Santo Carmelita – Sou Catequista https://soucatequista.com.br Milhares de Artigos dos mais variados temas da Igreja Católica para a sua Catequese, Cursos, Downloads e muito mais! Sun, 05 May 2024 09:00:49 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://soucatequista.com.br/wp-content/uploads/2024/10/cropped-ico-1-32x32.png Santo Carmelita – Sou Catequista https://soucatequista.com.br 32 32 Santo Ângelo, Presbítero e mártir: vida ofertada no Carmelo pelo Evangelho https://soucatequista.com.br/3658-2/ https://soucatequista.com.br/3658-2/#respond Sun, 05 May 2024 09:00:49 +0000 http://carmelitas.org.br/?p=3658 Segundo fontes da tradição dignas de crédito, Ângelo veio do Monte Carmelo entre os primeiros carmelitas, que imigraram para a Sicília; foi assassinado por homens ímpios em Licata, na primeira metade do século XIII. Venerado como Mártir, bem cedo edificou-se uma igreja no lugar do seu martírio e ali foi depositado o seu corpo.

Ângelo foi para a Sicília com os religiosos que do Carmelo emigraram para aquela ilha, onde morreu, segundo dados tradicionais, que demonstram ser dignos de fé. Foi assassinado em Licata[2] pelas mãos de “ímpios infiéis” na primeira metade do século XIII. Por ser considerado mártir, foi construída uma igreja em sua honra no local da morte. O seu corpo foi colocado num altar desta igreja. Estas poucas informações e uma outra recolhida, em torno 1370, pelo beneficiário da São João do Latrão, Nicolau Processi, que se refere sobre a ida de Ângelo, em Roma – tomada do Catalogus Sanctorum composto até o final do século XIV ou início do XV, foram enriquecidas com lendas particulares até formar uma verdadeira história biográfica.

Muito conhecida e difundida é a vida de Santo Ângelo escrita por um certo Enoque, que se apresenta como carmelita e patriarca de Jerusalém e que viveu nos primeiros decênios do século XIII. Mas na verdade foi um siciliano quem a escreveu na primeira metade do século XV, utilizando fontes históricas palestinas (Guilherme de Tiro e Jacques de Vitry), fontes hagiográfica beneditinas e dominicanas e a literatura apocalíptica do século XIV. Pode-se deduzir isto por causa das falhas contidas na sua obra (como por ex.: ignorância da topografia da Palestina; a Regra Carmelitana teria sido escrita por um certo patriarca Alberto no ano 412, enquanto que esta foi dada alguns anos depois da entrada de Ângelo e de seu irmão em 1204/1205 entre os carmelitas; Jerusalém estaria ainda nas mãos dos cristãos em 1219; um jovem teria sido libertado do inferno por um milagre de Santo Ângelo; cita um tal de Goffredo, arcebispo de Palermo, que não existiu no período indicado) e pelos elementos cronológicos ali presentes (profecias que se adaptam bem à situação após a batalha de Kosovo[3] de 1389, a invasão da Bulgária e da Valacchia[4] em 1393).

Segundo esta biografia, os pais de Ângelo eram judeus e se chamavam Jessé (ou José) e Maria. O nascimento de Ângelo e de seu irmão João foi preanunciado pela Virgem Maria numa aparição aos seus pais. Após esta aparição os pais de Ângelo se converteram ao cristianismo. Ao se tornarem órfãos, os dois irmãos foram educados pelo patriarca Nicodemos até a idade de 18 anos; quando entraram no convento Santa Ana dos Carmelitas junto à Porta Áurea em Jerusalém, a pátria deles. Após um ano de prova, foram para o Monte Carmelo. Viveram naquele monte por 10 anos em rigoroso ascetismo. Ângelo começou logo a imitar a força taumatúrgica dos profetas Elias e Eliseu: fez retornar à superfície um machado caído na água[5], passou o rio Jordão a pé enxuto[6], curou leprosos[7], fez ressurgir os mortos[8] e cair fogo do céu[9]. Aos 28 anos, Ângelo, após ter estado em Jerusalém para receber a ordenação sacerdotal, se retirou no deserto da Quarentena, permaneceu ali por 5 anos em oração e penitência. Ao final deste período, numa aparição Cristo lhe ordenou ir para a Sicília com a finalidade de tentar a conversão de um pecador chamado Berengário, que há muito tempo convivia com a própria irmã e com a qual tinha tido 3 filhos. Antes, porém, devia passar por Alexandria para pegar algumas relíquias. Ao rezar para que o Senhor protegesse a Cidade Santa, foi informado sobre o futuro de Jerusalém, da Terra Prometida e do Cristianismo no Egito, Ásia Menor e Europa Meridional: mensagem que ele deveria divulgar nas suas pregações. Voltou para Jerusalém, aonde seu irmão João tinha se tornado patriarca. Ali Ângelo pregou para 60.000 pessoas e depois, tomou consigo três companheiros, foi para Alexandria e pegou as relíquias que o patriarca Atanásio lhe entregou. Embarcou no dia 1º de abril de 1219 numa nau genovesa, mas antes da chegada na Sicília topou 4 navios cheios de sarracenos. Estes espancaram Ângelo e seus companheiros. Entretanto, à oração do santo desceu fogo do céu que matou 60 dos agressores e deixou cegos outros 300. Estes, após a conversão, milagrosamente ficaram curados. Após uma parada em Messina, dirigiram-se para Civittavecchia, aonde entregou as relíquias para Frederico de Chiaramonte. Dali dirigiu-se para Roma. Durante a vista aos lugares santos, em São João do Latrão encontrou-se São Francisco e São Domingos. Na ocasião Ângelo predisse os estigmas a São Francisco. Ângelo recebeu de São Francisco o anúncio de que seria martirizado em breve. Retornando à Sicília, em Palermo foi hóspede dos basilianos de Santa Maria da Gruta, aos quais pregou durante 40 dias. Depois foi para Agrigento. Passando pelas termas de Cefalà, curou 7 leprosos (indicados com nome e lugar de origem), como também ao arcebispo de Palermo de nome Goffredo; pregou depois em Agrigento por 50 dias antes de chegar em Licata. Primeiro em segredo e depois publicamente tentou converter Berengário, que – desesperado por causa da conversão da irmã – no dia 5 de maio de 1220, enquanto Ângelo pregava para 5.000 pessoas junto à igreja dos santos Felipe e Tiago perto do mar, feriu o santo mortalmente com cinco golpes de espada. Antes de morrer, o santo recomendou para que não vingassem a sua morte. Oito dias depois de sua morte e de vários prodígios, Ângelo apareceu ao arcebispo de Palermo e lhe pediu sepultura.

Os escritos da vida atribuída a Enoque contam também uma aparição de São João Batista que ordena a Atanásio de Chiaramonte, patriarca de Alexandria, para entregar a Ângelo algumas relíquias. Este deveria levá-las para a Itália e entregá-las para seu irmão Frederico de Chiaramonte.

A biografia de Enoque não merece grande confiança, apesar de que alguns elementos parecem receber confirmação de outras fontes (um documento de entrega de relíquias a Frederico de Chiaramonte, ao qual se refere F. Ughelli-N. Coleti, Italia sacra. I, Venetiis 1717, pp. 231-234; a pertença em 1219-20 do mosteiro Santa Maria da Gruta de Palermo aos basilianos). O certo é que o autor introduz informações corretas numa composição de fantasia.

Já venerado no século XIV, após a divulgação da vida atribuída a Enoque, o culto de Santo Ângelo teve grande difusão entre os carmelitas e o povo. O Capítulo Geral dos Carmelitas de 1498 prescreveu que em todos os conventos carmelitas se fizesse uma comemoração todos os dias. Em 1564 se estabeleceu a celebração da festa com oitava solene.

As relíquias foram colocadas numa igreja carmelita; em 1457 os seus confrades obtiveram do Papa Calixto III a permissão para levá-las ao convento, mas não se fez nada até 1605. As relíquias foram tiradas da caixa de madeira em 1486 e colocadas numa urna de prata. No dia 5 de maio de 1623 foram colocadas numa urna ainda mais preciosa. Em 15 de agosto de 1662 a urna foi levada para a igreja atual. Para recordar a libertação da peste, em 1625 foi instituída uma festa em agosto, que é celebrada até hoje. No dia 4 de maio de 1626 Santo Ângelo foi proclamado também patrono de Palermo.

ICONOGRAFIA. Em torno de 1430, o pintor carmelita Filippo Lippi o afigurou na Madonna Trivulzio (Milano, Musei civici); várias vezes está nos afrescos (1472-73) do Santuário do Carmo de S. Felice del Benaco; dos últimos anos do mesmo século é a gravura atribuída a Tommaso De Vigilia, hoje Carmo de Palermo; o Pordenone a pintou na Madonna del Carmine (Venetia, Accademia delle Belle Arti).

Em seguida as representações tornam-se mais frequentes. Seus atributos: hábito carmelita (que o distingue de São Pedro mártir, dominicano), uma adaga na cabeça, um punhal no peito, uma palma na mão sozinha ou enfiada em três coroas. A tela de L. Caracci da Pinacoteca de Bolonha tem um falso título: não se trata do martírio de Santo Ângelo (crucificado numa árvore e com uma flecha no peito), mas é de um outro carmelita, ou seja, de São Pedro Tomás, bispo. Pedro Testa o representou na Basílica São Martinho aos Montes de Roma com a visão de Cristo no deserto.

LENDAS E FOLCLORE: De Santo Ângelo tomou o nome a localidade Santo Ângelo Muxaro[10] na Província de Agrigento (Sicília) por causa de uma possível estada sua ali; ele também teria habitado numa gruta nos arredores, que estava infestada de espíritos imundos, que ao fugirem, deixaram por sua vez uma grande fenda em forma de cruz; na mesma gruta há a “cama” do santo escavada na rocha. Em Cefalà Diana[11] se mostra a pegada do pé de Santo Ângelo na pedra onde sai a água quente. Em Caltabellotta[12] se conserva o púlpito onde ele teria pregado; em Agrigento havia uma capela na qual ele teria celebrado missa. Teria estado também em Lentini[13].

A sua maior devoção, como é natural, é em Licata, da qual é padroeiro. À direita da igreja ainda hoje está a fonte, que, segundo se diz, brotou no local do martírio e da qual os devotos pegam água sobretudo nas duas festas anuais em maio e agosto. A ele os licateses atribuem a preservação da cidade quando aconteceu o ataque dos turcos em 1553 e a libertação da peste em 1625: foi nesta última ocasião que se estabeleceu a ampliação da igreja (já tinha sido aumentada em 1564), depois reinaugurada em 1662. Até pouco tempo atrás, e em parte ainda hoje, a festa de 5 de maio era celebrada com costumes próprios: na noite da vigília se queimava um barco em honra do santo; no dia da festa se oferecia animais enfeitados (hoje reduzida à bênção de cavalos – fig. 11) e de velas. Durante a tarde se realiza a procissão com a urna do santo circundada por grandes velas em cima de gigantescos candelabros: na rua Príncipe de Nápoles a urna é passada para os marinheiros que completam o trajeto com tochas na mão, recordando o episódio dos turcos obrigados a se afastar.

Fonte: Província Carmelitana de Pernambuco

____________________________________________

Referências:

bibl.: L. Saggi, S. Angelo di Sicilia; studio sulla vita, devozione, folklore, Roma, 1962. Ali há mais bibliografia. Para a iconografia adicionar: Emond, I, pp. 130-136, II, pp. 79-83.

ludovico saggi

[1] Tradução e notas de Frei Wilmar Santin, O.Carm.: “ANGELO di Sicilia”, in Santi del Carmelo, Institutum Carmelitanum, Roma 1972, pp. 172-175

[2] Licata é uma cidade da Sicília, Província de Agrigento. Tem em torno de 40 mil habitantes. Suas origens remontam à Pré-história.

[3] Vencida pelos otomanos contra os exércitos da Sérvia e Bósnia. Esta vitória possibilitou a conquista dos Bálcãs pelo Império Otomano.

[4] Fica na região sul da Romênia.

[5] Cf. 2Rs 6,1-7 = prodígio realizado pelo Profeta Eliseu.

[6] Cf. 2Rs 2,8 = Elias e Eliseu passaram o Jordão a pé enxutos.

[7] Cf. 2Rs 5,1-27 = Eliseu cura do sírio Naamã da lepra.

[8] Cf. 1Rs 17,17-24 = Elias ressuscita o filho da viúva de Sarepta; 2Rs 4,18-37 = Eliseu ressuscita o filho da sunamita.

[9] Cf. 2Rs 1,9-14 = por duas vezes Elias faz descer fogo do céu, que devorou os soldados enviados pelo rei com a finalidade de prenderem o Profeta.

[10] Atualmente tem pouco mais de 1.500 habitantes.

[11] Cefalà Diana é uma localidade da Sicília com 1.032 habitantes (2007).

[12] Caltabellotta é uma cidade da Sicília, Província de Agrigento. Em 2008 tinha pouco mais do que 4.100 habitantes. Suas origens históricas remontam aos tempos antes de Cristo.

[13] Lentini é uma cidade da Sicília, Província de Siracusa. Tem em torno de 24 mil habitantes.

]]>
https://soucatequista.com.br/3658-2/feed/ 0
Milagre Reconhecido – Tito Brandsma https://soucatequista.com.br/tito-brandsma-um-homem-para-o-nosso-tempo/ https://soucatequista.com.br/tito-brandsma-um-homem-para-o-nosso-tempo/#respond Wed, 26 May 2021 17:28:18 +0000 http://carmelitas.org.br/?p=2391 Em 25 de maio de 2021, o Congresso dos Consultores Teológicos reconheceu o milagre atribuído à intercessão do Beato Tito Brandsma, O. Carm., sobre a cura cientificamente inexplicável do Pe. Michael Driscoll, O. Carm.

A resolução positiva desta segunda etapa, fundamental para a canonização, permitirá que a Causa seja submetida ao julgamento da Sessão Ordinária dos Cardeais e Bispos, membros da Congregação. Caso o resultado seja positivo, o Prefeito da Congregação submeterá as conclusões da Sessão Ordinária dos Cardeais e Bispos à aprovação do Sumo Pontífice. Por fim, o Sumo Pontífice convocará o Consistório Ordinário no qual será anunciada oficialmente a canonização do Beato.

Alegremo-nos pelos resultados obtidos até agora, mas continuemos a rezar sem cessar ao Senhor para que o processo continue com alegria e possamos chegar à canonização do Beato Tito Brandsma.

Sua vida e vocação

Tito nasceu na Holanda, no dia 23 de fevereiro de 1881. Era de família camponesa. No lar, havia seis filhos, quatro mulheres e dois homens. Todos tornaram-se religiosos, menos uma. Esta casou-se e com o marido cuidaram dos pais e do sítio.

Tito era um menino franzino, muito atencioso e perspicaz. Aos 11 anos, tomou o trem para chegar, por uma longa viagem, ao seminário franciscano. Era brilhante nos seus estudos. Chamou a atenção dos professores seu interesse em conhecer e aprofundar o sentido da vida. Um dia o reitor o chamou e lhe disse: “Sabe de uma coisa, Tito?”. “O que, senhor reitor?” – respondeu Tito. Tito recebe como resposta: “Você deve tornar-se jesuíta”.

Não é clara a razão pela qual ele finalmente não ingressou na Ordem franciscana e não se tornou jesuíta. Há várias hipóteses a respeito. Uma delas é o testemunho vocacional de Frei Casemiro, carmelita e parente dele. Esse lhe falou da beleza da vida de Nossa Senhora, a Mãe de Jesus e Mãe e Irmã dos carmelitas. No dia 17 de setembro de 1898, ingressa no Carmelo. Como frei ainda noviço, apaixonou-se pela vida de Santa Teresa de Jesus. Elaborou um belo florislégio das obras dela. É ordenado sacerdote em 17 de junho de 1905. É enviado para Roma para doutorar-se em filosofia. Ao mesmo tempo, segue um curso de sociologia. Conquista o título de doutor, mas esse título não lhe tira a humildade. Mais tarde, já professor universitário vê pela janela um pobre trabalhador empurrando com dificuldade sua carroça carregada de bananas morro acima. Tito lhe vem ao encontro, joga sua maleta de livros sobre a carroça e, juntos, empurram a carroça. Chegando em nível plano, os dois se despedem com cumprimentos fraternos, um indo para a feira e outro para dar aula de espiritualidade e mística na Universidade. Esse gesto de ajuda do Frei Tito é muitíssimo significativo porque havia entre o povo a nítida ideia que pobres e professores não se misturam.

“Entrego-me de corpo
e alma à causa de Deus”

 AÇÃO EVANGELIZADORA

De volta de Roma para a Holanda, Tito foi nomeado professor de Filosofia de alguns frades carmelitas. Seu entusiasmo de trabalhar pela evangelização do povo não lhe permitiu limitar-se aos estudos de professor. Quer fazer parte de uma Igreja em saída. Envolve-se na pastoral da juventude, criando escolas, fundando uma biblioteca pública e escrevendo artigos nos jornais da cidade. Ele não se limita apenas à pastoral da cidade, mas torna-se um pastor sem fronteiras. Funda em conjunto com outros professores a primeira Universidade Católica do seu país. Torna-se professor titular de teologia e mística da mesma Universidade. Sua maior preocupação era a imagem de Deus mais apropriada para o mundo de hoje:

“Entre as muitas interrogações que me coloco, nenhuma me ocupa tanto como o enigma do homem que, blefando do seu progresso, afasta-se de Deus. É decepcionante constatar como a profanação e a negação de Deus se alastram como doença contagiosa. Como ficou obscurecida a imagem de Deus, a ponto de não significar mais nada para muita gente! A falha é destas pessoas ou cabe a nós, de melhor formação, irradiar uma luz mais clara sobre a imagem dele, poder alimentar a esperança de uma nova imagem dele e assim pelo menos amenizar o maior de todos os problemas? Não é minha intenção fazer defesa do conceito sobre Deus que por muitos é refeitado, pois já existem apologias demais. Aliás, no decurso da história, costumamos seguir o caminho da defesa e da argumentação, enquanto que é muito mais nobre e proveitoso irradiar a verdade sobre Deus, de maneira mais positiva, na sua própria luz, a qual encanta a mente humana. Creio que a nossa missão é a de olhar ao nosso redor e rever o conceito que temos de Deus. Nele há uma riqueza tão grande e tantas facetas que devemos precaver-nos de nos apegarmos demais a representações tradicionais. Novos tempos exigem novas formulações. A imagem de Deus deve ser vivamente renovada e atualizada, indo ao encontro da cultura moderna e colocando em evidência aqueles aspectos da grandeza de nosso Deus, que mais fascinam a humanidade, hoje”, escreveu Frei Tito.

 JORNALISTA PERIGOSO

Em 1938, reuniu em 170 álbuns uma coleção de 16.000 fotos de textos de espiritualidade e mística, tiradas de mais ou menos 60 manuscritos. Esta “coleção Tito Brandsma” é guardada até hoje com muito carinho na Universidade. Como jornalista, escreveu em mais de 20 jornais, 104 artigos sobre os mesmos temas. O jornalismo, em todas as suas facetas, foi a paixão da sua vida. Ele o viu como um caminho privilegiado de levar Deus aos homens. Pôs em relevo o lado positivo e construtivo da vida. O anúncio da verdade era uma questão de justiça para ele.

Em 1935, foi nomeado pelo arcebispo diretor espiritual da união dos jornalistas católicos do seu país. Nesta função, entra cada vez mais em choque com a ideologia nazista, que tornou-se o assunto em suas aulas de 1938 a 1939. Foi profeta da liberdade de expressão. Denunciou o sistema ateu. Tinha diante de si o profeta Elias, homem de fogo com sua espada chamejante na mão, conhecido por seu lema: “Entrego-me de corpo e alma à causa de Deus”. Tito viveu esse lema, defendendo a liberdade do ensino e da imprensa. Seu carisma carmelita e sua pastoral adquiriram força na oração e na renúncia.

Também não se calou diante do nazismo, que chamava de paganismo moderno. Defendia nas suas aulas na universidade uma civilização de amor contra a ideologia do nazismo opressor. Tito tornou-se logo conhecido pela polícia nazista alemã, que elaborou de imediato um extenso relatório sobre a sua vida e atuação.

Ao aceitar, em 1942, a missão do arcebispo de Jong, convenceu os jornalistas católicos a não publicarem artigos ou propaganda nacional-socialista. Tito foi imediatamente visado pela polícia secreta. Após ser investigado em 1942, foi caracterizado por ela como “muito perigoso e cérebro de propaganda anti-nazista”. Pouco antes de ser preso no dia 19 de janeiro de 1942, compadeceu-se de um garoto que ficara órfão, procurando um casal de padrinhos para adotar o menino.

“Sofrer não faz mal, desde
que nos sintamos amados.”

 NA PRISÃO

Tito, prisioneiro, foi interrogado pelo comandante Hardegen. Ele não se deixa amedrontar pelo Movimento Nacional Socialista. O comandante lhe pergunta: “É certo que a Igreja quer sabotar as ordens das Forças de Ocupação alemãs para desta maneira pôr em perigo a paz na Holanda e impedir que o Movimento Nacional Socialista encontre acesso ao povo holandês”? Tito, com risco da própria vida, responde:

“A Igreja católica na Holanda atem-se às ordens da Forças de Ocupação, desde que estejam em consonância com o seu pensamento. Se houver razões fundamentais em contrário, a Igreja Católica recusa sua colaboração, com todas as consequências que disso possam provir. Caso aconteça esta tomada de posição e a consequência seja colocar em perigo a unidade política do país, a Igreja o lamentará profundamente, mas não se sentirá responsável por isto. O mundo de ideias nacional-socialistas é combatido por ela por razões que estão ancoradas na sua visão do mundo e na sua convicção religiosa. Do meu ponto de vista, é lamentável as Forças de Ocupação promoverem a ideologia do Movimento Nacional Socialista, pois o povo holandês e, em particular, o clero, não quer saber nada dos líderes deste Movimento. A Igreja católica vê como sua missão fortalecer as atitudes de todas as personalidades católicas, que têm função de liderança.”

Tito foi apontado oficialmente como um “homem de firmeza de caráter e perigoso para o sistema”. É preso. Durante sua permanência na prisão, entrega-se à meditação e à oração, seguindo uma disciplina conventual. Começa a escrever uma nova biografia de Teresa d´Ávila nas entrelinhas de um livro. Os guardas, de todas as maneiras o humilhavam, mas ele não perdia a paz. Impressiona os demais presos por suas palavras de esperança. Seu lema é: “Sofrer não faz mal, desde que nos sintamos amados”.

Muitos dos presos lembraram-se mais tarde da sua meditação sobre a Paixão do Senhor, na Sexta-feira Santa. Tito não pregava teoria, mas falava de coração, de sua própria experiência e fazia uma analogia entre o sofrimento de Cristo e o dele na prisão. Posteriormente, foi transportado para o campo de extermínio em Dachau. Quem fosse para lá, sabia que não haveria retorno. Suas roupas são trocadas por roupas listradas de prisioneiro. Raparam-lhe os cabelos e recebeu o número de preso – 30.492. Agora passa a ser apenas um número.

Dachau é um lugar conhecido pela violência brutal dos guardas. A partir de seu sentimento de superioridade, esses soldados alemães tinham profundo desprezo por todos os que não eram alemães. Frequentemente é punido por partilhar sua parca refeição com os outros presos, como por exemplo, entregar uma folhinha de alface a um companheiro. Os prisioneiros percebiam como Tito bebia da Fonte de água viva que é o próprio Deus. Tito suporta o sofrimento e em plena comunhão com Cristo sofredor oferece sua vida em favor de mundo mais justo e fraterno.

AMOR À EUCARISTIA

Só ao clero alemão era permitido celebrar a Eucaristia no bloco 26. Outros religiosos eram excluídos, mas, de maneira secreta, a santa comunhão chegava a eles. Certa noite o confrade de Tito, Rafael, levou a comunhão para ele. Tito a envolveu num papelzinho branco e a escondeu debaixo do cinto.

O guarda do dormitório, ao inspecionar o local, via a cama dele vazia. Foi à procura dele. Antes de chegar perto, Tito, em adoração, conseguiu guardar a hóstia no seu estojo de óculos e escondê-la sob a axila esquerda. O guarda se levantou grosseiramente contra ele insultando e espancando-o. Tito rolou pelo chão, mas conseguiu ainda arrastar o seu corpo por cima do degrau do dormitório. Frei Rafael o socorreu e o pôs sobre a cama e lhe perguntou se sentia fortes dores no que ele respondeu: “Ó irmãozinho, você não sabia quem eu carregava comigo”? Rafael caiu num profundo silêncio e, juntos, adoraram o Senhor. Rafael quis ajoelhar-se, mas Tito advertiu: “Cuidado! Eles podem nos ver rezando”.

Baixinho, professaram a sua fé na Eucaristia: “Ó Deus, Vos adoramos com fé, escondido e realmente presente sob as aparências de pão. A Vós, nosso coração todo se confia. Contemplando-Vos, tudo desfalece”. Tito deu a bênção e os dois se deitaram, sem terem sido incomodados pelos guardas.

“Quem quiser ganhar o mundo para Cristo,
deve ter a coragem de entrar em conflito
com esse mundo.”

FRATERNIDADE CARMELITA

Todos os dias os prisioneiros deviam marchar por um caminho lamacento de uma distância de três quilômetros para trabalhar com sol ou chuva numa plantação de verduras. Tito não mais aguentou. Estava totalmente esgotado e com os pés feridos pelos tamancos de madeira cobertas de couro duro. Ele foi carregado por dois carmelitas (OCD) Frei Hilário Tanuszewski e Alberto Urbanski novamente ao barracão.

PERDÃO À ENFERMEIRA

Seu estado de saúde estava piorando visivelmente. Foi colocado na enfermaria. Antes de a enfermeira lhe aplicar, obedecendo ordens, uma injeção letal, Tito lhe entregou o terço, mas ela lhe disse que não sabia rezar. Tito respondeu: “Reza pelo menos a última parte: rogai por nós, pecadores”. Ela deu risada. Mais tarde se converteu ao Cristianismo e no dia da beatificação de Tito deu o seu testemunho sobre ele.

Depois de terem sido feitas experiências médicas sobre o corpo dele, morreu no dia 26 de julho, na festa de Sant´Ana. Realizou-se o que ele afirmara em vida: “Quem quiser ganhar o mundo para Cristo, deve ter a coragem de entrar em conflito com esse mundo. É duro o conflito com o mundo: fez Cristo morrer na cruz”.

Depois seu corpo foi cremado nos fornos existentes no campo. Em sua cremação, uniu-se a milhões de outros que tiveram a mesma sorte. Seu espírito perdoou as crueldades da vingança nazista e a enfermeira. Em 1955, começou o processo de beatificação e, em 3 de novembro de 1985, foi beatificado por João Paulo II.

Nos periódicos e nas publicações internacionais, por ocasião de sua beatificação, foi ressaltado de modo particular seu trabalho de jornalista. Chamaram-no o primeiro jornalista mártir e elogiaram sua força de ânimo, seu sofrimento, o seu perdão oferecido à enfermeira assassina. Frei Kylian Healey, antigo Prior Geral dos Carmelitas, chamou Tito de um novo Elias, porque ele, totalmente penetrado do espírito do Carmelo e inteiramente consagrado a Deus, ardia de amor pelo Deus Vivo e pela humanidade. Vida transformada, vida renovada.

SANTO, MAS AINDA À ESPERA DE UMA CANONIZAÇÃO

Que Frei Tito é santo, ninguém duvida. Frei Tito foi beatificado pelo Papa João Paulo II na presença de muitos cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, em Roma. Mais que 12.800 lotaram a Basílica de São Pedro.

Para Tito poder ser canonizado, exige-se um milagre. Agora aconteceu o seguinte: um confrade nos Estados Unidos estava com câncer bem avançado. O bispo local com o povo pediram a Deus sua cura pela intercessão do Beato Tito. O frade se recuperou de sua enfermidade. O bispo montou um processo para o Vaticano reconhecer a cura como milagre. Se for reconhecido, Tito será canonizado.

Recentemente, o núncio apostólico na Holanda, Pe. Geral da Ordem do Carmo, Frei Fernando Romeral, e o ex-Padre Geral, Frei Falco Thuis, se encontraram para falar sobre o andamento do processo. Escreve Frei Falco: “A conversa com o núncio foi muito boa. Em breve, ele falará com o Papa Francisco sobre o andamento do processo de canonização. Naturalmente, devemos aguardar um pronunciamento oficial da Igreja, mas as chances são boas”.

DIVULGAÇÃO

O Papa João XXIII, certa feita, passou toda uma noite em claro, sem poder reconciliar o sono, não obstante a sua proverbial facilidade para dormir. A causa? Ele próprio a explicou na manhã seguinte: “A vida de Frei Tito Brandsma, um carmelita holandês, escrita por Fausto Vallainc, não me deixou dormir a noite inteira, visto que a sua leitura é tão emocionante que eu não pude interrompê-las; só consegui parar depois de havê-la concluído”.

Na nossa língua, existe o livro: “O caminho de Tito Brandsma no tempo de Hitler”, de 104 páginas, que pode ser adquirido com o autor deste artigo, Frei Gabriel Haamberg O. Carm. (gabrielocarm@uol.com.br)

 Diante de Jesus, na dor.

(Escrito por Frei Tito na prisão)

Ó Jesus, quando Te contemplo,
eu redescubro a sós contigo
que Te amo e que teu coração
me ama como a um dileto amigo.

Ainda que a descoberta exija
coragem, faz-me bem a dor.
por ela me assemelho a Ti,
pois é esse o caminho redentor.

Na minha dor, me rejubilo:
já não a julgo sofrimento,
mas sim predestinada escolha
unido a Ti num mesmo sentimento.

Deixa-me, pois, nessa quietude,
malgrado o frio que me alcança.
presença humana não permitas,
que a solidão já não me cansa.

Pois de mim sinto-Te tão próximo
como jamais antes senti.
Doce Jesus, fica comigo,
que tudo é bom junto de Ti.

 

Texto de:
Frei Gabriel Haamberg O. Carm

]]>
https://soucatequista.com.br/tito-brandsma-um-homem-para-o-nosso-tempo/feed/ 0