos pastores para o reconhecimento do Salvador é que Ele está “deitado na manjedoura”. É bastante significativo, pois a manjedoura é o lugar onde o alimento é oferecido. Na Eucaristia, Jesus se faz alimento, entregando sua vida para que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10).

Na celebração da Eucaristia, realiza-se o encontro com Jesus, o Deus Salvador, que nos alimenta com a sua Palavra e com o seu corpo e sangue e nos envia em missão para que a mesa da vida seja para todos sem discriminação ou desigualdade em tudo aquilo que compõe a vida. 

A criança, ao ser apresentada, recebe um nome: “Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno” (Lc 2,21). Em hebraico, significa “Deus salva”. Deus salva, libertando a todos de toda escravidão.

No grande evento, Maria “conservava todas essas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc 2,19). Maria, a mãe do Filho de Deus, aponta a nós o caminho para todos os que desejam fazer um encontro pleno com seu filho, Jesus, que traz consigo a salvação para toda a humanidade. 

O grande anúncio que se dá na noite de Natal deve preencher de sentido todos os demais dias do ano: “Nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11), chama-nos à fraternidade, pois em Jesus somos todos irmãos e irmãs, ao empenho na construção de uma história em que a justiça seja o elo forte, o amor seja a verdade absoluta a solidificar as relações e a vida seja plena para todos. Uma terra sem males.

]]>
https://soucatequista.com.br/solenidade-da-divina-maternidade-de-maria/feed/ 0
“E LHE PORÁS O NOME DE JESUS” https://soucatequista.com.br/e-lhe-poras-o-nome-de-jesus/ https://soucatequista.com.br/e-lhe-poras-o-nome-de-jesus/#respond Fri, 01 Dec 2023 13:22:38 +0000 https://revistaavemaria.com.br/?p=72904 “Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus.” (Lc 1,30)

O texto de Lucas neste capítulo se centra em Maria, apresentando os fatos que cercaram o nascimento de Jesus.

É um texto vocacional, pois revela a iniciativa divina na história e o necessário discernimento de quem é chamado. Após um clarear de que Deus em tudo age, o “sim” de Maria abre caminho para Jesus e, nele, para toda a humanidade.

Maria é modelo de resposta à vida em Deus a favor da vida. O mistério de Jesus se revela com a encarnação.

O “sim” de Maria prepara o caminho de Jesus e encoraja todos a que se abram a preparar o caminho do Senhor vivendo a justiça, o amor, o perdão, a fraternidade na partilha.

Lucas, desde o início de seu Evangelho, assegura a seriedade dele, dizendo que antes pesquisou, diligentemente, os acontecimentos a ser narrados (cf. Lc 1,1-4) com o objetivo de orientar bem o leitor.

Em 2,19, Lucas informa-nos que “Maria conservava todas essas palavras, meditando-as no seu coração”. O acontecimento da anunciação deixa uma marca indelével no coração de Maria. Ela convida todos a participar e a partilhar com ela da manifestação de Deus na pessoa de Jesus, seu filho. Qual seria o sentimento a despertar em nós ao ouvir o anjo anunciar como anunciou a Maria esse extraordinário acontecimento?

No texto, aparecem três importantes frases: “Bendita és tu entre as mulheres” (Lc 1,42), “Não tenhas medo” (Lc 1,30) e “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). 

 “Bendita és tu entre as mulheres” (Lc 1,42): Maria é bendita entre as mulheres pois ela será a mãe do Salvador. Ela é bendita entre as mulheres pois reconhece a ação de Deus que entra de modo decisivo na história.

O encontro acontece entre duas mulheres, duas mães, Maria e sua parente Isabel. Esta, movida pelo Espírito Santo, pronuncia as palavras: “Bendita és Tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1,42). 

Um encontro extraordinário, maravilhoso. Isabel reconhece os desígnios de Deus realizados em Maria, ao gerar em seu ventre o Salvador: “Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio. Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!” (Lc 1,43-45).

A criança exulta de alegria no seio de Isabel. Esse encontro das duas mulheres e mães é interpretado como o encontro do Antigo e do Novo Testamento e inaugura novos tempos. Realiza-se o primeiro encontro entre o precursor e o Messias, o Bendito Fruto.

Em Maria se realiza a união entre o divino e o humano, o Céu e a Terra. 

 “Não tenhas medo” (Lc 1,30): naquela jovem e simples mulher da Galileia, o Espírito de Deus gera a vida. O mesmo Espírito se manifesta hoje a contemplarmos a manifestação de Deus no que é simples, que é valioso, pois Maria de Nazaré, como as muitas Marias ao longo da história, traz consigo a manifestação de Deus em Cristo pela sua presença. 

Nessa revelação de Jesus, Deus chama nossas comunidades a serem lugares por excelência de acolhida da vida, das mulheres, mães, crianças com o mesmo amor com que recebemos Maria, a mãe de Jesus.

“Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38): no “sim” de Maria, Deus se revela na história no rosto humanizado de Jesus.

Em Maria se renova o convite a todos a fazerem parte da história de Deus. Maria se coloca inteiramente à disposição dele. Todos, igualmente, são convidados a se fazerem disponíveis, a deixar que o Espírito de Deus se manifeste plenamente, gerando vida nas vidas de muitos, em especial os que sofrem. Ao responder dia a dia ao chamamento de Deus nos acontecimentos da mesma forma que Maria, mãe, fez, pelo “sim” de cada pessoa Deus continua a se fazer presente na história que, a partir de Jesus, tornou-se história da salvação. 

Podemos nos perguntar: deixamos verdadeiramente que a vontade de Deus se faça, plenamente, em nós? Permitimos verdadeiramente que Deus se encarne nas nossas ações do dia a dia?

A resposta a ecoar sempre: “Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Maria nos inspira no caminho a seguir.

Feliz e abençoado Natal!

]]>
https://soucatequista.com.br/e-lhe-poras-o-nome-de-jesus/feed/ 0