vida de santidade – Sou Catequista https://soucatequista.com.br Milhares de Artigos dos mais variados temas da Igreja Católica para a sua Catequese, Cursos, Downloads e muito mais! Sun, 05 May 2024 09:00:49 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://soucatequista.com.br/wp-content/uploads/2024/10/cropped-ico-1-32x32.png vida de santidade – Sou Catequista https://soucatequista.com.br 32 32 Santo Ângelo, Presbítero e mártir: vida ofertada no Carmelo pelo Evangelho https://soucatequista.com.br/3658-2/ https://soucatequista.com.br/3658-2/#respond Sun, 05 May 2024 09:00:49 +0000 http://carmelitas.org.br/?p=3658 Segundo fontes da tradição dignas de crédito, Ângelo veio do Monte Carmelo entre os primeiros carmelitas, que imigraram para a Sicília; foi assassinado por homens ímpios em Licata, na primeira metade do século XIII. Venerado como Mártir, bem cedo edificou-se uma igreja no lugar do seu martírio e ali foi depositado o seu corpo.

Ângelo foi para a Sicília com os religiosos que do Carmelo emigraram para aquela ilha, onde morreu, segundo dados tradicionais, que demonstram ser dignos de fé. Foi assassinado em Licata[2] pelas mãos de “ímpios infiéis” na primeira metade do século XIII. Por ser considerado mártir, foi construída uma igreja em sua honra no local da morte. O seu corpo foi colocado num altar desta igreja. Estas poucas informações e uma outra recolhida, em torno 1370, pelo beneficiário da São João do Latrão, Nicolau Processi, que se refere sobre a ida de Ângelo, em Roma – tomada do Catalogus Sanctorum composto até o final do século XIV ou início do XV, foram enriquecidas com lendas particulares até formar uma verdadeira história biográfica.

Muito conhecida e difundida é a vida de Santo Ângelo escrita por um certo Enoque, que se apresenta como carmelita e patriarca de Jerusalém e que viveu nos primeiros decênios do século XIII. Mas na verdade foi um siciliano quem a escreveu na primeira metade do século XV, utilizando fontes históricas palestinas (Guilherme de Tiro e Jacques de Vitry), fontes hagiográfica beneditinas e dominicanas e a literatura apocalíptica do século XIV. Pode-se deduzir isto por causa das falhas contidas na sua obra (como por ex.: ignorância da topografia da Palestina; a Regra Carmelitana teria sido escrita por um certo patriarca Alberto no ano 412, enquanto que esta foi dada alguns anos depois da entrada de Ângelo e de seu irmão em 1204/1205 entre os carmelitas; Jerusalém estaria ainda nas mãos dos cristãos em 1219; um jovem teria sido libertado do inferno por um milagre de Santo Ângelo; cita um tal de Goffredo, arcebispo de Palermo, que não existiu no período indicado) e pelos elementos cronológicos ali presentes (profecias que se adaptam bem à situação após a batalha de Kosovo[3] de 1389, a invasão da Bulgária e da Valacchia[4] em 1393).

Segundo esta biografia, os pais de Ângelo eram judeus e se chamavam Jessé (ou José) e Maria. O nascimento de Ângelo e de seu irmão João foi preanunciado pela Virgem Maria numa aparição aos seus pais. Após esta aparição os pais de Ângelo se converteram ao cristianismo. Ao se tornarem órfãos, os dois irmãos foram educados pelo patriarca Nicodemos até a idade de 18 anos; quando entraram no convento Santa Ana dos Carmelitas junto à Porta Áurea em Jerusalém, a pátria deles. Após um ano de prova, foram para o Monte Carmelo. Viveram naquele monte por 10 anos em rigoroso ascetismo. Ângelo começou logo a imitar a força taumatúrgica dos profetas Elias e Eliseu: fez retornar à superfície um machado caído na água[5], passou o rio Jordão a pé enxuto[6], curou leprosos[7], fez ressurgir os mortos[8] e cair fogo do céu[9]. Aos 28 anos, Ângelo, após ter estado em Jerusalém para receber a ordenação sacerdotal, se retirou no deserto da Quarentena, permaneceu ali por 5 anos em oração e penitência. Ao final deste período, numa aparição Cristo lhe ordenou ir para a Sicília com a finalidade de tentar a conversão de um pecador chamado Berengário, que há muito tempo convivia com a própria irmã e com a qual tinha tido 3 filhos. Antes, porém, devia passar por Alexandria para pegar algumas relíquias. Ao rezar para que o Senhor protegesse a Cidade Santa, foi informado sobre o futuro de Jerusalém, da Terra Prometida e do Cristianismo no Egito, Ásia Menor e Europa Meridional: mensagem que ele deveria divulgar nas suas pregações. Voltou para Jerusalém, aonde seu irmão João tinha se tornado patriarca. Ali Ângelo pregou para 60.000 pessoas e depois, tomou consigo três companheiros, foi para Alexandria e pegou as relíquias que o patriarca Atanásio lhe entregou. Embarcou no dia 1º de abril de 1219 numa nau genovesa, mas antes da chegada na Sicília topou 4 navios cheios de sarracenos. Estes espancaram Ângelo e seus companheiros. Entretanto, à oração do santo desceu fogo do céu que matou 60 dos agressores e deixou cegos outros 300. Estes, após a conversão, milagrosamente ficaram curados. Após uma parada em Messina, dirigiram-se para Civittavecchia, aonde entregou as relíquias para Frederico de Chiaramonte. Dali dirigiu-se para Roma. Durante a vista aos lugares santos, em São João do Latrão encontrou-se São Francisco e São Domingos. Na ocasião Ângelo predisse os estigmas a São Francisco. Ângelo recebeu de São Francisco o anúncio de que seria martirizado em breve. Retornando à Sicília, em Palermo foi hóspede dos basilianos de Santa Maria da Gruta, aos quais pregou durante 40 dias. Depois foi para Agrigento. Passando pelas termas de Cefalà, curou 7 leprosos (indicados com nome e lugar de origem), como também ao arcebispo de Palermo de nome Goffredo; pregou depois em Agrigento por 50 dias antes de chegar em Licata. Primeiro em segredo e depois publicamente tentou converter Berengário, que – desesperado por causa da conversão da irmã – no dia 5 de maio de 1220, enquanto Ângelo pregava para 5.000 pessoas junto à igreja dos santos Felipe e Tiago perto do mar, feriu o santo mortalmente com cinco golpes de espada. Antes de morrer, o santo recomendou para que não vingassem a sua morte. Oito dias depois de sua morte e de vários prodígios, Ângelo apareceu ao arcebispo de Palermo e lhe pediu sepultura.

Os escritos da vida atribuída a Enoque contam também uma aparição de São João Batista que ordena a Atanásio de Chiaramonte, patriarca de Alexandria, para entregar a Ângelo algumas relíquias. Este deveria levá-las para a Itália e entregá-las para seu irmão Frederico de Chiaramonte.

A biografia de Enoque não merece grande confiança, apesar de que alguns elementos parecem receber confirmação de outras fontes (um documento de entrega de relíquias a Frederico de Chiaramonte, ao qual se refere F. Ughelli-N. Coleti, Italia sacra. I, Venetiis 1717, pp. 231-234; a pertença em 1219-20 do mosteiro Santa Maria da Gruta de Palermo aos basilianos). O certo é que o autor introduz informações corretas numa composição de fantasia.

Já venerado no século XIV, após a divulgação da vida atribuída a Enoque, o culto de Santo Ângelo teve grande difusão entre os carmelitas e o povo. O Capítulo Geral dos Carmelitas de 1498 prescreveu que em todos os conventos carmelitas se fizesse uma comemoração todos os dias. Em 1564 se estabeleceu a celebração da festa com oitava solene.

As relíquias foram colocadas numa igreja carmelita; em 1457 os seus confrades obtiveram do Papa Calixto III a permissão para levá-las ao convento, mas não se fez nada até 1605. As relíquias foram tiradas da caixa de madeira em 1486 e colocadas numa urna de prata. No dia 5 de maio de 1623 foram colocadas numa urna ainda mais preciosa. Em 15 de agosto de 1662 a urna foi levada para a igreja atual. Para recordar a libertação da peste, em 1625 foi instituída uma festa em agosto, que é celebrada até hoje. No dia 4 de maio de 1626 Santo Ângelo foi proclamado também patrono de Palermo.

ICONOGRAFIA. Em torno de 1430, o pintor carmelita Filippo Lippi o afigurou na Madonna Trivulzio (Milano, Musei civici); várias vezes está nos afrescos (1472-73) do Santuário do Carmo de S. Felice del Benaco; dos últimos anos do mesmo século é a gravura atribuída a Tommaso De Vigilia, hoje Carmo de Palermo; o Pordenone a pintou na Madonna del Carmine (Venetia, Accademia delle Belle Arti).

Em seguida as representações tornam-se mais frequentes. Seus atributos: hábito carmelita (que o distingue de São Pedro mártir, dominicano), uma adaga na cabeça, um punhal no peito, uma palma na mão sozinha ou enfiada em três coroas. A tela de L. Caracci da Pinacoteca de Bolonha tem um falso título: não se trata do martírio de Santo Ângelo (crucificado numa árvore e com uma flecha no peito), mas é de um outro carmelita, ou seja, de São Pedro Tomás, bispo. Pedro Testa o representou na Basílica São Martinho aos Montes de Roma com a visão de Cristo no deserto.

LENDAS E FOLCLORE: De Santo Ângelo tomou o nome a localidade Santo Ângelo Muxaro[10] na Província de Agrigento (Sicília) por causa de uma possível estada sua ali; ele também teria habitado numa gruta nos arredores, que estava infestada de espíritos imundos, que ao fugirem, deixaram por sua vez uma grande fenda em forma de cruz; na mesma gruta há a “cama” do santo escavada na rocha. Em Cefalà Diana[11] se mostra a pegada do pé de Santo Ângelo na pedra onde sai a água quente. Em Caltabellotta[12] se conserva o púlpito onde ele teria pregado; em Agrigento havia uma capela na qual ele teria celebrado missa. Teria estado também em Lentini[13].

A sua maior devoção, como é natural, é em Licata, da qual é padroeiro. À direita da igreja ainda hoje está a fonte, que, segundo se diz, brotou no local do martírio e da qual os devotos pegam água sobretudo nas duas festas anuais em maio e agosto. A ele os licateses atribuem a preservação da cidade quando aconteceu o ataque dos turcos em 1553 e a libertação da peste em 1625: foi nesta última ocasião que se estabeleceu a ampliação da igreja (já tinha sido aumentada em 1564), depois reinaugurada em 1662. Até pouco tempo atrás, e em parte ainda hoje, a festa de 5 de maio era celebrada com costumes próprios: na noite da vigília se queimava um barco em honra do santo; no dia da festa se oferecia animais enfeitados (hoje reduzida à bênção de cavalos – fig. 11) e de velas. Durante a tarde se realiza a procissão com a urna do santo circundada por grandes velas em cima de gigantescos candelabros: na rua Príncipe de Nápoles a urna é passada para os marinheiros que completam o trajeto com tochas na mão, recordando o episódio dos turcos obrigados a se afastar.

Fonte: Província Carmelitana de Pernambuco

____________________________________________

Referências:

bibl.: L. Saggi, S. Angelo di Sicilia; studio sulla vita, devozione, folklore, Roma, 1962. Ali há mais bibliografia. Para a iconografia adicionar: Emond, I, pp. 130-136, II, pp. 79-83.

ludovico saggi

[1] Tradução e notas de Frei Wilmar Santin, O.Carm.: “ANGELO di Sicilia”, in Santi del Carmelo, Institutum Carmelitanum, Roma 1972, pp. 172-175

[2] Licata é uma cidade da Sicília, Província de Agrigento. Tem em torno de 40 mil habitantes. Suas origens remontam à Pré-história.

[3] Vencida pelos otomanos contra os exércitos da Sérvia e Bósnia. Esta vitória possibilitou a conquista dos Bálcãs pelo Império Otomano.

[4] Fica na região sul da Romênia.

[5] Cf. 2Rs 6,1-7 = prodígio realizado pelo Profeta Eliseu.

[6] Cf. 2Rs 2,8 = Elias e Eliseu passaram o Jordão a pé enxutos.

[7] Cf. 2Rs 5,1-27 = Eliseu cura do sírio Naamã da lepra.

[8] Cf. 1Rs 17,17-24 = Elias ressuscita o filho da viúva de Sarepta; 2Rs 4,18-37 = Eliseu ressuscita o filho da sunamita.

[9] Cf. 2Rs 1,9-14 = por duas vezes Elias faz descer fogo do céu, que devorou os soldados enviados pelo rei com a finalidade de prenderem o Profeta.

[10] Atualmente tem pouco mais de 1.500 habitantes.

[11] Cefalà Diana é uma localidade da Sicília com 1.032 habitantes (2007).

[12] Caltabellotta é uma cidade da Sicília, Província de Agrigento. Em 2008 tinha pouco mais do que 4.100 habitantes. Suas origens históricas remontam aos tempos antes de Cristo.

[13] Lentini é uma cidade da Sicília, Província de Siracusa. Tem em torno de 24 mil habitantes.

]]>
https://soucatequista.com.br/3658-2/feed/ 0
“Os braços de Jesus serão meu elevador até o céu” https://soucatequista.com.br/os-bracos-de-jesus-sera-meu-elevador-ate-o-ceu/ https://soucatequista.com.br/os-bracos-de-jesus-sera-meu-elevador-ate-o-ceu/#respond Wed, 30 Sep 2020 16:00:40 +0000 http://carmelitas.org.br/?p=5045  

Lembro-me de que quando criança, meu pai estava me ensinando a nadar. Sempre tive muito cuidado com águas em movimento. Não era um medo que me tirasse a coragem em me lançar, mas prudência diante de uma realidade de que não tinha controle, porque não a conhecia.

Meu pai ficava no fundo da piscina e me dizia:

– Pula, meu filho!

Eu não estava seguro de mim mesmo, porque algo ainda não me era claro na consciência.  Novamente meu pai dizia:

– Pula, meu filho, e não tenha medo, porque o pai está aqui para ampará-lo.

Algo despertou dentro de mim ao ouvir meu pai. Vendo-o com os seus braços estendidos, pude perceber que realmente alguém iria me amparar. O medo desapareceu e lá me lancei.

Creio que esta deve ser nossa atitude para com Deus, no processo do amadurecimento da nossa fé.  Este Deus, que é puro amor, nunca há de nos desamparar. Ele está sempre nos amparando de várias formas. Quem nos dá essa garantia, pois ele mesmo foi amparado pelo Pai,  é Jesus.  Jesus, que é o filho de Deus e é Deus.

Como dizia nossa irmã mais velha na fé, Teresinha do Menino Jesus: “Os braços de Jesus serão meu elevador até o céu.” Quando confiamos em conhecimento e entrega total aos ensinamentos de Jesus, este processo, em movimento no Espírito, nos leva àquilo que Deus espera de todos nós: a Santidade.

Santo é todo aquele que procura conhecer e tomar posse daquilo que Deus nos deu por meio de Jesus, que é a vida eterna. E a palavra nos diz que a “vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o Deus único e verdadeiro e aquele que enviaste, Jesus Cristo” (João 17,3).

Assim, procure conhecer  Jesus e viva os seus ensinamentos. Eu creio, porque Ele nos dá essa certeza. Ele mesmo diz na sua Palavra: “Em verdade, em verdade, vos digo: quem crê em mim, fará as obras que faço e fará até maiores que elas, porque vou para o Pai”(João 14,12).

Estamos nos aproximando da Festa de Santa Teresinha do Menino Jesus, grande doutora do verdadeiro AMOR. Como diz a Exortação apostólica do PAPA FRANCISCO, “Gaudete et Exsultate”, sobre o chamado à santidade no mundo atual: “Cada cristão, quanto mais se santifica, tanto mais fecundo se torna para o mundo.” E essa santificação, como diz o Papa Francisco, está à porta: trabalho, vida de família, vida religiosa, vida profissional, convivência com todos, convivência com a natureza.

Enfim, onde há foco de vida, há um portal para o eterno.

Com mãos postas, peço ao Deus da Vida que o abençoe.

Frei Rothmans Campos, O.Carm.

 

 

]]>
https://soucatequista.com.br/os-bracos-de-jesus-sera-meu-elevador-ate-o-ceu/feed/ 0
Sinais de santidade, segundo Santa Teresa de Jesus https://soucatequista.com.br/sinais-de-santidade-segundo-santa-teresa-de-jesus/ https://soucatequista.com.br/sinais-de-santidade-segundo-santa-teresa-de-jesus/#respond Sun, 21 Jan 2018 09:00:42 +0000 http://carmelitas.org.br/?p=2464 Houve tempos em que se considerava que os místicos, como Santa Teresa, percorriam um caminho diferente ao dos cristãos comuns. Como consequência, os escritos dos místicos pareciam representar uma espiritualidade da elite, espiritualidade que não se podia aplicar a todos.

Hoje entendemos que estes santos somos nós mesmos. Eles nos mostram o potencial de nossa humanidade. Estão no topo da coluna e nos transmitem o impacto do amor de deus em suas vidas. O que escrevem não é algo especial para uns poucos, mas para servir de guia e encorajamento a todos. O caminho que descrevem é mais normativo que excepcional.

Uma das contribuições de Santa Teresa de Jesus é de ter indicado certos sinais na vida de uma pessoa que denotam o crescimento na santidade. Independentemente de que uma pessoa tenha ou não experiências religiosas extraordinárias – como as vozes e visões de Teresa –, estes sinais indicam que o caminho espiritual está alicerçado sobre uma base firme. São indícios da transformação, da crescente abertura da pessoa à ação do Espírito. Podemos citar entre estes sinais de santidade: 1- profunda humanidade, 2- ampla liberdade, 3- grande generosidade. Veremos abaixo essas três dimensões.

>>>Já pensou em ser um carmelita? Preencha o formulário

Profunda humanidade
Fazer a passagem do desempenhar um papel para o encontro de si mesmo, de sua verdade interior

Somos um mistério para nós mesmos, e só deus conhece quem somos realmente. Teresa defendeu que nossa verdadeira identidade é descoberta na relação com o senhor. Ela disse: “não posso conhecer-te, senhor, se não me conheço a mim mesma, porém não posso conhecer-me a mim mesma se não conheço a ti”. Em outras palavras, quanto com maior clareza podemos dizer quem é Deus, com maior clareza podemos proclamar em nossas vidas nossa própria identidade e expressarmos nossa humanidade. Uma pessoa de oração, aberta ao chamado de Deus, deveria encontrar-se mais à vontade em sua humanidade. Quanto mais pudesse dizer “Deus” em sua vida, mas poderia dizer “Teresa” (o nome de cada um).

Às vezes, na história da espiritualidade, o mandado bíblico de renunciar a si mesmo foi interpretado no sentido de desprezar a si mesmo, para reconhecer com relutância a própria humanidade e tê-la em muito pouca consideração. Mais que uma promessa isso foi um problema. Esta interpretação deu lugar, com frequência, a uma humanidade abatida (acompanhada de um rosto pesaroso). O Papa Francisco denunciou a cara de funeral. Os sintomas são observados em pessoas que se encontram sempre “carrancudas e hostis”, dando testemunho de uma “severidade teatral”; têm um “estéril pessimismo”. Ele nos disse que estes são sinais de medo e insegurança.

Apesar disso, o mandado evangélico de negar-se a si mesmo estava, na realidade, desafiando a nossa inclinação ao egoísmo, a vivermos demasiado voltados a nós mesmos, e sem perceber as necessidades de nossos irmãos. Um ego sadio pode facilmente chegar a ser doentio, egocêntrico. Este “eu” que inclina todas as coisas às suas próprias necessidades e desejos não é um eu maduro.

Teresa insistiu na humanidade de Jesus Cristo. Sua humanidade ajudará às irmãs a valorizar e a pôr os pés na terra, em sua própria humanidade. Deixar de um lado o Jesus humano é um erro. A oração nunca nos eleva tanto, disse ela, que não necessitemos dos evangelhos e da liturgia da Igreja. Somos humanos e vamos para Deus de uma maneira humana. Sua viva e atrativa personalidade era expressão de uma humanidade que foi se aprofundando na medida em que amadurecia sua união com o senhor.

Ampla liberdade
Fazer a passagem do serviço obsessivo aos ídolos à resposta livre a Deus

Na vida de uma pessoa se dá uma sutil mudança quando vai crescendo sua confiança na presença e no amor de Deus. As ações compulsivas e preocupações obsessivas vão diminuindo. Em lugar de depender de fontes externas de autoafirmação, tais como títulos e posses, a pessoa que vai amadurecendo na espiritualidade aprende e vive a partir de dentro, desde o santo mistério que ocupa o centro da vida. Quando Santo Agostinho disse ao senhor: “tu estavas dentro de mim, e eu estava fora… tu estavas comigo e eu não estava contigo”, nos mostrou o desafio que se nos apresenta quando queremos crescer na santidade. É necessário levar uma vida interior consciente e orante. Ao ir Deus ocupando o centro da própria vida, os ídolos da periferia vão perdendo poder.

Santa Teresa identifica tempos nos quais experimentou um crescimento da liberdade de espírito. Quando começou sua reforma do carmelo, no início Teresa se sentiu profundamente ferida pelas críticas. Também se sentia afetada pelos louvores. Depois chegou a considerar tudo isto com certa indiferença. Suas reações mudaram: se era criticada, considerava como sendo o que ela merecia, e se era louvada, considerava que nisto era louvado o senhor, e também o aceitava. Desse modo, alcançou a liberdade de não responder emocionalmente e de não ser molestada pelos comentários dos demais.

Teresa também nos conta que, uma vez, na sua profunda união com Cristo, o pensamento da morte parecia ser um nobre desejo. A morte seria o aperfeiçoamento de sua peregrinação e o cume de sua união com o senhor. Porém, foi refletindo sobre isso, chegando finalmente a descobrir um problema neste aparente nobre desejo de morrer e estar com o senhor. Teresa deu-se conta de que queria morrer, quando a pergunta verdadeira tinha quer ser esta outra: “o senhor quer isto?” Ela ensinava com frequência que a finalidade da oração é “a conformidade com a vontade de Deus”. Ao questionar-se, “Deus quer isto?”, a atitude ou intenção de Teresa mudou. Desejava permanecer neste mundo, servindo, tanto tempo quanto quisesse Deus, e também estava pronta para ir para casa e estar com o senhor quando ele o dispusesse. Era livre para estar disponível ao que Deus quisesse.

Grande generosidade
Fazer a passagem do egoísmo ao amor desinteressado

Com frequência Teresa fala de um objetivo da caminhada espiritual: uma crescente sensibilidade às necessidades dos demais. O caminho não pode desembocar numa espiritualidade encerrada em si mesmo, numa comunidade ensimesmada. A caminhada deve levar a uma expressão externa de serviço. A pessoa espiritual é consciente de que tem a responsabilidade de usar os dons recebidos de Deus para o bem do povo de Deus. Não vamos sós a Deus; não é uma peregrinação individual. Teresa, sem sombra de dúvida, afirma o mandado evangélico de amar a Deus e ao próximo. Este serviço a nossos irmãos é a prova de fogo do cristianismo.

Nas etapas da viagem, como Teresa descreve em sua obra clássica sobre a oração, o Castelo Interior, se dá uma maior intimidade com Deus. Ela descreve várias etapas ou moradas nessa relação. O leitor espera que a última etapa, a sétima morada, seja uma situação de intensa interioridade e quase de inacessível experiência espiritual. Apesar disso, é uma revelação e um alívio ler sua declaração de que a finalidade desta união profunda com Deus são as boas obras, as boas obras!

Teresa exortou suas irmãs a manter uma espiritualidade com os pés na terra, que busca o benefício dos demais. Quando as irmãs se queixaram de que o ambiente em que viviam sua vida de clausura dava pouca saída para o serviço amplo à Igreja, Teresa as desafiou. Disse-lhes que não é bom sonhar grandes projetos quando se lhes apresentava diante de si a oportunidade de umas servirem às outras. Recordou-lhes que Deus não julga a grandeza do que fazemos senão o amor com que fazemos o que é possível. Teresa lhes disse, e nos diz hoje: não construam castelos no ar! Deixemos que nosso cristianismo encontre expressões práticas e eficazes do que disse Teresa.

Frei John Welch, O.Carm.
Fonte: Citoc Magazine, nº 2.2015
Tradução: Província Carmelitana Pernambucana

 

]]>
https://soucatequista.com.br/sinais-de-santidade-segundo-santa-teresa-de-jesus/feed/ 0