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Vida de Menina

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Direção: Helena Solberg –  BRASIL

Do livro “Minha vida de menina” – Helena Morley – Cia. das Letras

É só se deixar levar…Deixar-se levar pelo barulho das águas límpidas chapiscadas pelos pés das crianças, pelas pedras ali atiradas e servindo de mote para a competição entre elas.

É só se deixar levar…Pelo barulho das galinhas cacarejando e dos pássaros a cantar. Pelo barulho das rodas do carro de boi a marcar os paralelepípedos centenários e a carregar, de um lugar a outro, as horas sem fim de um tempo que se escoa na emoção escrita de Helena, menina que se vai e gente grande que ainda não é.

É só se deixar levar…Pela emoção singela em cada rosto, em cada gesto e em cada fala. Tudo simples, na dose certa. Não há nenhum arroubo nas cenas, na reprodução da época, na composição das personagens.

É só se deixar levar…Pela sensibilidade e delicadeza colocada em cada detalhe da casa, do banco escolar, das janelas para a rua, do pomar, da cozinha, do prato com bolo de fubá, da lousa com texto em francês, das disputas juvenis, do cabide rústico e do embornal pendurado, dos pratos na parede, dos xales da avó e das tranças nas crianças brancas e negras.

As tramas e dramas familiares ali estão, mas com a perspicácia, crueza e humor que só a meninice sabe ver e revelar. Os costumes da época mostram-se a nós tão naturalmente nos diálogos e cenas, que quase não nos damos conta de que se trata de registro detalhado e profundo de um tempo cheio de preconceito, disputa, decadência e sonho. Um tempo de profundas mudanças sociais e políticas registrado pelo olhar de uma menina inconformada com o que via, vivia e observava, em si e nos que a cercavam. E ousava pensar e dizer! E suas percepções eram argutas e realistas.

A velha senhora viúva, mãe e avó que tem que aceitar a condição de ser gerenciada pelo filho, que disputa com a irmã e que tudo toma para si.  Mãe que respeita e ajuda o casamento, feito por amor, da filha com o estrangeiro que sonhou fazer fortuna e que resiste às evidências do fim do ciclo econômico. Avó que socorre a neta, criando explicações que a enalteçam e que amenizem a dor da diferença.

A mãe de Helena que, por amar o marido, aceita seu sonho mas adoece por não poder se insurgir. Helena pode. E reage ao mundo dos adultos. E, intuitivamente, denuncia suas manobras: vende o broche que ainda não era seu, como o pai vendera o diamante que também não era dele. E tudo muda!

Outros retratos daquele tempo: as relações entre brancos e negros, marcadas pela ambigüidade que seguirá presente: aproximação e distância, igualdade e discriminação. O que corrigia maus modos era o colégio de freiras, marcado por uma religião concreta, baseada no pecado e punição.

Parece que atores, livro, roteiro, direção, música e fotografia; que todos apaixonaram-se pela escrita e “escreveram” uma obra em sintonia e harmonia, que nos deu a delícia de deixar-nos levar pela alegria e leveza, na simplicidade do ser, viver, sentir e observar o que é humano.

Maria Teresa Moreira Rodrigues

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